Críticas


LADO SELVAGEM

De: SÉBASTIEN LIFSHITZ
Com: STÉPHANIE MICHELINI, YASMINE BELMADI, EDOUARD NIKITINE
02.12.2004
Por Carlos Alberto Mattos
JULES, JIM... E STÉPHANIE

“Holly came from Miami, F-L-A

Hitchhiked her way across the U-S-A

Plucked her eyebrows on the way

Shaved her legs and then he was a she

She says hey babe, take a walk on the wild side”






Personagem e título original de Lado Selvagem parecem ter saído da primeira estrofe da célebre balada de Lou Reed, Take a Walk on the Wild Side. Mas em vez de cruzar os EUA, a protagonista do filme desceu da Normandia para Paris. No caminho, deixou de ser Pierre, implantou seios gloriosos de silicone e passou a atender por Stéphanie. Numa das primeiras cenas, ela está cercada por ruidosos travestis brasileiros no Bois de Boulogne. Mas logo em seguida o diretor Sébastien Lifshitz demonstra não estar aí para mais um filme sobre as peripécias ou o calvário de transexuais. Ele quer falar de família, afetos e memória.



Stéphanie tem um comedimento e uma elegância que a distingue de suas colegas de rua. Tem um temperamento melancólico que se acentua ao ter que voltar ao interior da Normandia para cuidar da mãe doente. Para lá seguem também seus dois amantes de fé, Djamel, um jovem michê de origem árabe (o Little Joe de Lou Reed?), e Mikhail, um boxeador recém-chegado da Rússia. Não custamos a perceber que a expressão “Wild Side” indica não somente o caminho da transgressão, mas também uma espécie de país paralelo, onde imigrantes e prostitutos se complementam à margem da França “oficial”. Entre uma Paris suburbana, irreconhecível em seus prédios gigantescos e impessoais, e a monocórdica paisagem dos campos normandos, esse trio amoroso vive um ensaio de felicidade que o clássico Jules e Jim, de François Truffaut, não permitiu viabilizar-se.



A volta ao campo é, para Stéphanie, um retorno ao passado, à lembrança amada do pai e da irmã, à visão de um namorado da adolescência. É a hora de avaliar os rumos de uma vida assumida não sem conflito ou hesitação. Além dos flashbacks subjetivos, há também os objetivos, pelos quais somos informados da origem de alguns relacionamentos. Wild Side penetra com delicadeza e sensibilidade no espaço desses indivíduos, por mais que suas imagens sejam cruas, belamente cruas. Diferentemente de tantos outros filmes franceses recentes, aqui não se fala pelos cotovelos. Aliás, fala-se muito pouco, enquanto as imagens de Agnès Godard abrem camadas de significação sobre as coisas mais simples. Tampouco há aquele momento-choque de sexo explícito com que outros tantos filmes franceses vêm tentando cavar um espaço extra na mídia. O sexo é convincente sem se tornar a razão de ser do filme. E a montagem deixa à mostra a anatomia dos corpos sem transformá-los num circo visual.



Sóbrio e franco na sua abordagem de seres alheios aos padrões, Wild Side se nutre também de um trio de atores excepcionais, a começar por Stéphanie Michelini, um transexual não operado que a produção recrutou num café de Paris. É bem verdade que sua cabeleira crespa não combina com as madeixas muito lisas de sua contraparte infantil, mas em compensação o rosto anguloso e o olhar profundo formam uma máscara humana intensa, esteio de toda a construção do filme.





# LADO SELVAGEM (Wild Side)

França, 2004

Direção: SÉBASTIEN LIFSHITZ

Roteiro: STÉPHANE BOUQUET, SÉBASTIEN LIFSHITZ

Fotografia: AGNÈS GODARD

Montagem: STÉPHANIE MAHET

Música: JOCELYN POOK

Elenco: STÉPHANIE MICHELINI, YASMINE BELMADI, EDOUARD NIKITINE, JOSIANE STOLÉRU

Duração: 93 minutos

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário