Críticas


MENINA DE OURO

De: CLINT EASTWOOD
Com: HILLARY SWANK, CLINT EASTWOOD, MORGAN FREEMAN
19.02.2005
Por Daniel Schenker
ENTRE O RISCO E A ACOMODAÇÃO

Entre as questões levantadas por Clint Eastwood em Menina De Ouro , sobressai o “duelo” entre risco e acomodação. Frankie Dunn, personagem de Eastwood, é um homem que tem medo de arriscar. Mantém-se seguro como dono de uma envelhecida academia de boxe e, temeroso em dar passos sem garantias, protege excessivamente os lutadores que treina. Na outra ponta, Maggie Fitzgerald precisa arriscar para se sentir alguém. Garçonete há mais de dez anos, ela é, literalmente, uma lutadora: treina manhã, tarde, noite e madrugada para entrar no masculino mundo do boxe e não mede esforços para se tornar pupila de Frankie. Através de suas atitudes, Maggie traduz o discurso de Menina De Ouro – é necessário que cada um ache um verdadeiro sentido para a sua existência e mais vale morrer tendo encontrado do que viver sem norte –, devidamente sintetizado pelo Eddie de Morgan Freeman ao final da projeção.



Maggie é também uma personagem humana e sobre-humana: no primeiro caso, na crença de que o desejo move montanhas; no segundo, na disposição constante para ultrapassar seus limites. Escorado em dois contos de F.X.Toole, Eastwood aborda o definitivo na vida, apontando que, onipotência à parte, a tragédia pode decorrer, algumas vezes, de um descuido com a própria defesa e da priorização radical da obstinação pessoal em detrimento de um mínimo de bom senso. No caso de Maggie, a obstinação preenche espaços vazios: ao traçar uma meta concreta para a sua vida, ela se distancia, em alguma medida, do círculo doentio de sua família, marcada por uma desumanidade que, pelo menos até determinado momento, não consegue enfrentar – seja pelo eventual contraste entre um presente tomado por emoções absolutamente corrompidas e um passado mais luminoso, seja por uma espécie de defesa pela via da ilusão frente a um quadro tão brutalizado. Culpado pela distância que o separa da filha, Frankie não desconhece a rejeição e a sintonia de ambos na desolação é um dos ingredientes no estabelecimento de um relacionamento profundamente amoroso, fincado na comunhão, na doação e no encontro de um lugar reservado, melhor do que o mundo, ideal para quando, traumatizados, sentirem necessidade de desaparecer.



Um pouco ingênuo na utilização metafórica do boxe – as feridas do corpo e da alma difíceis (ou impossíveis) de serem estancadas, os movimentos imprevisíveis sinalizando os caminhos tortuosos muitas vezes percorridos para chegar onde se almeja –, Menina De Ouro , porém, mostra que o estreitamento dos laços afetivos faz com que Frankie e Maggie caminhem da escuridão para a luz. Não por acaso, os personagens são constantemente flagrados saindo da penumbra. Nesse sentido, Clint Eastwood pratica, em Menina De Ouro , um cinema cuja forma é encarada como resultado e não como ponto de partida de um determinado processo de trabalho. As cores esmaecidas da academia de boxe espelham os estados conclusivos, terminais numa espécie de quase passividade (quase porque ainda não burocratizados por completo), de Frankie e Eddie e fornecem uma aparência de decadência personalizada que emoldura a disposição inquebrantável de Maggie, bem sustentada por Hillary Swank que forma trio bastante afinado com Eastwood e Freeman (todos concorrendo ao Oscar).



Com tantos acertos, o filme agoniza diante de um paradoxo: ao mesmo tempo em que fornece chaves de interpretação, Menina De Ouro revela o desejo do diretor/ator em investir numa limitadora identificação do público com os climas emocionais da história contada. Ao destinar ao espectador uma função passiva – a de se solidarizar com Maggie, em especial na segunda metade –, Clint Eastwood cria um espetáculo intenso na superfície, mas destituído de um alcance mais vertical. Ao final, tanto Frankie quanto a platéia são acometidos pela anestesia: mas enquanto o personagem é levado a se perder imprevisivelmente pelo mundo, o público termina aprisionado como que cumprindo a função destinada. Aqui, Eastwood não arrisca. Prefere a segurança da acomodação.



# MENINA DE OURO (MILLION DOLLAR BABY)

EUA, 2004

Direção: CLINT EASTWOOD

Roteiro: PAUL HAGGIS

Produção: CLINT EASTWOOD, PAUL HAGGIS, TOM ROSENBERG, ALBERT S.RUDDY

Trilha Sonora: CLINT EASTWOOD

Fotografia: TOM STERN

Elenco: CLINT EASTWOOD, HILLARY SWANK, MORGAN FREEMAN

Duração: 137 minutos

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário