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Babenco

HECTOR BABENCO (1946-2016)

15.07.2016
Por Luiz Fernando Gallego
Dez longas de ficção em 70 anos de vida: muito pouco para tanta paixão pelo Cinema.

O Rei da Noite, primeiro longa de ficção assinado pelo então quase desconhecido Hector Babenco bateu nas nossas telas como um corpo estranho em relação ao que se fazia no cinema brasileiro de 1975. Também foi o primeiro filme em que Marília Pera pôde mostrar que não era só uma atriz “de teatro”: apenas não tivera, até então, a oportunidade que teve aqui ao contracenar com Paulo José - o ator principal, quase todo o tempo em cena. Ela aparecia em poucas passagens, mas sua personagem, uma cantora paraguaia de tangos (que nem paraguaia era) propiciava à atriz o histrionismo que ela sabia usar tão bem ao cantar “Nostalgias”.

Seis anos depois Marília e Babenco arrebatariam plateias internacionais com Pixote – a lei do mais fraco trazendo uma das cenas mais contundentes de todos os tempos que, segundo o diretor, a atriz teria improvisado no momento da filmagem. Se o leitor conhece o filme sabe a que cena nos referimos. Se nunca o assistiu, o que está esperando?

Dizem que Pixote concluía uma espécie de “trilogia da marginalidade” tendo sido precedido por Lúcio Flávio – Passageiro da Agonia e O Rei da Noitee. Mas quando Babenco deixou de filmar personagens “marginais”? Também não eram estupidamente marginalizados os prisioneiros de O Beijo da Mulher Aranha, tanto por questões políticas em tempos de ditaduras sul-americanas como por questões morais? E os personagens vividos por Jack Nicholson e Meryl Streep em Ironweed equivaliam, no cenário americano da “grande depressão”, aos despossuídos de sempre na América Latina.

Que ambiente estaria mais à margem da dita “civilização” do que a Selva Amazônica dos índios e dos pretensiosos “missionários” empenhados em catequizar os nativos de Brincando nos campos do Senhor ? Os detentos do presídio Carandiru e sua tragédia como que “coroavam” a tribo de marginais que Babenco sempre focalizava em seus melhores filmes.

Se ele foi menos feliz em obras mais pessoais e autobiográficas - como no recente Meu Amigo Hindu – nunca deixou de mesclar sensibilidade (sem pieguice alguma) com uma contundência desassombrada - equação paradoxal que poucos cineastas conseguem dosar a contento.

Seu olhar chegou a ser afetuoso para com as porralouquices de sua juventude que ocupavam a maior parte de Coração Iluminado, infelizmente menos satisfatório em seu terço final. Mas enquanto Maria Luísa Mendonça estava em cena uma espécie de “milagre-Marília” se refazia. Um grande diretor de atores? Meryl Streep e Jack Nicholson foram indicados ao Oscar pelo “maldito” Ironweed, e William Hurt levou o seu por O Beijo da Mulher-Aranha (além do prêmio de melhor ator em Cannes) - mas nunca se fez justiça à participação de Raul Julia neste filme. E se Marília ou Maria Luísa não levaram Oscars ou palmas de interpretação, pior para a Academia ou para Cannes.

Há alguns anos, uma caixa da Europa Filmes trouxe em DVD todos os longas de ficção de Babenco entre O Rei da Noite e O Passado(2007), - exceto Ironweed apenas acessível em edição americana. Ao todo, dez longas de ficção em quatro décadas de trabalho e sete de vida: muito pouco para tanta paixão pelo Cinema e um olhar atento para com os miseráveis, marginais e esquecidos das grandes sociedades ocidentais. E pensar que O Rei da Noite foi criticado quando de seu lançamento por não atender ao caráter “político” que se exigia do melhor cinema nacional daqueles tempos...

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Outros comentários
    4370
  • Andre Borelli
    04.09.2016 às 17:27

    Salve Babenco!