Críticas


MOSTRA SP 2004: A PROSTITUTA E A BALEIA

De: LUIS PUENZO
Com: LEONARDO SBARAGLIA, AITANA SÁNCHEZ GIJÓN, PEP MUNNÉ
25.10.2004
Por Ricardo Pereira
FERIDAS SUTURADAS

Após três anos sem filmar, o diretor de A História Oficial retorna com um longa que narra, a partir de uma perspectiva feminina, o cruzamento em princípio enigmático que se estabelece entre dois momentos da Argentina distantes no tempo e no espaço - a Patagônia dos anos 30 e a Buenos Aires presente - cruzamento que vai elucidando ao mesmo tempo a estranheza do título e a intrincada construção do roteiro.



Como A História Oficial, que obteve o Oscar de melhor filme estrangeiro -o único, até hoje, concedido a uma produção argentina -, A Prostituta e a Baleia propõe outra vez a conexão entre passado e presente como eixo central, porém não o faz dentro de uma visão acentuadamente política mas muito mais mitológica e fabulosa.



Tudo começa quando a escritora e jornalista catalã Vera (Aitana Sánchez-Gijón) toma conhecimento, através do seu editor com que fora casada, da existência de uma série de cartas, fotos e filmes pertencentes a um anarquista argentino, Emilio (Leonardo Sbaraglia), morto durante a Guerra Civil Espanhola. O objetivo do editor é publicar o material, propondo a Vera encarregar-se dos textos do livro. Não obstante, longe de converter-se em mero instrumento de trabalho, se desperta na protagonista um crescente interesse pelas sugestivas fotografias de mulheres nuas e, sobretudo, pela correspondência de Emilio, que revela seu envolvimento com uma prostituta chamada Dolores (Mercé Llorens). É isto que motivo o salto do filme até 1933, ano do encontro entre Emilio e Dolores - uma dupla com ares modernistas e libertários - e da ação que se transfere para o sul da Argentina, na província de Chubut, onde os espera o cego Suárez (Miguel Angel Solá), dono de um misto de hotel com bordel onde o casal se refugia por um período.



Daí por diante, o relato estará regido por uma grande montagem paralela que vinculará cada vez mais estreitamente estas duas linhas temporais, não sem o arbítrio necessário de certos nexos na forma de acasos e coincidências, e que irão reunindo os cabos soltos, justificando assim o procedimento, porém também optando por momentos sobrenaturais de vínculo entre os personagens e certos acontecimentos da trama. No começo os paralelos dialogam por oposição: após uma separação conturbada não muito clara, Vera viaja sozinha para Buenos Aires, onde se operará de um câncer de mama; na Península de Valdés, os também fugitivos personagens do bordel experimentam um triângulo amoroso. Enquanto Vera busca combater o deterioro de seu corpo, as prostitutas Dolores e Matilde (Belén Blanco), exibem seus corpos jovens e saudáveis para a câmera de Emilio.



Finalmente, os vários eixos do relato vão se suturando, como a ferida de Vera, em uma série de encastres narrativos - delatando sem pudores todas suas intenções metafóricas - que municiarão de respostas, uma a uma, as perguntas abertas.



#A PROSTITUTA E A BALEIA

Argentina, 2004

Direção: LUIS PUENZO

Roteiro:LUIS PUENZO, LUCÍA PUENZO, ANGELES GONZALES-SINDE

Elenco:LEONARDO SBARAGLIA, AITANA SÁNCHEZ GIJÓN, PEP MUNNÉ

Duração: 120 min

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