Críticas


BOM DIA, NOITE

De: MARCO BELLOCHIO
Com: MAYA SANSA, ROBERTO HERLITZKA, LUIGI LO CASCIO, PIER GIORGIO BELLOCCHIO
26.04.2005
Por Ricardo Pereira
ROMANCE VERSUS DOCUMENTO

Bom Dia, Noite, de Marco Bellocchio, narra a história dos 55 dias que durou o cativeiro de Aldo Moro, líder da Democracia Cristã italiana, entre o rapto e a execução perpetrados por uma célula das Brigadas Vermelhas, em 1978. Bellocchio não partiu, no entanto, de uma base "jornalística" ou (apenas) factual: o argumento do seu filme é baseado no depoimento de Anna Laura Braghetti, uma das envolvidas no seqüestro, que o viveu, e depois o descreveu, como um processo pessoal de tomada de consciência rumo ao "arrependimento".



Temos, assim, que Bom Dia, Noite conta, na verdade, duas histórias: a da reconstituição, mais ou menos romanceada (Bellocchio, em entrevistas, insistiu na questão da "ficção" e da "infidelidade" na adaptação do livro de Braghetti), dos acontecimentos em torno do seqüestro de Moro, e a do percurso interior da personagem correspondente a Braghetti, que no filme chama-se Chiara.



Sendo esta segunda história, no fim das contas, um julgamento político e moral sobre a primeira, é nela que o diretor se apóia para narrar os fatos a partir de um ponto de vista aparentemente frio, e que faz o possível para soar neutro. Um dos aspectos mais discutíveis do filme é a sua descolagem final para uma atmosfera de "sonho", com Aldo Moro (cuja execução nos é vedada) caminhando pela rua como se tivesse sido, afinal, libertado em vez de morto.



É um desfecho ambíguo, certamente, que permite todas as leituras, mesmo as mais contraditórias - e é um fato que Bom Dia, Noite foi, na Itália, politicamente criticado tanto pela direita como pela esquerda. Esses planos, no fim, podem corresponder a um sonho de "arrependido", ou podem servir para assinalar o papel fundamental que Moro, involuntariamente, acabou por ter sobre a caducidade das Brigadas Vermelhas.



De qualquer modo, é um sonho que se confronta com a "realidade" e com a História, através da inclusão de imagens televisivas do funeral de Moro: o homem morreu mesmo, isto passou-se mesmo, quanto a isso nenhuma ambigüidade é possível. Como não há ambigüidade na elipse da execução de Moro, substituída por um intertítulo com o nome do filme, um "bom dia, noite" (extraído de um verso de Emily Dickinson) que não podia ser mais explícito. Quanto a ambigüidade, estamos conversados.



As imagens documentais do funeral que aparecem no fim são precedidas, ao longo de todo a projeção, por outros excertos televisivos da época que vão servindo de comentário e contexto. Desfilam trechos de noticiários e entrevistas com figuras da vida política italiana, num efeito de evocação realista que tem, intencionalmente ou não, o condão de mostrar que frente ao terrorismo, o poder político (ou a política "institucional"), há 27 anos como hoje, é, ao nível do discurso, completamente impotente.





Da impotência ao nível da ação o filme fala levemente, sobretudo através das reações de Moro ao que lhe contam das reações do "mundo político" que ficou lá fora. Aliás, das várias teorias da conspiração desde sempre associadas ao assassinato de Moro (do papel da CIA à pista maçônica da loja P2) a única evocada, também levemente, é a da hipótese de, por omissão, Aldo Moro ter sido oferecido em "sacrifício" para capitalização política da consternação provocada pela sua morte.



Mas isto, a reconstituição dos fatos, muito, pouco, ou nada ficcionada, é o que o filme de Bellocchio tem de mais interessante. Noutros aspectos mais dramatúrgicos, por assim dizer, parece falhar. No recorte dos membros da célula, por exemplo: percebe-se a vontade de não sobrecaracterizar as personagens, possível maneira de não incorrer no maniqueísmo, mas o que fica é um conjunto de silhuetas que não chega a ser explorado até o fim naquilo que possuem de mais sinistro: o fato de não só já não reconhecerem o "indivíduo" (como explicam a Moro, não é o "indivíduo" que vão executar, mas o "representante da Democracia Cristã") como terem deixado eles próprios de serem indivíduos, para serem apenas veículos de um discurso dogmático e pré-fabricado que os atravessou e os desumanizou. Mas se isto só se vê no filme a breves espaços, é provavelmente uma das razões por que a "tomada de consciência" da protagonista nos parece tão frágil e, permanecendo na ordem da revelação e da epifania (a sobreposição entre a carta de despedida de Moro e a carta de despedida de um partisan antes do fuzilamento, décadas atrás), tão digna de um conto de fadas.



Certo: a personagem é uma ingênua (o que aparentemente se sublinha nos diversos momentos em que se montam imagens como "ícones" tão diversos como Stalin ou o "Paisá" de Roberto Rossellini), e a sua descoberta de onde o fato está e conseqüente conversão provavelmente teriam que o ser também. Mas precisamente por isso, há nelas (na personagem e na ingenuidade) uma dimensão assustadora que o filme acaba por apagar em nome de um desejo de romantismo que, neste contexto, parece totalmente deslocado e contraditório.





# BOM DIA, NOITE (Buongiorno, notte)

Itália, 2003

Direção e roteiro: Marco Bellocchio

Produção: Marco Bellocchio e Sergio Pellone

Fotografia: Pasquale Mari

Trilha-sonora: Riccardo Giagni

Montagem: Francesca Calvelli

Elenco: Maya Sansa, Roberto Herlitzka, Luigi Lo Cascio, Pier Giorgio Bellocchio, Paolo Briguglia

Duração: 106 min.

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