Críticas


SPOTLIGHT – SEGREDOS REVELADOS

De: TOM MCCARTHY
Com: MICHAEL KEATON, RACHEL MACADAMS, MARK RUFFALO, LIEV SCHREIBER
10.01.2016
Por Octavio Caruso
Um filme correto, prejudicado por um roteiro apático.

Um dos sintomas de preguiça intelectual entre profissionais da crítica é comparar esse filme correto, honesto, com o excelente “Todos os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula, apenas por tratar de um tema similar. É óbvio que o filme quer desesperadamente ser comparado, faz todo o esforço possível nesse sentido, mas não podemos aceitar tal absurdo. O trabalho anterior do roteirista/diretor Tom McCarthy foi “Trocando os Pés”, uma horrorosa comédia protagonizada por Adam Sandler. O seu momento mais interessante foi como um dos criadores da história da animação “Up: Altas Aventuras”, da Pixar. Seus primeiros filmes, “O Agente da Estação” e “O Visitante”, são simpáticos e problemáticos, nada mais que isso.

A estrutura do roteiro de “Spotlight”, o seu maior problema, é calcada no know-how televisivo do co-roteirista Josh Singer, copiando na cara dura a obra-prima já citada, tem cara de piloto elegante (até mesmo na opção frequente pelos enquadramentos fechados), funciona dramaticamente, ainda que com um ritmo pra lá de canhestro, aborda um assunto polêmico importante, mas está muito longe de ser brilhante. Cada personagem na equipe de jornalistas serve especificamente a uma função narrativa, unidimensionais seguidores de pistas, a mesma cartilha dos modernos filmes de super-heróis, seguindo as instruções do manual de Syd Field, ao invés de agirem de forma orgânica, como pessoas reais. Eles estão compenetrados unicamente na realização bem feita do trabalho, assim como os super-heróis querem salvar o mundo, uma visão simplista que funciona numa adaptação de quadrinhos, mas não em uma trama baseada em um evento jornalístico real. Com exceção do personagem de Mark Ruffalo, sempre um ator competente, não há interesse em inserir conflitos internos, falhas e dúvidas, pontos que humanizem as tiras de cartolina que passeiam pelos cenários. O elenco pouco pode fazer com a qualidade do material que precisam defender.

Não há intensidade tangível nas situações, apenas atores afirmando diversas vezes a existência dela, com o excesso de diálogos expositivos mascarando a total ausência de estilo/personalidade do projeto. O tema é explosivo, o esforço da igreja católica em proteger seus padres pedófilos, mas a execução consegue drenar esse potencial evitando qualquer questionamento mais profundo. É, quando analisado com atenção, o fruto do cinema industrial norte-americano que é realizado hoje em dia, pensado para a faixa etária que compra ingresso, o público adolescente. Roteiros como “Todos os Homens do Presidente”, “Z”, “Rede de Intrigas”, entre tantos outros clássicos modernos, eram escritos para adultos. O barulho que está sendo feito é hype motivado pelas premiações, essas festas movidas por lobby, escolhas que pouco, na realidade, quase nada, dizem sobre a qualidade dos filmes.

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Outros comentários
    4275
  • Nilson
    25.01.2016 às 16:01

    Se fosse levar ao pé da letra tudo o que você colocou que o filme precisava para ser brilhante, o filme teria de ter 4 horas no mínimo. Pode não ser uma obra brilhante, mas não julgue o trabalho do diretor por trabalhos anteriores. Seja crítico, mas tenha o mínimo de razoabilidade. O filme enfoca o que precisa enfocar. A história é conhecida, o desfecho idem, sendo o que resta é a maneira como ela é contada, o que foi feito de maneira eficiente. Não há porque compará-lo com os filmes mencionados, mesmo porque teríamos de fazê-lo também com outros filmes, tais como Nos bastidores da notícia, O jornal e por aí vai. Os filmes são diferentes e devem ser analisados por si mesmos. Mas essa é só minha opinião