Críticas


DONA DA HISTÓRIA, A

De: DANIEL FILHO
Com: MARIETA SEVERO, DÉBORA FALABELLA, ANTONIO FAGUNDES, RODRIGO SANTORO
11.10.2004
Por Daniel Schenker
REIVINDICANDO AUTORIA NUM CINEMA IMPESSOAL

Texto de João Falcão, A Dona Da História reúne preciosos achados de observação humana ao colocar o leitor/espectador diante de algumas verdades incontestáveis – entre elas, a distância entre aquilo que cada pessoa gostaria de ter se tornado e o que efetivamente se tornou e o fato de que fazer uma escolha implica em deixar de contar com todas as possibilidades diante de si. É preciso aprender a renunciar, lembra Falcão, porque na vida nem tudo pode ser conciliado.



Mas muita coisa pode. E o problema principal reside no fato de que Carolina, que reivindica para si o direito de ser a dona de sua história, não precisava ter feito a grande escolha de sua vida e, conseqüentemente, nem entrado em crise após tantos anos. Nada a impediria de conjugar uma vida familiar estável com uma carreira de sucesso. Marieta Severo, sua intérprete (ao lado de Débora Falabella), é a prova viva disto. Fica a impressão de que João Falcão lançou questões extremamente potentes, mas errou na hora de ilustrá-las. Mas tudo isto diz tão-somente respeito ao texto. Falta entrar no mérito da versão para o cinema.



Uma versão que não chega destituída de qualidades. Mais bem cuidada do que o artificialmente solar A Partilha , esta nova incursão de Daniel Filho na direção, porém, não esconde sua fidelidade às ferramentas da televisão, aderindo a uma vertente que parece ganhar um número crescente de representantes, a julgar por parte considerável da produção brasileira contemporânea. Filiado a um cinema postiço, sem dono e sem história, o filme deixa uma indagação no ar: quem exatamente é o autor das palavras pronunciadas pelas personagens? A resposta não está numa possível declamação dos atores, “local” mais freqüente onde costuma ser encontrada, e sim na falta de raiz do fazer cinematográfico ao qual A Dona Da História pertence.



Uma impessoalidade que entra em choque com a jornada de Carolina, engajada na retomada das rédeas da própria vida. Vendo a sua fantasia de protagonista do mundo reduzida à função passiva de espectadora dos acontecimentos, ela passa a questionar, 32 anos de casamento depois, as decisões que tomou no passado, sentindo-se confinada e oprimida por aquilo que desejou (deseja?). Ciente de que não dá para apertar a tecla rewind no vídeo das decisões tomadas e nem voltar ao tempo em que a Rua Vinicius de Moraes era denominada Montenegro e a Barra, um lugar longínquo e desabitado em meio ao clima conturbado do Brasil do ame-o ou deixe-o, Carolina aprende a gostar de ser como é. Preservando algo do sabor melancólico e doce-amargo do espetáculo teatral, A Dona Da História , o filme, soma pontos com Marieta Severo fluente no naturalismo e se aproximando, pelo menos na passagem de Vivian Maia no camarim, da integridade do depoimento.





# A DONA DA HISTÓRIA

Brasil, 2004

Direção: DANIEL FILHO

Roteiro: JOÃO FALCÃO, JOÃO EMANUEL CARNEIRO e DANIEL FILHO

Fotografia: JOSÉ ROBERTO ELIEZER

Montagem: FELIPE LACERDA

Trilha Sonora: DJ MEMÊ

Direção de Arte: CLOVIS BUENO

Elenco: MARIETA SEVERO, ANTONIO FAGUNDES, DÉBORA FALABELLA, RODRIGO SANTORO

Duração: 86 minutos

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