DVD/Blu-ray


O CINEMA DE ORSON WELLES, em DVD, pela VERSÁTIL

De: ORSON WELLES
Com: ORSON WELLES, JOSEPH COTTEN, AGNES MOOREHEAD, RITA HAYWORTH
17.01.2016
Por Octavio Caruso
Os filmes mais importantes de Orson Welles, finalmente lançados com o refinamento que merecem.

Verdades e Mentiras (F For Fake – 1973)

Um especialista que afirma ser autêntica uma pintura falsificada não é um falso entendedor, muito menos uma vítima enganada, mas, sim, alguém como você e eu, um ser humano carente de aprovação, que necessita se sentir parte de algo importante. O que importa pra ele é ter o controle sobre a autoria da arte de outrem, definir o que é bom ou ruim. A verdade, como Orson Welles cita no filme, é a escova de dente te aguardando no banheiro. Ninguém se inspira com a verdade. O que faz a experiência da vida ser interessante é a farsa, os rituais rebuscados que complicam o que é simples. Não queremos a verdade, nos revoltamos contra ela. O efeito placebo das medicações, o efeito da fé para os religiosos. Guerras são criadas e alimentadas com base em mentiras. Queremos acreditar que o posicionamento das estrelas na hora de nosso nascimento possui alguma relevância em nosso comportamento, olhamos para o céu com o mesmo fascínio dos antigos, admirando o comum, na esperança inconsciente de encontrarmos o extraordinário. Welles confirmou isso em sua polêmica narração de rádio sobre a invasão marciana, algo que apavorou famílias inteiras. E, com base nessa reflexão sobre verdades e mentiras, ele criou esse excelente filme-ensaio.

Quando jovem, ele fingiu ter experiência como diretor de teatro, para conseguir sua primeira oportunidade no mercado, e brinca que poderia ter ido pra cadeia após o tumulto causado por sua narração de “A Guerra dos Mundos”, porém, acabou sendo mandado pra Hollywood, recebendo sinal verde para a produção de “Cidadão Kane”. Ninguém melhor que ele, um apaixonado por ilusionismo, tendo aprendido seus primeiros truques com Houdini, para falar sobre o falsificador de pinturas húngaro Elmyr de Hory, usado por seu biógrafo, Clifford Irving, que forjou uma conversação gravada com o recluso Howard Hughes, utilizando esse material como base para um livro. Orson também falsifica a reportagem sobre Hughes, exibida no filme como um registro real, chegando a utilizar um membro de sua equipe técnica interpretando o apresentador do telejornal. Três falsificadores muito competentes, três áreas artísticas: cinema, pintura e literatura. Mas a proposta não se resume a essa análise, vai muito além, discutindo a própria definição de autoralidade, questionando, em uma das sequências mais filosoficamente profundas no terceiro ato, a importância exagerada dada ao autor, o valor exagerado dado ao nome. Quando tudo for eventualmente consumido pelas guerras, ou pelo desgaste natural do tempo, a fraude e o autêntico irão perecer da mesma forma. O ser humano morrerá, e, sem o olho humano para validar a arte, da mais bela peça original até a mais desleixada cópia, tudo será lixo, tudo será nada. Celebremos então a beleza das catedrais, ainda que não saibamos os nomes daqueles que as construíram. A arte é mais importante que o artista.

A forma que ele utiliza pra passar a mensagem, com uma montagem caoticamente ousada e coerente com o tom piadista do discurso, acaba nos colocando como plateia de um show de prestidigitação, constantemente sendo guiados para focar a atenção na mão errada, enquanto o diretor, abusando de sua competente oratória, brinca com as expectativas. A conclusão se dá após a primeira hora da produção, com uma reencenação do encontro entre sua musa Oja Kodar, o avô moribundo dela e o pintor Pablo Picasso. É o clímax de um truque de mágica que esconde, em seu cerne, uma resposta aos textos da crítica Pauline Kael, que, no ano anterior, havia questionado a autoralidade de “Cidadão Kane”, diminuindo a participação de Welles em sua criação. Ele provou estar certo, mas o impacto da controvérsia na imagem dele enquanto artista foi prejudicial. Kael, a crítica de arte, uma especialista, alguém que precisa acreditar deter o poder de afirmar o que possui valor e o que não tem valor algum. Ela vive da farsa, tanto quanto os outros personagens do filme, assim como você e eu.

A Dama de Shangai (The Lady from Shanghai – 1948)

Mesmo tendo sido prejudicado pelo produtor Harry Cohn, com inserção de trilha sonora onde o silêncio seria mais sábio, além de cenas editadas a ponto de confundirem ainda mais a trama, o produto final consegue ser um testamento da genialidade de Orson Welles, um noir visualmente único, praticamente um deboche do diretor com as convenções do gênero, com direito a uma sequência farsesca, quase onírica, passada em um tribunal.

O desfecho, o jogo de espelhos, sempre é lembrado pelos críticos, já que é a execução de estilo menos sutil, porém, há grande mérito em cenas menores, como aquela que inicia o filme, o primeiro encontro de Michael e Elsa, até o momento em que ele a resgata das mãos de três bandidos, conduzindo a jovem até a casa dela. A iluminação, os olhares, a maneira teatral como ela pede ajuda, complementada pela maneira antinatural com que ele edita a luta, abusando da aceleração do tempo e do corte de frames, a carruagem convenientemente vazia ao final, a divisão de classes simbolicamente evidenciada quando ele está conduzindo o veículo, em suma, a forma como toda a sequência é montada deixa claro que a inteligente mulher armou aquela situação para capturar o tolo e ingênuo marinheiro. Em revisão, sabendo o desenrolar da história, essa cena se torna ainda mais impressionante. A riqueza visual na construção dessa sequência inicial é muito mais interessante que o celebrado desfecho.

Rita Hayworth vive uma femme fatale diferente do que se costuma ver no gênero. Não há traço de ambiguidade em suas atitudes, não há ganância, sua voz é mansa, fria, controlada. Ela é uma mulher que foi vítima de tanto abuso psicológico pelo marido, que acabou desprovida de qualquer noção mínima de empatia.

Soberba (The Magnificent Ambersons – 1942)

É triste constatar a estupidez dos produtores que, preocupados com as reações negativas de sessões teste, decidiram retalhar a obra, tomando o controle das mãos de seu criador. A versão que o mundo conhece do filme representa, com sorte, 40% do que o diretor pretendia realizar. E, mesmo assim, após todos os cortes e adições equivocadas, especialmente um desfecho absurdamente incoerente com o tom estabelecido nos primeiros dois atos, ainda é possível reconhecer no produto final os traços de genialidade que, com certeza, atraíram a inveja de muitos colegas. Orson Welles, assim como o nosso Anselmo Duarte, guardadas as devidas proporções, foi vítima de sua extrema competência.

“Soberba” tem uma das cenas mais impactantes da história do cinema, a confissão do arrependimento do filho, George Amberson Minifer, vivido por Tim Holt, arrogante na infância e intensamente egoísta na vida adulta, no leito de morte vazio de sua mãe. Ajoelhado, uma silhueta tomada pelas sombras, excelente fotografia do mestre Stanley Cortez, o homem implora por um perdão que nunca viria. O nome de sua família, elemento que o fazia acreditar ser tão importante, esquecido nas ruínas de uma nova sociedade industrial. Quando ele sofre um acidente, pouco tempo depois, o grande George Amberson se torna uma mínima nota no jornal, reduzido a ser citado como um dos vários empregados da companhia.

Os filmes estão sendo lançado em DVD pela distribuidora Versátil, na caixa "O Cinema de Orson Welles", em parceria com a Livraria Saraiva. Também estão incluídos, além de ótimos documentários sobre as produções, os filmes: "O Processo", "Grilhões do Passado" e "É Tudo Verdade".

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