Críticas


A COLINA ESCARLATE

De: GUILLERMO DEL TORO
Com: MIA WASIKOWSKA, JESSICA CHASTAIN, TOM HIDDLESTON
16.10.2015
Por Luiz Fernando Gallego
Uma soma de clichês banais dos melodramas de terror gótico.

Sem o “álibi” de um pano de fundo político para desenvolver enredos sobrenaturais (como no ótimo A Espinha do Diabo, de 2001, e também no superestimado O Labirinto do Fauno, de 2006), o que resta em um filme deste gênero assinado por Guillermo Del Toro? Uma soma de clichês banais dos melodramas de terror gótico.

Não duvido que o diretor tenha pretendido usar intencionalmente todos os clichês melodramáticos/terroríficos dos antigos romances “góticos”: lá estão a mocinha tão ingênua que chega à tolice; a mulher mais velha, vilã perversa e pervertida; o sedutor malvado (mas que pode ter uma réstia de amor para dar); o pai protetor e o pretendente bonzinho, ainda que insosso. Mas Del Toro não acrescenta nada que justifique tal retomada de um gênero tão vetusto (e enterrado na literatura pós-Poe), a não ser as inúmeras cenas de efeitos especiais para a ambientação de época, para a criação de fantasmas macabros, e, last but not least, para as cenas gráficas de violência mutiladora e hemorrágica na linha gore (ou giallo).

Mas também não se trata de uma releitura do velho terror gótico “incrementado” pelo “giallo” (ou pelo “gore”), e muito menos de uma revisão crítica: o diretor assume o subgênero com prazer mórbido e se lambuza nele. Das inconsistências intrínsecas do roteiro (poderia haver coerência interna mesmo na diegese do fantástico, mas há furinhos nos encadeamentos dos fatos) aliadas aos exageros descabelados, nem dá para dizer que “de tão ruim fica bom”, pois não há humor - nem mesmo paródico, já que a "proposta" se leva a sério de modo talmúdico e com grandes recursos de produção.

Como escrevi quando do lançamento de O Labirinto do Fauno, "Del Toro pesa a mão na escatologia e nos requintes de sadismo e violência com o grotesco das cenas bizarras, e parece ter se perdido em meio ao deslumbramento de efeitos especiais e na maior ênfase de sua fascinação pelo grotesco..." [A crítica completa está em http://criticos.com.br/?p=1127&cat=1 ]

Quanto a elenco, é patético encontrar Jessica Chastain assumindo a caricatura da malvada incontida como uma bruxa má ao lado de Mia Wasikowska repetindo tipinho e vozinha. Dos primeiros papéis o único que não soçobra de vez é Tom Hiddleston.

Mais uma vez repetindo o que disse em 2006 sobre O Labirinto do Fauno: "É uma pena que Del Toro tenha deixado de lado um “princípio” enunciado em A Espinha do Diabo: “O que é um fantasma? Uma tragédia condenada a se repetir sempre e sempre? Um instante de dor, talvez. Alguma coisa morta que aparenta estar viva. Uma emoção suspensa no tempo. Como uma foto borrada. Como um inseto preso em âmbar”. [Também] neste filme mais recente, ele "corre o risco de se transformar em fantasma de si mesmo, repetindo-se como farsa grotesca - em vez de avançar nas fronteiras do que chegou a parecer uma saudável influência buñueliana entrevista no seu filme de 2001".

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Outros comentários
    4188
  • Carlinhos
    21.10.2015 às 06:35

    "(...) o filme retrata o espírito da revolução industrial". Resposta do crítico: As partes ofensivas dos comentários não são reproduzidas nem merecem resposta. Quanto à opinião do leitor, não deixa de ser uma tentativa de super-interpretação que visa redimir o filme, mas que não muda nada quanto ao que foi perpetrado pelo diretor. A ênfase nos clichês é muito maior do que qualquer "metáfora" oculta. Aliás, a "revolução industrial" inglesa do filme fracassa. Pense nisso.