Críticas


BATMAN VS. SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA

De: ZACK SNYDER
Com: HENRY CAVILL, BEN AFFLECK, GAL GADOT, AMY ADAMS, JESSE EISENBERG, LAURENCE FISHBURNE
25.03.2016
Por Octavio Caruso
Prejudicado por uma subtrama forçada, o roteiro insinua tremendo potencial desperdiçado.

Os críticos norte-americanos estão destruindo o filme, mas acredito que eles estão se pautando pelas expectativas, mais do que analisando o produto final. O resultado está longe de ser ruim, tem sim muitos problemas, mas os acertos que nascem de atitudes corajosas, elemento praticamente inexistente nesse subgênero, conseguem superar os erros. A ideia de que o todo é bagunçado, com excesso de informação, não é apenas impressão, o projeto foi obviamente retrabalhado até o último segundo, mediante o interesse crescente dos produtores em competir com o universo expandido da Marvel no cinema.

Fica claro que os equívocos mais grosseiros se originam na decisão executiva do que havia sido pensado como uma honesta sequência de “O Homem de Aço”, mas que precisou, em um momento avançado do processo, enxertar uma subtrama totalmente desnecessária como complemento dos arcos narrativos bem estabelecidos do Superman e do Batman, a inserção da Mulher Maravilha e a gênese da Liga da Justiça, para entregar um épico de proporções mitológicas para o público. É facilmente perceptível que esses enxertos, que dominam principalmente os noventa minutos finais, destoam do que é competentemente estabelecido no superior primeiro ato. Vale destacar os brilhantes vinte minutos iniciais, mostrando a perspectiva dos humanos passivos diante da destruição causada pela batalha do filme anterior.

A clareza dessa abordagem define a personalidade de Bruce Wayne, vivido por Ben Affleck, um guerreiro cansado e consciente de que seu legado, incluindo a culpa por uma tragédia pessoal que é brevemente insinuada, tudo pelo que lutou, pode estar em risco com a presença desse deus alado. Ele desconhece o homem por trás da figura idealizada nas manchetes, aquele enigma que parece não se importar com as perdas humanas em seu caminho. Esse antagonismo é muito bem orquestrado no roteiro de Chris Terrio e David S. Goyer, uma pena que o foco seja desviado para “A Origem da Justiça”, cometendo o pecado cada vez mais usual de se preocupar em preparar terreno pras continuações, ao invés de garantir a qualidade da história do próprio filme.

Como Batman, ressalto um detalhe muito importante: pela primeira vez, conseguiram dar ao personagem o elemento do medo que ele inspira nas suas vítimas. Em todas as versões cinematográficas, teoricamente ficamos sabendo que a figura do morcego foi escolhida pelo pavor que o menino sentiu outrora, mas nunca esse pavor foi efetivamente representado nas telas. O diretor Zack Snyder merece crédito, já que buscou inspiração no cinema de horror oriental para nos fazer sentir o medo do bandido ao cruzar com o homem-morcego. Quando ele se mostra, o tom é de terror, fiel ao espírito de “O Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller. O Batman de Snyder é a junção perfeita do herói da moderna série “Arkham” de videogame com a clássica animação da década de noventa. Até mesmo uma modificação essencial na conduta dele, algo que pode incomodar os fãs mais devotados, acaba soando coerente no contexto pessimista de um vigilante em fim de carreira. É mais um exemplo de coragem que agrega pontos ao projeto.

Gal Gadot, vivendo a heroína, por ter mais tempo de cena, conquista maior relevância, ainda que a história e as motivações de sua personagem não sejam exploradas. Quando, enfim, parte para a ação, um breve detalhe a torna mais complexa: ela parece se divertir com a dificuldade crescente do confronto, uma atitude que preenche algumas lacunas de sua personalidade, uma guerreira que ama o bom combate, um contraponto interessante que pode ser trabalhado nas sequências. O Lex Luthor de Jesse Eisenberg irrita pelos motivos certos, já que o ator compôs uma versão genuinamente inédita para o vilão clássico, sem referências diretas dos gibis, ainda que funcione como um amálgama do cientista louco da década de trinta, do homem de negócios ganancioso de John Byrne e do bon vivant trambiqueiro imortalizado por Gene Hackman.

A Lois Lane de Amy Adams é uma evolução natural da personagem do filme anterior, com aquela mesma onipresença conveniente, um problema do roteiro que finjo não notar por estar encantado com a atriz. É pena que a interação romântica do casal Lois e Clark seja mostrada apenas uma vez, numa breve cena em um apartamento, que se desfaz em alívio cômico, pouco para que realmente compremos a relação de cumplicidade dos dois, um ponto de extrema importância para os eventos do terceiro ato. Vários beijos num bom enquadramento não substituem diálogos bem escritos, mas é o que dá pra fazer quando se faz preciso incluir umas dez subtramas em um par de horas.

E o Superman? Bom, Henry Cavill emula muito bem a dignidade serena que Christopher Reeve imprimiu no passado, mas o personagem ainda vive numa constante angústia, o que o impede de experimentar momentos de alívio heroico, aquele senso de aventura empolgante que cativou gerações de leitores dos quadrinhos. Esse peso existencialista excessivo, reforçado pela paleta cinza e dessaturada da fotografia, justifica a ideia de que essa nova versão está mais para uma representação mitológica distanciada, com nada sutis referências a Jesus, do que uma celebração do super-herói infanto-juvenil criado por Jerry Siegel e Joe Shuster. Ele chega a carregar um navio nas costas, mas seu rosto macambúzio te faz orar para que a fanfarra de John Williams irrompa estrondosa pela sala escura. Mas, não me leve a mal, a trilha de Hans Zimmer é excelente, coerente com a proposta da trama, com temas únicos e marcantes para cada personagem.

Sem revelar muito, afirmo que o roteiro buscou homenagear várias histórias importantes de Batman e Superman, bem mais do que seria possível reunir em uma trama coesa, uma opção ousada que prejudicou o ritmo, com inserções longas de interlúdios oníricos que não avançam a narrativa, a já citada inclusão da subtrama da Liga da Justiça que não serve à história que está sendo contada, além da utilização exagerada de computação gráfica em cenas que poderiam ser resolvidas de forma prática. O desfecho, no entanto, evoca a emoção de uma forma muito madura, algo que os heróis da Marvel, divertidos action figures coloridos aprontando altas confusões, nem se interessam em explorar.

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Outros comentários
    4296
  • Guilherme
    25.03.2016 às 01:05

    Estava ansioso pela crítica de Octavio. Matou minha ansiedade. Relatou de forme coesa todos os alicerces que entregam o filme para os fãs. Parabéns mais uma vez. AGora para matar mais uma ansiedade Octavio...Afleck ou Bale?
    • 4297
    • Octavio Caruso
      25.03.2016 às 02:30

      Obrigado pela gentileza, Guilherme. Os roteiros da trilogia de Nolan eram muito superiores, mas a caracterização do Affleck é mais fiel ao personagem. Aquele recurso dele engrossar a voz nunca funcionou bem (rs). Abração!
    4298
  • Tania Esteves
    25.03.2016 às 09:17

    Ah Octavio ... verei o filme no domingo ... mas te confesso, deviso a minha ansiedade, que depois de ler a crítica, fiquei um pouco desanimada ! Abraços !!!
  • 4299
  • Tania Esteves
    25.03.2016 às 09:17

    Devido*
  • 4300
  • Dejard Reis
    26.03.2016 às 13:33

    Ainda estou preocupado do filme ser outro "disaster porn" como de costume nos filmes do Snyder. De qualquer forma, ótima crítica Caruso.
  • 4301
  • Fabio Maschiari
    28.03.2016 às 12:48

    Sinceramente !!!! Fiquei totalmente decepcionado, estava muito ansioso sobre o filme desde " Eu sou a Lenda " teve uma cena que aparece dois Símbolos... Quem já leu os quadrinhos desde nos anos 90 vai saber o roteiro do filme, não faz sentido nenhum... LAMENTÁVEL.
  • 4302
  • Tania Esteves
    28.03.2016 às 16:18

    Pois é Octavio, vi o filme ontem ... gostei, mas fiquei um tanto frustrada !!!!
  • 4303
  • Iago Maia
    30.03.2016 às 07:33

    Olá, bom dia! Em minha opinião, na visão de fã, achei o filme muito bom. Pois o filme faz boas referências as HQ's que eles mencionam. As cenas de ação estão bem coreografadas. As atuações superaram as minhas expectativas, exceto ao do Henry Cavill, que para mim está regular, mas ainda precisa encontrar um feição do personagem como Superman. O Batman de Ben Affleck está muito bem, atuação muito boa. E não podemos comparar muito ao Batman de Bale, pois o universo que o Nolan construiu é mais realista. Esse do Snyder é claramente como ele disse, totalmente voltado para fãs. Desde o começo da produção ele mencionava isso. A aparição da Mulher Maravilha, personagem vivida por Gal Gadot, é muito boa e funciona muito bem. Digo até que é um dos pontos fortes do filme. Trilha sonora do Hans Zimmer está boa e muito emocionante. Embora em alguns pontos em excesso, o que é característica do diretor, juntamente com o visual do filme. Mas em nada atrapalha o longa. As vezes o filme peca nos excessos de CGI. Realmente de fato o roteiro é muito pouco trabalhado. Poderia haver mais diálogos no filme, pois as ideologias e os personagens permitem mais diálogos épicos. Mas no ponto de fã que sou, de modo geral, achei o filme muito bom, épico. Mas sendo crítico, de fato o filme tem defeitos sim (já citados acima) e é notório. Abraços e acompanho sempre o site. Parabéns