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EM DEFESA DE UM FILME “INDESEJÁVEL”

09.09.2002
Por Carlos Alberto Mattos
EM DEFESA DE UM FILME “INDESEJÁVEL”

É muito duro aceitar que a realidade é uma merda. Principalmente entre os intelectuais, acostumados a ver o mundo através de discursos de sobriedade e de “explicação” antropológica e social. Cidade de Deus, o filme brasileiro do ano (até agora, pelo menos) está deixando muita gente despida no meio da rua, tendo que enfrentar uma visão do inferno sem anteparos, proteções, nem mesmo um casaquinho de “contextualização”.



Se o quadro exposto pelo filme é uma merda, então é mais fácil acusar o filme de ser uma merda. A única coisa chata é que Cidade de Deus, seja por força de sua espantosa destreza técnica, seja pelo inquestionável brilho do elenco, ou ainda pela origem nobre no livro inatacável de Paulo Lins, não pode ser abertamente chamado de “uma merda”. É onde entram os argumentos sociológicos, a acusação de falta de ética, de contexto, etc.



Tem que ser muito vesgo para não enxergar o contexto no filme, através da presença dos policiais, do traficante de armas, dos “cocotas” da Zona Sul, todos interagindo com os personagens do gueto. Não precisava escalar, por exemplo, Gracindo Júnior como um burguês enfiado num superapartamento da Barra cheirando cocaína e mandando vir mais para mostrar que o narcotráfico interessa às elites. Pois tanto o livro de Paulo Lins como o filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund dedicam-se a narrar um anti-épico com cenário específico. Um sistema que se construiu e se nutre de maneira autofágica em seus próprios limites. O que assusta e é revelador é justamente a ausência de um discurso de explicações. Mesmo porque explicar o crime organizado, como ele hoje se dá, não é mais tarefa para as cartilhas marxistas.



Quem lê o livro, muito mais chocante e cru do que o filme, fica atordoado com a quase total ausência de remissão. O romance separa claramente entre quem tenta escapar das armadilhas (Buscapé e seus amigos) e quem chafurda prazerosamente na lógica da violência e na espera da “boa” (o grande golpe) que vai afastá-lo para sempre do destino de ser “otário” – isto é, dedicar a vida ao trabalho dito honesto e à remuneração miserável decorrente. Os mecanismos que levam ao crime não podem se reduzir à proverbial falta de acesso social. Há muito também de pura crueldade infanto-juvenil, rejeições, recalques de toda ordem (sexual, financeiro, de aparência) a produzir estupradores, ladrões e assassinos sem piedade. Mas, para o intelectual sóbrio, não é fácil compreender a psicopatologia da miséria, ou que nem tudo se explica pela equação sociológica. O filme, por incorporar todas essas variantes, torna-se incômodo e indesejável. O livro fazia o mesmo, mas pouca gente leu. E, além disso, de nenhuma outra forma de expressão se cobra tanto no Brasil como do cinema.



E olhe que Cidade de Deus enfatiza uma janela de salvação que no livro era apenas levemente insinuada. Buscapé, num artifício não muito bem ajambrado do roteiro, inicia carreira como fotógrafo e joga uma provocação contra uma classe inteira (“Jornalista não sabe trepar”). Mas não creio que isso justifique inteiramente o furor de certos críticos. Cidade de Deus sofre mais pelo preconceito contra cineastas de origem publicitária ou ricos pretensamente engajados. Sempre se cochichou muito contra Walter Salles. Meirelles e Lund expõem-se ainda mais ao escárnio crítico por abraçarem uma linguagem estritamente moderna, que faz largo uso do aparato cinematográfico universal (inclusive Scorsese, Tarantino etc) para ampliar o alcance emocional e descritivo do seu cinema. Provavelmente, se não fossem tão antenados e competentes, não suscitariam reações tão estridentes. Estariam melhor conformados à expectativa de um cinema mais humilde, sofrível e, aí sim, engajado.



Concordo, sim, que existe um misto de exploração e engajamento por trás de filmes como Palace II e Cidade de Deus. Na verdade, é muito difícil fugir a esse dilema, em maior ou menor grau, até nos filmes mais dignos do mundo. Afora um certo tipo de cinema educativo, institucional ou experimental, o que está em mira é sempre algum nicho de mercado. Mas tampouco faço coro aos que exigem dos filmes um constante e quase religioso compromisso com a explicação do mundo segundo padrões maniqueístas. Cidade de Deus mostra bandidos engraçados, crianças aterradoras, gente ambígua num mundo de regras ambivalentes. A favela – a gente pode imaginar – tem dessas coisas, assim como tem gente honesta, vítimas, mães chorando a morte de seus filhos, mulheres debruçadas sobre o corpo dilacerado de seus amantes. O filme mostra o processo de agenciamento da infância, a instrumentalização de traumas e recalques pessoais pelo sistema do crime. É um painel naturalista como, em seu tempo, O Cortiço, de Aluísio de Azevedo. Não dá para tapar os olhos ou simplesmente rejeitá-lo como “nocivo”.



Nocivo não é o filme, mas a cultura que se estabeleceu no vácuo de décadas de injustiça social e exclusão. O filme não quer explicar o que todos os intelectuais e políticos já estão cansados de saber. Ele exibe, sem eufemismos teóricos, um mundo onde a dor já se transformou num novo tipo de euforia. Quando o estado do doente fica grave demais, é preciso suspender a homeopatia, abrir o corpo e diagnosticar a doença. Cidade de Deus escancara um quase-cadáver. Tomara que ainda dê tempo.



* Carlos Alberto Mattos é jornalista e não vestiu a carapuça.

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