Críticas


GARRINCHA, ESTRELA SOLITÁRIA

De: MILTON ALENCAR JR.
Com: ANDRÉ GONÇALVES, TAÍS ARAÚJO, HENRIQUE PIRES
18.02.2005
Por Marcelo Moutinho
PERSONAGEM DESPERDIÇADO

Há grandes filmes cujos minutos iniciais já dimensionam o que vem a seguir, servindo como breve introdução ao todo da obra. Há também produções em que uma primeira impressão ruim se desfaz no decorrer da projeção. Infelizmente, Garrincha, Estrela Solitária não se enquadra em nenhum dos dois casos. Nas seqüências que se desdobram logo após os créditos, o espectador tem a sensação de que a adaptação do livro de Ruy Castro não ficou à altura do trabalho do escritor, o que se confirma à medida que o tempo passa. E por quê?



As tais cenas mostram Mané tentando vencer suas limitações físicas para chegar à Avenida Marquês de Sapucaí e desfilar como destaque numa escola de samba. De pronto, fica clara a total inadequação do phisique du role de um franzino André Gonçalves para representar um Garrincha envelhecido e inchado pelo abuso do álcool. Além desta questão, que se agrava pela tenra idade do ator, sua expressão de apatia denota artificialidade.



O sério lapso inicial, embora não se confirme totalmente, é um bom indicador dos vários problemas do filme, que tenta dar conta de explicitar a tragédia que foi a vida de Mané, mas acaba servindo, acima de tudo, como desagravo à cantora Elza Soares, sua companheira durante boa parte da existência. Irregular, o trabalho do diretor Milton Alencar Jr. trafega entre pouquíssimos bons achados e muita inverossimilhança. É flagrante a falta de criatividade no roteiro – leite acumulando na porta para indicar passagem de tempo? – e na direção. E causam constrangimento os diálogos sobre política entre Elza e Garrincha, além de cenas como a pedrada que o jogador recebe na cabeça e a caricata invasão da residência do casal por supostos agentes do Dops – liderados por um “aterrorizante” homem de dentes podres.



Nas pouco menos de duas horas em que o espectador acompanha a trajetória do protagonista, da adolescência pobre em Pau Grande até o sucesso no Botafogo e na Seleção Brasileira, tenta-se apresentar os múltiplos perfis de Garrincha: mulherengo, fenômeno do drible, apaixonado pela bebida... Todas estas faces convivem com as lendas que se criaram sobre ele. Falta, no entanto, sutileza ao diretor no desenho de tais retratos. As (muitas) cenas de sexo, por exemplo, buscam inutilmente o erotismo e parecem se fixar na nudez de André Gonçalves.



O ator, aliás, não encontra o tom adequado. Malgrado alguns poucos bons momentos, como o passeio com Elza pelas ruas de Santiago do Chile, as tentativas de encenar um Garrincha sendo derrotado pelo alcoolismo soam forçadas. Quem brilha, na verdade, é Taís Araújo, que ao interpretar Elza Soares consegue reproduzir com perfeição não só a postura atrevida da artista, como também os trejeitos característicos de sua forma de cantar, num trabalho corporal notável. O excelente desempenho de Taís termina comprometendo o papel do próprio Garrincha, já que sua presença muitas vezes “apaga” André Gonçalves.



Além de Taís, salvam o filme do desastre completo as imagens documentais que, bem editadas com as cenas ficcionais, não comprometem a fluência da história. É bonita também a homenagem a Joaquim Pedro de Andrade, autor do célebre Garrincha, A Alegria do Povo, logo que a projeção começa. E só. Uma pena, porque Mané merecia mais, e a intenção de Milton Alencar Jr. - reparar o já conhecido descaso brasileiro com relação à memória de seus ídolos - certamente foi das mais nobres.



#GARRINCHA, ESTRELA SOLITÁRIA

Brasil, 2003

Direção: MILTON ALENCAR JR

Roteiro: RODRIGO CAMPOS

Elenco: ANDRÉ GONÇALVES, TAÍS ARAÚJO, HENRIQUE PIRES

Duração: 110 min





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