Críticas


DE CABEÇA ERGUIDA

De: EMMANUELLE BERCOT
Com: CATHERINE DENEUVE, BENOIT MAGIMEL, ROD PARADOT, SARAH FORESTIER
18.09.2015
Por João de Oliveira
O filme e o papel da Justiça francesa soarão como um soco no estômago dos que defendem a redução da maioridade penal, ao invés de engajamento do Estado na proteção dos menores.

Diante do injustificável e incompreensível desengajamento do Estado brasileiro em relação às suas crianças desfavorecidas, que prefere, ao invés de protegê-las, procurando alternativas sociais que as impeçam de cair na delinquência, buscar mecanismos jurídicos para colocá-las mais cedo nas prisões, ceifando suas juventudes e oficializando a segregação que as estigmatiza desde o berço, agravando o problema em lugar de resolvê-lo, a intriga do novo filme da diretora francesa Emmanuelle Bercot pode parecer quase surrealista aos olhos dos brasileiros, sejam eles reacionários ou progressistas.

Na ausência ou na incapacidade dos pais, muitas vezes tão jovens e inconsequentes quanto os próprios filhos que eles colocaram quase que involuntariamente no mundo, o governo francês vê como sua a obrigação e a responsabilidade de assumir a guarda, a tutela e a proteção dessas crianças. Por conseguinte, quando de suas primeiras rupturas das normas aceitáveis de uma convivência social harmônica, ao invés de serem arremessados, como no caso brasileiro, no antro de promiscuidade de "abrigos" que não passam de prisões - ou mesmo em prisões igualmente abarrotadas e insalubres, expostos às mais variadas e diversificadas formas de violências praticadas por marginais de altíssima periculosidade, para não falar das brutalidades eventuais sofridas por aqueles que deveriam protegê-los, os menores delinquentes franceses são amparados e seguidos quase que individualmente por um grupo de profissionais especializados. Como mostra o filme, para o bem ou para o mal como poderiam argumentar certos brasileiros, qualquer violência cometida contra a criança por parte dos educadores é passível de punição.

Como a Justiça francesa costuma julgar o crime cometido e não o homem (a Justiça é cega, lembram-se?), a vida de um delinquente tem o mesmo valor que a vida de qualquer outro cidadão, independentemente da classe, origem social ou cor da pele. O infrator deve pagar por seus erros, mas também deve ter, na medida do possível, direito a uma nova oportunidade. Daí o investimento humano e humanitário, quase personalizado na reinserção social do menor por parte de seu tutor/orientador (Benoit Magimel) e da juíza representada por Catherine Deneuve que, para melhor generalizar o ideal da Justiça francesa, não possui um patrônimo. Não se trataria, ou não deveria se tratar, parece nos dizer o filme, de um caso isolado, de uma exceção, mas da regra.

A diretora Emmanuelle Bercot, que é também roteirista (ela é co-roteirista do ótimo filme Polisse, da diretora Maïwenn) e atriz (ela dividiu, não sem espanto da crítica, o prêmio de melhor atriz do Festival de Cannes de 2015 com a atriz americana Rooney Mara), aborda, uma vez mais, o mal estar social e existencial dos adolescentes em suas buscas pela emancipação e em suas relações conflituosas com os adultos. No caso de De Cabeça Erguida, a cineasta tenta criar um perigoso, ainda que compreensível, laço de causalidade entre a delinquência juvenil e a falta de estrutura e de planejamento familiares no seio de uma parcela das classes sociais desfavorecidas, o que acaba deixando as crianças entregues à sua própria sorte. Marginalizadas e desamparadas dentro e fora de casa, elas crescem revoltadas contra o universo adjacente, utilizando a violência, verbal ou física, como a única forma de expressão possível. A violência apresenta-se como a única forma de linguagem e de comunicação com um mundo que insiste em lhes ignorar.

A mãe do jovem personagem principal - muito bem interpretada (ainda que de forma um tanto caricaturada) pela jovem atriz Sarah Forestier, revelada por A Esquiva, o belo filme de Abdellatif Kechiche - é tão ou mais inconsequente e imatura do que o filho - que ela tenta, ainda que canhestramente, proteger, mas cujos problemas estão além de sua capacidade social, material e intelectual de compreensão e resolução. Nesse sentido, ao representar, mesmo que de maneira não muito clara nem muito bem delineada, a possibilidade desse círculo vicioso, no qual algumas famílias carentes parecem eternamente enredadas, a instância narrativa do filme reivindica e positiva a ação do Estado como única escapatória possível.

Ao contrário do clima soturno e triste pela falta de perspectiva de seu personagem e dos jovens dos quais ele parece ser o microcosmo, a bela fotografia do filme é colorida, cheia de vida, esperançosa. O filme, que tenta traçar o perfil de uma certa juventude atual francesa, é mais um representante de um certo cinema social francês contemporâneo que, de forma quase naturalista e não sistematizada, se contenta, invariavelmente, em apontar e eventualmente denunciar sem, contudo, tomar abertamente partido, como é o caso de um certo cinema social inglês. Otimista e algo fabuladora, a direção, que prenuncia desde o início o seu final um tanto irrealista quando comparado à realidade, opta por filmar grandes espaços com imensas profundidades de campo, como a indicar perspectivas possíveis para o menor, ao invés de encerrar seus personagens em planos fechados, o que talvez traduzisse esteticamente melhor a realidade do filme.

Através de uma montagem acelerada em seus primeiros planos e de uma câmara na mão agitada e nervosa, que segue seu personagem de perto, a narrativa tenta transformar em imagens a agitação, a violência e a indômita cólera de seu personagem. Uma excitação que vai diminuindo na medida em que o menor vai se acalmando. Se os primeiros planos do filme lembram, vagamente, as sequências iniciais de Rosetta, dos irmãos Dardenne, a intriga e os diálogos vulgares trazem à memória Mommy, de Xavier Dollan. Os atores estão ótimos, sobretudo o jovem Rod Paradot, que, com seus olhares duros e penetrantes, interpreta com muita convicção e talento o revoltado adolescente Malony. Benoît Magimel, que interpreta o humano, passional e, portanto falível educador, também merece destaque. Com uma representação minimalista nos gestos, expressões e olhares, ele consegue transmitir a ideia de um homem carente que tenta ajudar, mas que também parece precisar de ajuda.

O filme e o papel da Justiça francesa soarão como um soco no estômago daqueles que defendem a redução da maioridade penal, ao invés de defenderem um maior engajamento social do Estado na proteção de seus menores.







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