Críticas


GUERRA DOS MUNDOS

De: STEVEN SPIELBERG
Com: TOM CRUISE, DAKOTA FANNING, JUSTIN CHATWIN, TIM ROBBINS
12.07.2005
Por Carlos Alberto Mattos
O RETORNO DO REPRIMIDO

Existe uma diferença abissal entre o olhar compreensivo e fascinado do menino Elliott diante do alienígena de E.T. e a expressão sempre aterrorizada da pequena Rachel em Guerra dos Mundos. Elliott era a contraparte do E.T. (já no nome), duas encarnações de crianças adoráveis, cuja aspiração maior era simplesmente reencontrar o caminho de casa. O filme era produto de um país confiante em seu poderio, que assim podia olhar o “diferente” com ternura e condescendência.



Guerra dos Mundos é sintoma de situação bem distinta. Os americanos protagonizam um tempo em que ninguém mais se sente seguro. Voltam os fantasmas de um conflito permanente – não mais a guerra fria ideológica, mas a “guerra quente” sem rosto, randômica e descodificada do terror internacional. Boa oportunidade para desenterrar uma vez mais a história seminal de H.G.Wells, concebida como libelo contra a arrogância da sociedade vitoriana, mas maleável a todo tipo de atualização.



Embora se mantenha fiel às síndromes familiares de praxe, Spielberg vem progressivamente se afastando daquele mundo de encantamento que gerou E.T. e Contatos Imediatos do Terceiro Grau, outro tributo ao ideário da conciliação. O subestimado A.I. – Inteligência Artificial já dava mostras de uma percepção mais inquieta da convivência entre dimensões mediadas pela tecnologia. Guerra dos Mundos é a quase plena rendição do diretor à cartilha da paranóia, sentimento nacional número 1 dos EUA de hoje.



Tudo o que se vê e ouve no filme está imantado pela memória do 11 de setembro. A angústia, a destruição, os escombros, tudo assume feição muito mais grave. Não se trata do apocalipse ficcional de antes, mas do horror comezinho que se conhece bem. Não se brinca mais com o horror já vivido, nem há passe de mágica que aniquile o medo. A retórica do governo Bush não é tanto a vitória e a imposição de uma receita, mas a sobrevivência. Vencer para sobreviver, digamos assim. Ray Ferrier (Tom Cruise) passa a maior parte do tempo correndo e tentando proteger seus filhos. Só não é tragado pela besta porque um inusitado mutirão de cidadãos o impede – sorte, aliás, que só a esse herói parece tocar.



Não vale a pena deter-se sobre as incongruências e fragilidades dramáticas do roteiro. Tê-lo aceitado só demonstra que Spielberg está se contentando cada vez mais em ser um cineasta menor, artesão sempre competente, mas de rotina. O esplendor dos efeitos especiais e um punhado de cenas atmosféricas exemplares valem o ingresso, mas a verdade é que estamos a anos-luz daquele cinema que revitalizou Hollywood nos anos 70 e 80.



Entre as diversas metáforas acionadas pelo novo Guerra dos Mundos, uma é particularmente interessante: os terríveis Tripods já estavam encapsulados no centro da Terra e são apenas reanimados pelos seres extraterrestres. Como mortos-vivos que irrompem do chão em filmes baratos, eles são uma espécie de retorno do reprimido. A idéia de que o perigo resulta não de uma agressão absolutamente externa, mas de conteúdos e atitudes geradas no próprio território agredido não é estranha nem ao filme de Spielberg, nem ao imperialismo sob fogo.





# GUERRA DOS MUNDOS (WAR OF THE WORLDS)

EUA, 2005

Direção: STEVEN SPIELBERG

Roteiro: JOSH FRIEDMAN, DAVID KOEPP, baseado no romance de H.G.WELLS

Fotografia: JANUSZ KAMINSKI

Montagem: MICHAEL KAHN

Música: JOHN WILLIAMS

Desenho de produção: RICK CARTER

Elenco: TOM CRUISE, DAKOTA FANNING, JUSTIN CHATWIN, TIM ROBBINS

Duração: 116 minutos

Sites do filme: em português / oficial em inglês

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