Críticas


AVIADOR, O

De: MARTIN SCORSESE
Com: LEONARDO DICAPRIO, KATE BLANCHETT, ALEC BALDWIN, ALAN ALDA
23.02.2005
Por Nelson Hoineff
HUGHES E O ROSEBUD PERDIDO

Poucas pessoas poderiam dizer sem medo de errar que “minha vida daria um filme”. Jovem, bonito e milionário, Howard Hughes já era um dos nomes mais poderosos de Hollywood antes de chegar aos 30. Aficcionado por aviação, não apenas construiu seus próprios aviões como podia se dar ao luxo de gastar muitos milhões em projetos de aeronaves que jamais decolariam ou, como o legendário Spruce Goose, voariam por apenas alguns minutos. Hughes não comprava passagens, comprava companhias aéreas. Namorou Jean Harlow, Ava Gardner e Katharine Hepburn. Chegou a ser o homem mais rico do mundo e perdeu quase tudo. Compulsivo psicótico, tornou-se um mórbido dependente de drogas pesadas. Definhou em isolamento até morrer. Com que mais um roteirista poderia sonhar?



Hughes habita nossas maiores ambições, nossas mais delirantes fantasias e nossos mais bem guardados temores. É, à sua maneira, um microcosmo da espécie humana. O que foi Howard Hughes está na superfície de sua trajetória. O que ele representa para o nosso imaginário, depende de um profundo mergulho na nossa própria natureza. Em O Aviador, Martin Scorsese foca na primeira parte e não parece se interessar muito pela segunda.



Scorsese não é apenas um dos maiores cineastas em atividade no mundo. É também um intelectual responsável, um profundo conhecedor das entranhas de Hollywood e um vencedor que busca extrair do sistema as armas para humanizá-lo. Grande parte de sua energia tem sido empregada na construção de obras não comerciais (como a pungente documentação pessoal sobre o cinema italiano), a preservação da memória cinematográfica e o envolvimento com o trabalho de cineastas que remam contra a maré, de Fuller a Cassavetes. Sua vida, como a de Hughes, daria um filme. Ao contar a vida do aviador, sua preferência pela superfície traduz muito mais claramente a marca do estilo do roteirista John Logan - que escreveu filmes importantes como O Último Samurai ou Gladiador mantendo precisamente o mesmo olhar - do que a sua própria crença na maneira mais adequada de se construir um filme.



Ao se fixar no Hughes que está acima da superfície, Scorsese narra provavelmente a melhor história que poderia ser narrada sobre o grande aventureiro (paradoxalmente, Hughes nunca foi reconhecido pela industria de cinema como um grande criador, nem pela industria aeronautica como um grande inventor). Faz isso com a maestria de sempre. Os grande momentos de O Aviador não poderiam ser contados com os dedos das mãos. Começam na primeirísssima sequência do filme, um banho numa criança onde o potencial incestuoso perpassa o delicadíssimo filtro de um autor; segue para uma legendária descrição dos hotspots de Los Angeles e o primeiro encontro de Hughes com Louis B.Mayer; as filmagens das batalhas aéreas em Hell’s Angels; o impressionante acidente com o XF-11 - e não para mais. Scorsese é um grande cúmplice de seus atores e, ainda que se possa argumentar que DiCaprio não guarda qualquer semelhança física com seu personagem, a ousadia de escalá-lo é muitíssimo bem recompensada. Kate Blanchet também não se parece com Katharine Hepburn, nem Jude Law com Errol Flynn, por exemplo, mas o trabalho de Scorsese com seu elenco resulta na densidade que jamais deixou de estar presente em qualquer de seus filmes.



Pode parecer estranho, então, que um filme onde tudo parece perfeito tenha tanta dificuldade quanto o Spruce Goose para decolar. Se não há nada de imperfeito, deve-se perguntar o que ficou faltando. Nuance é uma boa aposta. A opção pela maneira de Logan desenvolver o script dá riqueza aos personagens mas não lhes dá a mesma profundidade. A compulsão psicótica de Hughes, por exemplo, é extraordinariamente descrita em inumeras ocasiões - a sequência em que o personagem fica preso no banheiro, incapaz de colocar a mão na maçaneta para abrir a porta, será lembrada por muito tempo. Contudo, se é isso o que vemos, não é a isso que reagimos.



Acho improvável que O Aviador deixe de ganhar o Oscar de melhor filme e não há como deixar de admitir que este será um prêmio merecido pelo filme e, acima de tudo, devido ao grande diretor quer está por trás da câmera. No entanto, a obstinação de Scorsese de citar tantas vezes Cidadão Kane durante essa descrição da saga de Howard Hughes aponta para uma busca completamente pertinente, e ainda assim não totalmente bem sucedida, pelo Rosebud que ficou perdido em algum lugar durante a realização de um filme onde tudo dá certo, nada dá errado e ainda assim não ganha altura.



# O AVIADOR (THE AVIATOR)

EUA, 2004

Direção: MARTIN SCORSESE

Roteiro: JOHN LOGAN

Produção: MICHAEL MANN, CHARLES EVANS JR, SANDY CLIMAN, GRAHAM KING

Fotografia: ROBERT RICHARDSON

Montagem: THELMA SCHOONMAKER

Música: HOWARD SHORE

Elenco: LEONARDO DICAPRIO, KATE BLANCHETT, ALEC BALDWIN, KATE BECKINSALE, ALAN ALDA, JOHN C. REILLY

Duração: 170 min.

site: http://theaviatormovie.com

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