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O RIO EM (DE)FORMAÇÃO

22.06.2016
Por Marcelo Janot
Como "Campo Grande" e o documentário "São Sebastião do Rio de Janeiro" dialogam em suas visões sobre a cidade.

É uma experiência interessante assistir, em sequência, ao documentário SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO – A FORMAÇÃO DE UMA CIDADE, de Juliana Carvalho, e ao longa de ficção CAMPO GRANDE, de Sandra Kogut. Permite que se estabeleça não só uma comparação entre dois modos de olhar a cidade como também é possível enxergar o Rio do segundo como uma espécie de consequência da cidade em formação vista no primeiro.

A diferença básica é que o documentário de Juliana em certos momentos parece uma ficção, enquanto a ficção de Sandra tem uma pegada bastante documental.

O enfoque político está praticamente ausente de “São Sebastião”, que se equilibra em uma por vezes incômoda neutralidade, ao contrário de “Geraldinos”, outro documentário recente que documenta um Rio em transformação – e nesse caso bem crítico a uma nova visão de cidade a partir do que foi feito com o Maracanã. Se a formação da cidade desde o tempo do descobrimento está bem documentada como aula de história, por outro lado o filme se esquiva de polêmicas ao chegar aos dias atuais, em que vemos uma cidade ainda em (re)formação.

A narração e os depoimentos de especialistas são quase sempre acompanhados por deslumbrantes tomadas áreas, sobrevoos que descortinam um Rio belo por natureza. Nas vezes em que a câmera chega ao chão, nunca vemos a miséria e a pobreza que o processo de gentrificação tenta empurrar para debaixo do tapete. Um exemplo claro disso está no trecho final do documentário, quando o texto que lamenta a poluição da Baía da Guanabara é acompanhado por imagens aéreas da Barra da Tijuca, do Piscinão de Ramos... mas não se vê nada de nossa outrora gloriosa e hoje putrefata baía. Um Rio maquiado para turistas? Coincidência ou não, o filme está sendo exibido com legendas em inglês, algo que eu nunca tinha visto no circuito comercial.

“Campo Grande” é o que resulta desse Rio de contrastes que o documentário evita abordar. A cidade, no filme de Sandra Kogut, enclausura os personagens em planos fechados, muitos na altura de seu protagonista mirim, que é abandonado pela mãe na porta de um edifício em Ipanema. De lá até Campo Grande, o que vemos da paisagem são tapumes de obras, caos urbano, barulho. Uma cidade em deformação, sem um futuro claro, assim como as vidas de seus moradores. Tantos os jovens pobres quanto a moradora de Ipanema que acolhe o menino estão, de uma maneira ou de outra, órfãos de um lar e sobretudo de afeto.

O olhar da cineasta sobre eles consegue ser piedoso sem ser melodramático. Há uma secura narrativa e um roteiro que se distancia dos clichês e da habitual divisão entre vítimas e vilões quando o assunto é a cidade partida. Tudo que pode parecer óbvio é mostrado de forma sutil, sem precisar ser reiterado por diálogos que vendem teses, um mal que ainda acomete parte do cinema nacional de temática social.

Houve uma campanha – louvável, por sinal – para que o filme fosse lançado em cinemas de Campo Grande, para que seus moradores pudessem ver na tela o bairro onde moram. Não sei se ficaram decepcionados. O que “Campo Grande” mostra de Campo Grande não é visível, nem material. É um estado de espírito que também está presente em Ipanema, na Barra ou na Pavuna: um Rio onde seus cidadãos-personagens não têm a sensação de pertencimento, nem sabem o futuro que se esconde por detrás daqueles tapumes carregados de simbolismo.

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Outros comentários
    4331
  • Solange Berman
    22.06.2016 às 04:30

    Aula de história é sua crítica. Social e humanista, parabéns!
    • 4332
    • Marcelo Janot
      22.06.2016 às 09:03

      muito obrigado, Solange.