DVD/Blu-ray


A ARTE DE ANDREI TARKÓVSKI, em DVD, pela VERSÁTIL

De: ANDREI TARKÓVSKI
Com: MARGARITA TEREKHOVA, NIKOLAI BURLYAEV, ANDREI TARKÓSVKI
30.09.2015
Por Octavio Caruso
Pela primeira vez no país, as obras-primas do diretor estão sendo lançadas com a qualidade que merecem.

A Infância de Ivan (Ivanovo Detstvo – 1962)

Uma criança psicologicamente destruída pela guerra, tentando, com incrível resiliência, esforço transmitido elegantemente na opção do diretor pelas poéticas sequências oníricas, manter viva uma réstia de inocência, confrontando a crueldade dos adultos. Toda sua família foi assassinada pelos nazistas. Como sugestão, veja a obra numa dobradinha com “Os Meninos”, de Narciso Ibáñez Serrador, que apresenta uma crítica menos sutil, porém, tão eficiente quanto, sobre o mesmo tema.

Nesse primeiro trabalho, o menos hermético em sua filmografia, Andrei Tarkóvski exercita sua sensibilidade ao introduzir no roteiro o elemento do sonho, algo inexistente na obra original de Vladimir Bogomolov, abusando do recurso de imagens em negativo e truques com ângulo de câmera, na tentativa de emular a atmosfera de irrealidade, amalgamando esses artifícios a um resgate emotivo de suas próprias memórias, compondo cenas inesquecíveis como a dos cavalos comendo maçãs, ou, especialmente, logo no início do filme, o voo do menino, aquela que considero uma das mais perfeitas representações desse elemento no cinema. A cada sonho revelado, indo do idílico inofensivo ao sombrio premonitório de uma tragédia iminente, nós conseguimos enxergar claramente a gradativa morte da esperança.

A cena mais bonita ocorre no desfecho, o último sonho, a forma altamente simbólica encontrada pelo diretor de transferir a carga de culpa para a consciência do espectador. Sem revelar muito, em respeito àqueles que ainda não viram o filme, a cena nos conduz por vislumbres da realidade de uma infância que o menino não teve oportunidade de experimentar. A mãe sorridente que se afasta zelosa e a interação divertida com outras crianças, contrastando com a presença perturbadora de uma vigilante árvore seca. Ele vê uma menina, o flerte ingênuo, a corrida para tentar alcançar aquela figura. O relacionamento que ele nunca irá vivenciar. Ivan então a ultrapassa, correndo sobre as águas. Ele parece ter se tornado sobre-humano, até que a figura da árvore, a maléfica interferência adulta, interrompe bruscamente seu caminho.

O Espelho (Zerkalo – 1975)

Poucos filmes são tão herméticos, um fascinante amontoado das memórias do diretor, a sua expressão mais pura de poesia filmada. Tarkóvski utiliza os mesmos atores ao retratar fases distintas da vida do moribundo narrador, com generosa inserção de interlúdios emoldurados por poemas de seu pai, recitados pelo próprio. Os fragmentos apresentados representam sempre a maneira como essas recordações são despertadas na mente do homem, o que possibilita cenas intensamente surrealistas, como o vento que trespassa a relva em harmonia com os movimentos de um enigmático visitante, a utilização da água como símbolo indomável do tempo, ou, de forma mais sutil, um incêndio que sinaliza o elemento do divino na natureza, compondo uma jornada proustiana, sem concessões, no inconsciente fragilizado de alguém que busca respostas em seu passado distante.

No início, vemos o filho do protagonista, o seu legado, vendo na televisão uma hipnóloga tentando eliminar a gagueira de um jovem, um momento que parece a execução de uma mágica. Na parede, propositalmente, a sombra do microfone que capta o som da cena, a afirmação da teatralidade essencial naquele processo de sugestão mental, ou, indo mais além, uma afirmação da teatralidade na vida. A superação do bloqueio do garoto, uma alegoria para a coragem conquistada pelo diretor, com grande sensibilidade, de revisitar e compartilhar com seu público as suas experiências pessoais, inclusive, confessando erros cometidos. A desconstrução meticulosa de sua existência, perscrutando arrependimentos e angústias, como forma de tentar compreendê-la melhor. O mais incrível é constatar como podemos nos identificar, em variados níveis, com o resultado dessa autoanálise do realizador. Acho arrebatadora a transição da imagem da mãe dele no filme, vivida por Margarita Terekhova, para o rosto envelhecido da mãe real do diretor no espelho. Em breves segundos silenciosos, ele transmite uma sensação inexplicável de nostalgia que toca, sem dúvida, até o espectador mais desinteressado.

O esforço pela compreensão da narrativa em um primeiro contato, equívoco compreensível, pode minimizar o impacto de uma obra que merece ser degustada em algumas revisões. Somente na terceira sessão, especificamente para a elaboração desse texto, é que pude enxergar a emoção contida no desfecho. Alguns detalhes ganham mais significado, como o sentimento da solidão representado pela rápida evaporação do líquido deixado na mesa pela xícara de chá quente, na cena protagonizada pelo filho dele, quase sempre mostrado sofrendo calado o abandono, como na perturbadora cena em que o menino se encara no espelho, enquanto aguarda o retorno da mãe. Ele descobre que sua essência psicológica, a formação de seu indivíduo, foi forjada, para o bem e para o mal, no conflito de experiências de seu distante pai e de sua passiva mãe, encontrando, inicialmente, tremenda resistência no ato de revisitar a infância, simbolizada pela casa cuja porta principal está sempre trancada. Ele só consegue se enxergar através dessa arqueologia parental. Alexei, como nós, tenta identificar sua face original, sem as cicatrizes deixadas pelo tempo, no espelho de suas memórias.

Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora “Versátil”, na caixa “A Arte de Andrei Tarkóvski”, que inclui também: “Nostalgia”, que dialoga perfeitamente com “O Espelho”, e o raro documentário “Tempo de Viagem”, além de vídeos analisando as obras. É um verdadeiro tesouro para os cinéfilos mais dedicados.

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Outros comentários
    4166
  • Verônica emidio
    30.09.2015 às 07:15

    Onde posso encontrar esses filmes ?
    • 4167
    • Octavio Caruso
      30.09.2015 às 15:39

      Oi Verônica, Obrigado pela gentil atenção com o texto. Os filmes estão sendo lançados em uma caixa: "A Arte de Andrei Tarkóvski", pela distribuidora Versátil. Você encontra nas melhores lojas virtuais e físicas. São filmes que merecem entrar pra coleção. Bjão!