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Conspiracao e Poder

CONSPIRAÇÃO E PODER

De: JAMES VANDERBILT
Com: CATE BLANCHETT, ROBERT REDFORD, DENNIS QUAID, STACY KEACH.
26.03.2016
Por Nelson Hoineff
O filme, em sua essência, contempla bem satisfatoriamente os fatos - o que é de bom tom quando uma obra é baseada em fatos reais.

Em 1948, dois anos antes da primeira câmera de televisão chegar ao Brasil, o telejornalismo moderno começava a se estabelecer nos EUA. Uma das primeiras grandes referências dos telejornais pode ter sido Douglas Edwards, um já consagrado repórter político da TV americana (a televisão, que nascera em 1936 na Grã-Bretanha, havia chegado à America apenas em 1941), escolhido para ser o apresentador do primeiro telejornal em horário nobre da CBS, batizado simplesmente como Douglas Edwards With the News.

O termo “âncora” ainda não existia. Ele seria aplicado pela primeira vez somente em 1952 pelo chefe do CBS News, Sid Mikelson, para descrever o papel na cobertura das convenções dos partidos Republicano e Democrata feito por um jovem e promissor repórter, Walter Cronkite.

Já em meados dos anos 50, Douglas Edwards With the News atingia a extraordinária marca de 30 milhões de espectadores. Mas no início da década seguinte, o noticiário de 15 minutos, que havia coberto ao vivo (o vídeo tape só chegaria em 1963) a tentativa de assassinato de Truman, a coroação de Elizabeth II e o naufrágio do Andrea Doria, começava a perder folego.

Em 16 de abril de 1962, Edwards seria substituído pelo jovem que havia feito tanto sucesso nas convenções de 1952, a ponto do chefe chama-lo de “âncora” da cobertura. O telejornal mudaria seu nome para CBS Evening News e um ano e meio depois alteraria corajosamente o seu formato, tornando-se o primeiro telejornal de 30 minutos da América.

A grande competição do telejornalismo americano dava-se entre a CBS e a NBC, com vantagem para a segunda, com seu memorável Huntley-Brinkley Report, apresentado por dois repórteres de renome, Chet Huntley e David Brinkley.

O jornalismo televisivo era caro e não dava retorno comercial, como notado a certa altura de Conspiração e Poder. Mas a CBS tomou a decisão corporativa de investir cada vez mais no jornalismo, enquanto a RCA (controladora da NBC) pensava o contrário.

Isto se refletiu na qualidade do produto jornalístico. A CBS ganhou reputação de cobrir os fatos com maior profundidade e, já em 1967, o CBS Evening News começou a superar a audiência do Huntley-Brinkley Report em julho e agosto e, em 1970, ganhou a hegemonia absoluta no setor.

Por essa época, Cronkite já era conhecido como “o homem mais confiável da América”, título que lhe havia sido conferido por uma pesquisa popular. Os telejornais das três grandes redes eram a principal referência de informação do público e de formação de opinião do país. Faltava ainda uma década para o aparecimento das redes de TV por assinatura, e duas para a Internet. O poder e a respeitabilidade dos telejornais do horário nobre eram acima de qualquer suspeita – e Cronkite, definitivamente, a pessoa em que se podia acreditar. A maneira como encerrava seu programa – “And that’s the way it is”, seguido pela data, era, mais que um bordão, uma declaração diária de princípios. “Essa é a maneira que é” - e não se fala mais disso.

Mas a CBS mantinha uma política rígida de aposentadoria compulsória aos 65 anos, e, em 1981, o homem mais confiável da América foi forçado a deixar o comando do CBS Evening News para fazer apenas algumas reportagens especiais. Sua despedida pode ser vista em https://www.youtube.com/watch?v=G5tdqojA26E. Ali, ele anunciava o nome de seu sucessor: Dan Rather.

A escolha de Rather – em detrimento do favorito Roger Mudd, vencedor do Peabody Award e de cinco Emmys - foi surpreendente, e, em 9 de março de 1981, Rather sentou-se na cadeira que ao longo de 20 anos testemunhou a ascensão do jornalista mais poderoso do mundo e a consolidação do CBS Evening News como a mais confiável e infalível fonte de informação do país.

Àquela altura, a competição era ferrenha. O CBS Evening News com Dan Rather, o ABC World News Tonight com Peter Jennings e o NBC Nightly News com Tom Brokaw (sucessor do Huntley-Brinkley Report) revezavam-se no topo da lista quase anualmente. Brokaw e Jennings haviam assumido a liderança de seus noticiários no mesmo dia, 5 de abril de 1982. Os três concorrentes começaram e saíram de seus noticiários com, no máximo, um ano de diferença, o que estabeleceu uma acirrada disputa horizontal, onde os formatos eram quase iguais e o que fazia toda a diferença era a credibilidade. Tudo era permitido, menos uma informação errada, por menor que fosse esse erro.

Em 1994, o CBS Evening News havia perdido espaço para seus concorrentes e mantinha-se no terceiro lugar da disputa, quando, após levantar questionamentos sobre uma suposta fraude do presidente George W.Bush para escapar do serviço militar na Guarda Nacional durante a guerra do Vietnam, o mundo desabou sobre Dan Rather.

Os críticos de sua matéria passaram a exibir suspeitas sobre a autenticidade dos documentos apresentados e isso acendeu uma enorme controvérsia que envolveu uma ampla investigação sobre o CBS Evening News por seus concorrentes, pelo governo e pela própria CBS, que criou uma comissão independente para examinar o caso. É disso que fala Conspiração e Poder.

A suposta fuga de Bush de suas obrigações como cidadão havia sido levantada pela produtora Mary Papes (vivida no filme por Cate Blanchet) para o 60 Minutes, um dos mais prestigiosos programas jornalísticos da emissora, num segmento ancorado por Rather em 8 de setembro daquele ano, e dado seguimento pelo CBS Evening News. A base para a matéria consistia em seis documentos obtidos através do Tenente-Coronel Bill Burkett, quatro dos quais foram apresentados no ar por Rather como comprovadamente originais. Mas essa comprovação nunca aconteceu.

Na época, a suposta atitude de Bush foi muito menos comentada do que a possível imprecisão da reportagem. Àquela época, as três grandes redes – “the big three” – já eram potencialmente ameaçadas pela embrionária indústria da TV por assinatura e, mais do que nunca, não podiam errar. Acima de uma mera fonte de informação, haviam se transformado, desde Cronkite, na consciência da América. Na longa investigação que se seguiu e que se baseou na tipografia das maquinas de escrever da época e na ausência dos documentos originais – supostamente queimados por Burkett – o CBS Evening News capitulou.

Rather, que ficou na CBS por 43 anos, processou a emissora em 70 milhões de dólares. Isso não é dito no filme, que começa e termina na sua queda e que, em sua essência, contempla bem satisfatoriamente os fatos. Embora não necessário, isso é de bom tom quando uma obra é baseada em fatos reais. O diretor James Vanderbilt (roteirista de O Espetacular Homem Aranha e estreante na direção) parece justificadamente preocupado em se ater aos fatos reais, ainda que com pequenas alterações. No filme, Rather é demitido antes de membros da equipe do CBS Evening News, quando na verdade a ordem é inversa.

O carismático Robert Redford é bem diferente do seco Dan Rather, mas, além do sorriso do apresentador que na verdade nunca existiu, ele não muda uma palavra de seu emocionante discurso de despedida, que pode ser visto em https://www.youtube.com/watch?v=TTEeCAuoZfY. Também a atitude da equipe do CBS Evening News, que ao final da transmissão aplaudiu entusiasticamente seu líder é rigorosamente a mesma, como pode ser comprovado no mesmo vídeo.

A confiança no seu jornalismo é uma questão cultural e em alguns lugares, como a América, atinge o seu paroxismo. Durante seus primeiros 60 anos, por exemplo, a televisão brasileira não conheceu âncoras, mas leitores de noticias, nos quais não é preciso confiar. Recentemente, nomes como William Waack, na Globo, Ricardo Boechat, na Band, e Willian Correa, na Cultura, começam a alterar essa cultura. Em 1984, na América, a simples falta de comprovação da autenticidade de um documento – que todos sabem tornar-se verdadeiro – sobre um assunto quase pueril, como o tempo de serviço militar de um presidente, provocou a demissão do principal âncora da maior rede do país e de grande parte de sua equipe. Aqui, na mesma semana em que estreava o filme sobre esse episódio, a maior revista do país publicava uma capa inteira, comprovadamente falsa, sobre um encontro entre o ex-presidente Lula e o embaixador italiano no Brasil, e o assunto é esquecido no mesmo dia.

São culturas diferentes e Vanderbilt expressa com precisão e sem firulas, a de seu país. Pode parecer exagerado. Mas o Brasil melhorará muito a cada momento em que sua sociedade exigir menos leviandade e mais compromisso com os detalhes de quem lhe informa.

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Outros comentários
    4328
  • maria luiza guião bastos
    03.06.2016 às 13:26

    Adorável comentário! me encheu de saudades de Paulo Francis, no seu tempo o único que nos trazia a televisão dos EUA! e que nos mortificava, pois que tal maravilha aqui não existia...... Minhas paixões: ''Boa noite, Boa sorte'' e ''The Newsroon'', ambos comprados para me fazer feliz! Quanto a este, posso ver no Netflix já que me recuso a ir a cinemas, um mar de azuis por todas as salas, reflexos de celulares às pencas...... até mesmo note-books, grrrr..... E em alguns, entram garçons trazendo o odor de comedorias e me pergunto, atônita: ''Por que essas pessoas não ficam em casa,hein?!". Abraços! Gratos!