Críticas


VLADO – 30 ANOS DEPOIS

De: JOÃO BATISTA DE ANDRADE
12.10.2005
Por Carlos Alberto Mattos
DÍVIDA SALDADA

Leia no final o comentário do diretor



A morte de Vladimir Herzog, exatos 30 anos atrás, calou fundo na consciência política brasileira e deixou uma marca na sensibilidade de João Batista de Andrade, seu amigo e parceiro de trabalho. Vlado e João atuaram juntos no revolucionário programa jornalístico A Hora da Notícia, na TV Cultura do início dos anos 1970. A quatro mãos, fizeram também um projeto de filme sobre Canudos e as pesquisas para o roteiro do longa Doramundo. Discordaram violentamente em muitas opções cinematográficas, mas comungavam das mesmas idéias políticas no âmbito do PCB e de uma grande amizade pessoal. Na sua autobiografia, Alguma Solidão e Muitas Histórias, escrita com Maria do Rosário Caetano para a Coleção Aplauso, João trata de Vlado como uma espécie de segundo personagem. E objeto de uma relação algo culposa:



“Eu, na verdade, nunca me recuperei do impacto dessa perda”, afirma. “Antes de sair de cena, antes de promover a tão controlada abertura, a ditadura quis ainda marcar sua presença entre nós, registrar sua força, sua irracionalidade, como uma espécie de aviso, assassinando brutalmente uma pessoa de vida aberta, absolutamente anti-clandestina, generosa, como se a mão do opressor buscasse justamente isso, para atingir a sociedade com o máximo do espanto e da dor. (...) Eu me sentia desarvorado, sem saber o que fazer. Eu que filmava tudo, por que não filmei nada naquele momento?”



Para saldar essa dívida, Andrade cogitou primeiro de fazer um filme de ficção em co-produção internacional com o ator austríaco Klaus Maria Brandauer no papel de Herzog. Mas, para não perder a chance de prestar um tributo à memória de Vlado nos 30 anos de sua morte, resolveu reunir os amigos e os que acompanharam a tragédia de perto num documentário simples, compacto e pessoal. Assim é Vlado – 30 Anos Depois.



João Batista de Andrade, atual Secretário de Cultura do Estado de São Paulo, tem sido um dos cineastas mais ativos ultimamente, embora Vlado seja o primeiro rebento dessa fase a ganhar lançamento regular. O veterano renovou-se através da tecnologia digital. Em Vlado, uma segunda câmera às vezes mostra-o conversando com o entrevistado de camerita em punho, tal qual um jovem documentarista amador. Essa nova intimidade com os meios ensejou que seus filmes ficassem mais diretamente pessoais. Não só em Vlado, mas também nos anteriores O Caso Matteucci e Vida de Artista, a presença do diretor no quadro e no áudio, como condutor de uma investigação ou de uma homenagem, é dado constitutivo dos filmes. A perspectiva pessoal é que orienta o sentido das conversas, ainda que a organização das imagens na edição possa assumir, como em Vlado, uma linha de exposição mais didática.



Andrade pediu a todos que falassem sobre Vlado sentados numa mesma cadeira de diretor, de tecido vermelho. Pode ter sido apenas uma simpatia sem maiores repercussões (já que a cadeira sequer aparece nas conversas), mas o procedimento lança uma boa impressão de despojamento e unidade, que vai impregnar a sucessão de testemunhos. E esses são da melhor qualidade. Da esposa Clarice Herzog ao empresário José Mindlin, passando pelos músicos João Bosco e Aldir Blanc, cerca de 30 pessoas falaram a Andrade. Jornalistas como Paulo Markun, Fernando Moraes, Mino Carta e Alberto Dines relembram a personalidade e a carreira de Herzog, assim como os fatos relacionados à sua prisão, tortura e morte. Colegas igualmente torturados relatam em detalhes as prisões/seqüestros e as sensações e horrores vividos no DOI-Codi paulista, inclusive a maneira como ouviam os gritos de Herzog nas mãos de seus carrascos. O cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e o rabino Henry Sobel recordam o grande culto ecumênico que se seguiu à morte de Vlado – e que reaparece entre as poucas mas preciosas imagens de arquivo inseridas no filme.



Através de Vlado, João Batista de Andrade não apenas cumpre um dever pessoal, como volta a professar sua indignação contra a intolerância da ditadura militar, combustível importante de sua carreira. O documentário puro e cru (“rascunhado”, como ele prefere chamar) é veículo adequado para esse tipo de compromisso. Andrade é avesso tanto às questões técnicas do cinema quanto a todo processo de estetização. Isso resulta num trabalho sincero e contundente, mas nem por isso imune aos perigos da distorção.



As conversas captadas com sua câmera digital enquadram o entrevistado tão de perto que distorcem a imagem do rosto. Da mesma forma, certas argumentações orais do diretor são no mínimo passíveis de discussão. Quando, por exemplo, com base num punhado de consultas populares feitas na rua, ele afirma que “os brasileiros não sabem nada sobre a ditadura”, é possível detectar aí uma generalização arriscada. Ou uma incorreção histórica quando atribui a ida de Vlado para a BBC de Londres, no início de 1963, a um certo pressentimento de dias duros para a liberdade política no Brasil - o que soa bastante improvável.





# VLADO – 30 ANOS DEPOIS

Brasil, 2005

Direção, roteiro e câmera: JOÃO BATISTA DE ANDRADE

Câmera adicional: FABIANO PIERRI, CARLOS EBERT, EDIS CRUZ

Edição: LANDA COSTA

Duração: 85 minutos



COMENTÁRIO DE JOÃO BATISTA DE ANDRADE



Fiquei feliz com o texto do Carlos.

O filme tem recebido bons textos.

É um filme de urgência, como muito de meu cinema e acho que já vitorioso: marcou, sem dúvida, as rememorações dos trinta anos da morte do Vlado.

E, como diz o Carlos, paguei uma dívida tanto minha a mim mesmo e ao Vlado e, por que não dizer, uma dívida também do cinema brasileiro com relação ao Vlado e ao período histórico relacionado.

Quanto ao final do texto do Carlos, queria fazer duas correções fundamentais:



1- Eu não digo que o povo nada sabe da ditadura ou do Vlado: digo que sabe pouco e às vezes quase nada e ainda lembro que aquilo era uma "pesquisa informal". Olha: em São Caetano, há uma escola com o nome VLADIMIR HERZOG. O repórter do jornal DIÁRIO DO GRANDE ABC foi para a porta da escola e repetiu minha experiência. Resultado: praticamente ninguém sabia nada a respeito de Vlado.



2- Vlado foi para Londres, percebendo os anos de dureza política DEPOIS DE 1964 e não antes, e é isso que eu digo no filme: ele se casou em fevereiro de 1964 e logo depois veio o golpe militar. Daí ele resolveu ir, com Fernando Pacheco Jordão, para Londres.



Creio que com essas correções, se relativiza crítica de que estou sempre sujeito a erros. Mas, de qualquer maneira, o Carlos tem razão: estou mesmo sujeito a erros, com o tipo de cinema que faço. Acho mesmo que é bom errar nos filmes. Tal como nós, os filmes também são falíveis, principalmente quando se dispõem a narrar fatos e a interpretá-los.

Sou grato a todos os que dedicaram tempo tanto para ver o filme quanto para analisá-lo.

Embora sofra, como sempre, diante de qualquer crítica, esse exercício de reflexão é fundamental para minha e para qualquer carreira de criador.



Muito obrigado

João Batista de Andrade

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