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ASSUNTOS DE TODOS NÓS

22.06.2005
Por Maria Silvia Camargo
ASSUNTOS DE TODOS NÓS

Para além de suas qualidades cinematográficas, O Segredo de Vera Drake , de Mike Leigh, está se tornando um daqueles filmes obrigatórios de serem vistos, por provocar uma discussão atual entre nós: o direito ao aborto. Uma questão mais velha que o mundo no âmbito particular, mas que ainda engatinha em nossa sociedade (haja vista o recente enorme esforço das mulheres que geram filhos anacefálicos para conseguirem ser compreendidas no seu direito de diminuir suas tragédias). Da lentidão medieval da mentalidade sócio-judicial brasileira aos percalços da vida de cada um há um abismo, mas o impacto do tema em nosso microcosmo é igualmente forte. Tomem-se como exemplo as revelações feitas já na porta do cinema após a sessão: um amigo disse que, não fosse sua convicção pró-aborto e seu dinheiro (privilégios da classe média que estão no filme) teria hoje três bocas a mais para alimentar; o outro queria ser pai, mas a ex-companheira, vítima de um aborto mal realizado, ficou incapacitada de gerar filhos.



Depois, já no bar, mais uma série de segredos – mesmo entre amigos de 15, 20 anos - vieram à tona. Eis aí o primeiro mérito do filme de Mike Leigh: provocar homens e mulheres (éramos três casais, entre jornalistas, psicanalistas e afins) a falarem abertamente - moral e religião de lado - sobre sexo, relacionamento e vida. Mais uma rodada de chope e outros dois filmes entram na roda: o recente Kinsey, Vamos Falar de Sexo , de Bill Condon, e o inesquecível Um Assunto de Mulheres , de Claude Chabrol, recém-relançado pelo Grupo Estação. Todos os três filmes espelham, no particular, o universal.



Por ter tido dificuldades de se realizar sexualmente é que o professor Kinsey (Liam Neesen) larga a Biologia para se dedicar a uma pioneira pesquisa de sexo, cujo resultado abalou a sociedade esclarecida dos anos 40 (não só a americana: nos anos 50 no Brasil, o primeiro livro de Kinsey foi apelidado de “O Manual”). E pelo que se compartilhou, pelas histórias – nossas e dos outros - nesta sucessão de espelhamentos, sessenta anos depois, algumas das primeiras constatações de Kinsey ainda são válidas: quanto preconceito e ignorância há no sexo; como se fala pouco e sem propriedade do assunto. Sim, porque esta histeria comercial que a mídia reproduz e incita nada tem a ver com o sexo como ele é. Este é o segundo mérito do filme: Kinsey, Vamos Falar de Sexo , fala de um sexo real, vivido, nem idealizado, nem caricato.



Quando a conversa chegou em Um Assunto de Mulheres e Vera Drake , baseados na vida de duas aborteiras – a primeira ficcional, mas plausível – e a outra real, aí é que as realidades da França da II Guerra e da Inglaterra de 1950 se misturam mais ainda ao Brasil de 2005. Foi para sobreviver com os dois filhos numa Paris destruída que Marie-Louise Giraud (Isabelle Huppert) praticou abortos. Era para ajudar “as pobres coitadas” de classe baixa – algumas estupradas, outras adolescentes – que Vera Drake (Imelda Staunton) ia de casa em casa ministrar uma química caseira que, se não intoxicasse a mãe, matava o feto. Vera fazia isto sem ganhar dinheiro e sem desconfiar que a “amiga” que lhe fornecia o endereço das grávidas, Lily (Ruth Sheen), faturava por ela. Pois 55 anos depois, o que faz uma mulher de baixa renda quando não quer ter filhos? Não cabe listar os esforços de alguns municípios brasileiros (no Rio de Janeiro, por exemplo, fornece- se gratuitamente, em hospitais públicos, a pílula do “dia seguinte”); fundações e ONGs. Basta dizer que não existe uma política de planejamento familiar nacional ou uma política de prevenção e educação de amplo espectro. Não se fornecem métodos anticoncepcionais a menores de idade nos hospitais públicos; não se conhece uma Primeira Dama que tenha tido a coragem de enfrentar esta infeliz mistura de hipocrisia e religião - e por aí vai.



O resultado? Todos os dias os jornais publicam vários deles, sob vários ângulos, mas só para citar um (manchete de O Globo no ultimo dia das mães): em dez anos a gravidez entre meninas de 10 a 14 anos aumentou 93,7%. Por isto é que os três filmes acima devem ser vistos. Para que seus temas deixem de ser assuntos que ganham voz – no máximo - em âmbito particular e íntimo. A diretora Sandra Werneck está filmando As Meninas , um documentário sobre gravidez adolescente. Mas, e os outros assuntos, quem se habilita a enfrentá-los na tela? Tomara que os três filmes acima sirvam de inspiração a este cineasta. Pelo menos pelo tanto de humano, contraditório, passional e verossímil com que construíram seus personagens.









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