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82 MINUTOS

25.08.2016
Por Dinara Guimarães
O resto é sambar, sambar, sambar.

“82 minutos”, de Nelson Hoineff, é uma expressão da cultura do brincar imortalizada pelas escolas de samba, começando com os bastidores da festa no espaço secreto do barracão onde ela se prepara, até a apoteose do desfile, com o objetivo de atiçar a memória do que realmente acontece. Nos passos do samba, apresenta contradições, glórias e fracassos, dividindo o musical recreativo dramático, com final infeliz, em três atos: olhar sem fantasia, ser olhado com fantasia, fazer-se olhar do julgamento.

O ato I, o olhar sem fantasia, desvenda o que está por trás da magia do carnaval, e que tem como preocupação central tornar o imaginário transparente ao trazer para dentro do campo cinematográfico o discurso off dos dirigentes da escola de samba, dos instrutores dos sambistas, já introduzindo no intertítulo que 82 minutos se trata da duração exata do desfile, em uma única noite, com um custo estimado de doze milhões de reais. Nele compreende primeiro, a escolha do samba-enredo que expresse o sentimento de amor dos integrantes pela escola de samba herdada de seus pais há décadas; depois, os preparativos e ensaios das alas, para que tudo se encaixe com as palavras da música e o ritmo do samba escolhido. Apesar do efeito de naturalidade na tradução direta da realidade, a montagem intervém para organizar a intenção narrativa de enfatizar a ordem disciplinar no sambar dos artesãos, dançarinos, coreógrafos, passistas, figurinistas, compositores, músicos. Com a apresentação das partes de um todo da escola não apresentado, essa etapa da filmagem é um movimento metonímico, de modo que o espectador fica atraído pela dialética do visto e não visto, entre o campo demarcado pela câmera e o exterior a ela que suscita o desejo de ver o que não se mostra. Isso que tem encantado os estudiosos das novas formas de organização da produção movida por interesse que não seja do lucro.

No ato II, o ser olhado com fantasia, a montagem corta, fragmenta, multiplica a ação da escola durante o desfile no nível de uma narração tradicional com imagens convencionais da força da bateria, dos corpos das passistas entre os outros componentes do todo sambando na mais completa imersão pela realização do amor à escola, o que implica em exibir-se à multidão e comissão julgadora. Sendo dirigido por um acirrado crítico das transmissões do desfile pela tevê, o filme só poderia mesmo ser dessa forma, e não de outra. Ele mostra o poder de fascinação que a escola exerce resultado do longo processo de preparação - no caso, da Portela em 2015 cujo enredo ImaginárioRIO, 450 janeiros de uma cidade surreal homenageava os 450 anos do Rio - onde tudo é encenado como o truque de um mágico para que seja perfeito e não se destrinche como foi feito, o que arruinaria a ilusão, manifestando-se, enfim, a organização a serviço do lúdico.

No ato III, o fazer-se olhar do julgamento consiste da apuração das notas na quarta-feira de cinzas para decisão da vencedora entre as escolas do primeiro grupo pelo tribunal dos jurados escolhidos pelo presidente da Liga Independente das Escolas de Samba, o Outro da lei. A espera de um julgamento justo, obtém em troca, um ato obsceno: torna público pelo intertítulo final, que a vencedora, a Beija-Flor de Ninópolis, fora patrocinada pelo ditador sanguinário da África, Teodoro Obiang, como manifestação do protesto ou resistência à utilização ideológica do samba para efeito de socialização política, por imposições musicais na política de eventos e atividades culturais. O resultado talvez fosse justo se não houvesse tantos reais? No próximo desfile a brincadeira se repete: boa apresentação, mas nada de vitória. O que resta é sambar, sambar, sambar... na versão autenticamente brasileira do espírito olímpico que acabamos de assistir.

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