Críticas


007 CONTRA SPECTRE

De: SAM MENDES
Com: DANIEL CRAIG, MONICA BELLUCCI, CHRISTOPH WALTZ, LÉA SEYDOUX
07.11.2015
Por Octavio Caruso
Um bem-vindo retorno à fórmula da franquia.

O filme é o encerramento de uma tentativa arriscada dos produtores da franquia, que, objetivando a renovação do personagem de Ian Fleming, inserindo ele em um molde de obras de ação/espionagem moderno, extirparam dele todas as suas características principais, um reboot agressivo que havia sido orquestrado, de forma bem menos corajosa, na breve era de Timothy Dalton. Como era óbvio desde “Cassino Royale”, o James Bond de Daniel Craig representa, pela primeira vez, a gênese do herói, fórmula corriqueira no cinema atual, um prequel elegante. Em “Operação Skyfall”, o diretor Sam Mendes conseguiu elaborar algo que mantinha o espírito das produções, porém, injetava um elemento autoral nunca antes experimentado na série, um maior refinamento técnico. Já em “007 Contra Spectre”, ele entrega um produto para os fãs antigos, com todos os elementos reconhecíveis, referências claras e sutis, além de um desfecho que é uma linda declaração de amor à nostalgia. É possível que, acostumados com as modificações, uma boa parte do público, aqueles que passaram a gostar do personagem com os filmes recentes, encontrem motivos para reclamar da zona de conforto, dos aspectos menos realistas.

007, felizmente, voltou a ser sinônimo de escapismo, viagens pelo mundo, muitas mulheres seduzidas pelo agente, cenas de ação improváveis que desafiam as leis da gravidade, capangas truculentos e silenciosos, vilões de revistas em quadrinhos e, acima de tudo, diversão, algo que estava sendo minimizado com um crescente interesse freudiano pela angústia existencial. O clássico início com o cano do revólver está de volta, e, mais importante, o senso de humor retorna em grande estilo, ainda que Craig soe pouco confortável em algumas piadinhas mais escancaradas. Ele consegue emular perfeitamente o senso de perigo que Connery transbordava, mas, não há como negar, falta a ele, enquanto ator, a capacidade de empatia/carisma que Roger Moore e Pierce Brosnan dominavam com as mãos nas costas. Numa comparação esdrúxula, basta imaginar o Papa Bento XVI tentando animar uma festa, algo que o novo Papa faria sem esforço. É muito interessante a forma como o roteiro utiliza os coadjuvantes, M, Q e Moneypenny, usualmente meras peças decorativas nos filmes clássicos. Eles estão inseridos, não apenas nas sequências de ação, algo relativamente mais fácil, mas, especialmente, nas engrenagens que mantém a narrativa no curso.

Como ponto negativo, a motivação do vilão, vivido por Christoph Waltz, no mesmo piloto automático que consagrou seu nome no cinema americano. Sem revelar nada, afirmo que o propósito dele na trama é simplesmente medíocre, o tipo de recurso desgastado e simplório que se espera, por exemplo, de uma novela mexicana. Outro aspecto frustrante é a participação de Monica Bellucci, uma atriz que sempre foi cogitada pelos fãs como a Bond Girl perfeita, acabou sendo relegada a uma inglória ponta. Quer mais um problema? Jaws e Oddjob, só pra citar os mais famosos, eram brutamontes tolos e unidimensionais, porém, receberam cenas nos roteiros que os valorizavam sobremaneira. Pense em “Goldfinger”, que você irá se lembrar do confronto no Fort Knox. Pense em “Moscou Contra 007”, que você irá se lembrar do confronto no trem. Pense em “Spectre”, que você irá se lembrar de... Bom, com sorte, você vai se lembrar do capanga, vivido por Dave Bautista, que tinha algo como, sei lá, unhas de prata, coisa do gênero, que ele utiliza uma vez apenas, e, surpreendentemente, não em um confronto com o agente secreto. Com exceção da empolgante sequência inicial, uma marca da franquia, que referencia “007 – Somente Para Seus Olhos”, não há qualquer momento de ação verdadeiramente inesquecível. O confronto final do herói com o vilão consegue ser menos interessante que o fraco encontro do 007 de Moore com o Stromberg, de “O Espião Que Me Amava”. É mais movimentado, claro, porém, tão irrelevante quanto.

E a música-tema de Sam Smith? “Writing’s on the Wall”, emoldurada pelos competentes créditos de Daniel Kleinman, consegue ser menos sofrível do que imaginei, mas, ainda assim, é um tema pouco inspirado, com uma letra que não condiz com absolutamente nada que simboliza o personagem, em sua versão literária ou cinematográfica. Nem mesmo o 007 mais emotivo de George Lazenby se expressaria de forma tão drama queen. Eu prefiro escutar a Lulu berrando “The Man With The Golden Gun” em looping, do que aguentar esse candidato do The Voice massacrando décadas de construção de personagem.

Com suas falhas, “007 Contra Spectre” é divertido, um bem-vindo retorno à fórmula. E, apesar das manchetes equivocadas de alguns veículos mais afeitos às chamadas polêmicas, não é a última missão do personagem. No máximo, pode ser a última participação de Craig, um ator que exerceu bem sua função na série.

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário