Críticas


A BRUXA

De: ROBERT EGGERS
Com: ANYA TAYLOR-JOY, RALPH INESON, KATE DICKIE
11.03.2016
Por Octavio Caruso
Um filme de horror para os fãs mais criteriosos.

O horror é meu gênero de formação, então fico muito feliz quando encontro um projeto novo genuinamente bom, um produto que esteja conectado à época em que esses filmes eram pensados por e para adultos, com maior interesse na construção de clima, ao invés da sucessão de sustos previsíveis que o público adolescente está acostumado a encontrar hoje nas salas. Exatamente por isso, ver “A Bruxa” no cinema pode ser uma experiência frustrante. Você vai constatar o nível de emburrecimento em que se encontra grande parte do público, não apenas os jovens.

O ritmo inteligentemente lento da trama, algo que não incomodava os espectadores de “O Bebê de Rosemary” na década de sessenta, provocou uma reação curiosa nas pessoas próximas, uma espécie de angústia envolta por risadas nervosas involuntárias. A mente, tão acostumada e programada para reagir aos impulsos imediatistas tolos dos jump scares, não consegue aceitar que está diante de um roteiro que está impondo suas próprias regras sensoriais. Analisando bem, o recurso do susto é o artifício menos inteligente, o bom horror aposta no poder da sugestão. O público quer respostas fáceis, algo que o diretor Robert Eggers não está interessado em oferecer. Então, por mais esquisito que seja esse meu conselho, caso você aprecie o gênero e queira garantir uma boa experiência, não veja no cinema, espere o DVD. Aliás, ir ao cinema está cada vez mais insuportável, devido à acachapante falta de educação do povo brasileiro. Não é de se espantar que, antes do início do filme, seja necessário exibir um longo vídeo animado e infantilizado ensinando bons modos aos adultos. E, ainda assim, o brasileiro comete todos os erros apontados, como celulares acesos atrapalhando a imersão alheia. Triste e vergonhosa realidade.

Em alguns momentos, o tom me remeteu ao recente “Somos O Que Somos”, excelente terror que poucos conhecem. Uma atordoante sensação constante de maldade, contrastando com a beleza da fotografia de Jarin Blaschke, com a preferência pela luz natural potencializando a melancolia do cenário em que habita a família camponesa na Nova Inglaterra de 1630. Os eventos foram baseados em relatos orais e escritos da época em que começaram a ter casos de histeria coletiva, fundamentada em superstições, sessenta anos antes do julgamento das bruxas de Salem. Sem revelar muito, acho importante salientar uma camada de interpretação que ganha pontos em revisão. A intensa religiosidade da família codifica todos os estranhos acontecimentos, o desespero diante do desconhecido faz com que eles ativem a suscetibilidade humana ao apedrejamento, alimentado pela culpa cristã e a consequencial punição, um fanatismo que nubla até mesmo os elos de amor familiar, cegando qualquer senso de lucidez, assim como nas perseguições dos inquisidores históricos. A utilização da cabra, símbolo pagão, reforça esse conceito. Conhecemos mais sobre os personagens através de suas atitudes quando confrontados por esses medos. Todo o elenco esbanja competência, mas Anya Taylor-Joy, que vive a filha mais velha, merece destaque pela forma como consegue transmitir a pureza infantil sendo consumida progressivamente pela insegurança natural no processo de amadurecimento. Esse viés me remeteu ao ótimo “A Companhia dos Lobos”, de Neil Jordan, que recomendo para uma sessão dupla.

Com, no mínimo, um par de cenas visualmente inesquecíveis, inseridas em um contexto fascinantemente pessimista, como os melhores filmes no gênero, essa produção injeta esperança em qualquer fã do horror. Que o público agora eleve seus padrões...

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Outros comentários
    4292
  • andre borelli
    11.03.2016 às 22:34

    Exatamente meu pensamento, sobre o ótimo filme e o sem educação e burro público. Vale destacar todo o simbolismo e o uso dos arquétipos de Jung, tal como anima. Acho que é uma crítica à juventude que mata simbolicamente a família, com todo seus valores e crenças, entregando se às 'perdições mundanas'. Faz isso utilizando todo simbólico popular sobre contos de fadas ( bruxas), como maçã, velha, bode, crianças, coelhos, noite, floresta e etc. Enfim, ótimo filme.
    • 4295
    • Octavio Caruso
      14.03.2016 às 06:44

      Ótima análise, Andre. Espero contar sempre com sua atenção. Abração!
    4293
  • Concy Pinto
    13.03.2016 às 20:49

    Perfeita sua avaliação. Para um público cada vez mais pobre de tudo, surgem filmes para incitar a inteligência e a cultura. São para poucos! Mas como ainda os há, devem ser respeitados. Um filme como esse, com bela fotografia e cenas em grandes espaços é impossível ter o mesmo impacto em TVS. Espero que tenha servido também de alerta para as manifestações "doentias" de qualquer tipo de misticismo e/ou religiosidade. Incitar à loucura é cada vez mais fácil!
    • 4294
    • Octavio Caruso
      14.03.2016 às 06:43

      Concy, o impacto da tela grande é impossível de ser repetido fora da sala escura, porém, a experiência de imersão está sendo comprometida gravemente devido à impressionante falta de educação do público brasileiro. Como amo cinema, não posso relevar isso. É triste dizer isso, mas não troco o meu "quarto escuro", TV de 42 polegadas, silêncio respeitoso das pessoas próximas e caixas acústicas, por o que de fato se tornou uma ida ao zoológico. Os filmes não merecem ser destruídos pelo desinteresse absurdo dos brasileiros por um mínimo de elegância e bons modos. Abração!