DVD/Blu-ray


CINEMA SAMURAI 4, em DVD, pela VERSÁTIL

De: HIDEO GOSHA, YOJIRO TAKITA, TADASHI IMAI, KENJI MISUMI, MASAHIRO SHINODA
Com: ISAO NATSUYAGI, KIICHI NAKAI
08.11.2015
Por Octavio Caruso
Mais um lançamento imperdível para os fãs do cinema samurai.

A Última Espada (Mibu Gishi Den – 2003)

Lançado na mesma época que “O Último Samurai”, com Tom Cruise, esse épico japonês que trata de um tema similar, acabou recebendo pouca atenção. Premiado na Academia Japonesa de Cinema (filme, ator e ator coadjuvante), esta sensível obra do diretor Yojiro Takita, do ótimo “A Partida”, se passa no período Meiji (de 1868 a 1912), crepúsculo dos nobres samurais e a ascensão do mundo moderno, com a revolução industrial. Kanichiro Yoshimura, ótima interpretação de Kiichi Nakai, é um samurai que se desespera ao flagrar sua amada esposa tentando dar fim à própria vida, por não poder alimentar seus filhos, devido ao baixo salário que ele recebe no seu pequeno clã. Movido pelo amor à família, ele decide ir sozinho à cidade grande e unir-se ao notório clã Shinsengumi, arriscando sua vida diariamente para conseguir enviar seu pagamento para sua esposa e filhos. Decidido a sobreviver tempo suficiente para garantir um futuro melhor à sua família, Yoshimura desperta curiosidade em seus colegas, como fica claro na pergunta que Saitô (Kôichi Satô) lhe faz: “Você não quer morrer? Que tipo de samurai é você?”.

O diretor nos apresenta este protagonista pelos olhos de dois personagens (dois pontos de vista, o que nos remete a “Rashomon” de Akira Kurosawa): um jovem médico que outrora foi um pupilo de Yoshimura e Saitô, um personagem real da história japonesa, cuja importância na trama eu não irei contar, respeitando a experiência daqueles que ainda não assistiram este lindo filme. O foco no desenvolvimento dos personagens, explorando seus conflitos internos e externos, eleva a qualidade da obra. O sensível trabalho de Takeshi Hamada na fotografia cria batalhas de beleza comparáveis às do clássico “Ran” (Kurosawa). Outro aspecto que me surpreendeu foi o senso de humor de Takita, que nos apresenta de início um protagonista frágil, nunca levado a sério por seus colegas, que sempre riem dele e de sua tola humildade. Leal à sua família e com atitudes nobres, inclusive, perante seus inimigos, ele vai ganhando o respeito e a admiração do público ao longo da obra, o que conduz a um final altamente sensorial.

Finalizando, preciso contar aqui uma cena que me emocionou sobremaneira. Decidido a sair de sua casa e buscar a garantia do conforto de sua família no campo de batalha, Yoshimura sai sem se despedir e corre pelas ruas sem olhar para trás. Ao chegar a uma pequena ponte, escuta o chamado de seu filho mais velho, que conduz nas costas a caçula Mitsu, que apaixonada pelo pai, não aceita que ele vá embora. O pai esmorece e cai de joelhos, abraçado à sua pequena filha, chorando copiosamente. O filho mais velho percebe que seu pai está fraquejando em sua decisão e corajosamente o confronta resignado, pedindo-o que não chore e siga o seu caminho, fazendo com que nosso trágico e honrado herói receba a força necessária para dar as costas a tudo que mais ama, seguindo em uma jornada ao inferno, sem chance de redenção. As palavras não fazem justiça à beleza da cena, emoldurada por uma linda trilha sonora de Joe Hisaishi.

Lobo Samurai (Kiba Okaminosuke – 1966)

Lobo Samurai 2 (Kiba Okaminosuke: Jigoku Giri – 1967)


Buscando inspiração em “Yojimbo”, de Kurosawa, e nos faroestes italianos, Hideo Gosha desconstrói as expectativas do chambara já nos créditos de abertura, onde, após uma rápida demonstração de técnica do protagonista com a espada, com direito a freeze frame sublinhando uma postura de agressividade, o foco da atenção acaba sendo conduzida para o trivial ato da alimentação, com ele, já adotando uma atitude brincalhona, devorando uma tigela de arroz. Com uma pegada de humor muito similar a “Três Samurais Fora da Lei”, de 1964, resgatado pela Versátil na primeira caixa “Cinema Samurai”, ele cria Kiba, vivido com carisma por Isao Natsuyagi, um personagem que foge da abordagem amarga e cínica usuais no gênero, uma espécie de variação do que viria a ser o cowboy Trinity, vivido por Terence Hill, combinado ao Sartana, de Gianni Garko. O segundo filme, ainda que consideravelmente mais sombrio, explorando as origens familiares dele, também ganha pontos pela leveza na abordagem.

Gosto muito de uma cena que ocorre no terceiro ato do primeiro, uma atitude de Kiba que sintetiza os códigos de honra de uma sociedade mais nobre, além de distanciar ele, positivamente, de grande parte dos heróis do gênero. Ao perceber que seu oponente está com um dos braços imobilizado, ele interrompe o confronto, atando sua mão à cintura, para que ambos estejam lutando nas mesmas condições. Há uma espécie de leitmotiv discreto, envolvendo um macaquinho e, no segundo filme, uma tala que protege o pulso, símbolos que, sem revelar momentos da trama, irão reforçar o valor do sacrifício e a necessidade de se sublimar os obstáculos físicos, temas recorrentes nas duas tramas. Gosha consegue injetar nessas sequências de ação, aparentemente minimalistas, um classudo tom de reverência, transformando os homens em mitos, com o uso generoso da câmera lenta e, principalmente, do silêncio. Vale salientar também a trilha sonora de Toshiaki Tsushima, um misto de gaita e piano, que me remeteu imediatamente aos trabalhos de Ennio Morricone.

O bonito desfecho do segundo filme, com o protagonista sofrendo uma traição inesperada, pode ser visto como a gênese do anti-herói amargo típico dos chambara. É uma pena que o diretor não seguiu adiante com a história de Kiba “Presas de Lobo” em outros projetos. O ronin, tendo aprendido com o sofrimento, caminha em direção a um precipício literal, e, principalmente, existencial.

A competente distribuidora Versátil acaba de lançar esses três filmes em DVD, na caixa "Cinema Samurai 4", que conta também com: "Juramento de Obediência" (de Tadashi Imai), "Crônicas dos Shinsengumi" (de Kenji Misumi) e "Guerra de Espiões" (de Masahiro Shinoda). Fica a torcida para que a Versátil siga lançando essas pérolas do cinema samurai em nosso carente mercado de home video.

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