Críticas


OS DOCES BÁRBAROS

De: JOM TOB AZULAY
Com: CAETANO VELOSO, GAL COSTA, GILBERTO GIL, MARIA BETHÂNIA
06.07.2005
Por Carlos Alberto Mattos
GOZANDO DE NOVO

Ao contrário do que tem sido dito por aí, o tempo fez muito bem a Os Doces Bárbaros.



O que nos anos 1970 parecia registro simplório, crônica do momento, hoje ganha foros de documento de uma época, sintetizada na sonoridade, no visual e nas atitudes dos quatro cavaleiros do após-calipso. Gil, Gal, Bethânia e Caetano não deixaram de ser quem eram, mas ao mesmo tempo mudaram muito, o que é natural. Comparar suas imagens de ontem e de hoje não é o menor dos prazeres de rever o filme de Jom Tob Azulay.



O que na época do lançamento parecia tosco e um tanto preguiçoso como filmagem de shows, agora chega como um bálsamo para olhos exaustos que querem parar para ver. Mesmo que a edição continue deixando a desejar em relação ao ritmo sugerido pelas músicas, aleluia! Podemos acompanhar a evolução dos baianos pelo palco, em lugar da evolução dos dedos do editor sobre o teclado. Por outro lado, a fotografia estourada sob o comando de Fernando Duarte, então uma contingência incontornável, hoje pode ser melhor assimilada com a ampla absorção do lowtech pela estética contemporânea.



Não vale dizer que o filme se beneficiou da prisão do grupo por porte de drogas em Florianópolis. Um documentário é sempre a soma (e a seleção) do que acontece diante das câmeras. Os Doces Bárbaros, é claro, não seria o que é sem aquele episódio. Nem sem a voz do diretor pedindo ao delegado patético que explicasse o sentido da palavra “campana”. Nem sem a célebre entrevista tímida-cínica de Bethânia no camarim; Caetano assumindo-se como “produto mesmo”; Gil com seus impagáveis lacinhos discorrendo sobre a relação entre atos e fatos e concluindo com “a gente é isso”; ou os ensaios do quarteto deitado no chão, tão anos 70. O filme é isso tudo, assim como Don’t Look Back, o clássico documentário-direto de D.A.Pennebaker, é Bob Dylan em todos aqueles momentos, ou Bethânia Bem de Perto, de Eduardo Escorel e Julio Bressane, é aquela coleção de fragmentos irrepetíveis. Enfim, com desculpa pela tautologia, nenhum filme seria o que é se não fosse o que é, ora bolas.



De resto, musicalmente, aquela foi uma das florações mais memoráveis do tropicalismo tardio. Entre profecias, sincretismos e protestos envelopados na poesia, os doces bárbaros corporificavam um apelo ao canto livre e ao prazer. Revê-los no filme é não só gozar junto com eles, como também entender melhor o potencial de transgressão que carregavam nos estertores da ditadura. “Ame-o e deixe-o livre para amar”, cantava Gil contra o slogan exilante do governo militar. “Solto está o pássaro proibido”, anunciavam os irmãos Veloso.



Coisas assim não envelhecem. Só acumulam sentidos.





# OS DOCES BÁRBAROS

Brasil, 1976

Direção e produção: JOM TOB AZULAY

Roteiro: JOM TOB AZULAY, GUILHERME ARAÚJO, ISABEL CÂMARA, EUNICE GUTMAN, JORGE SALDANHA

Fotografia: FERNANDO DUARTE

Som direto: FRED LEITE, JOM TOB AZULAY, JORGE SALDANHA

Montagem: EUNICE GUTMAN, LUÍS CARLOS SALDANHA

Duração: 100 minutos

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