Críticas


MORRO DA CONCEIÇÃO…

De: CRISTIANA GRUMBACH
02.12.2005
Por Carlos Alberto Mattos
RIO DE MEMÓRIA

Uma comunidade espacialmente contida, uma aproximação despojada, fragmentos de conversas entremeados por intervalos “vazios” – assim Cristiana Grumbach nos apresenta o Morro da Conceição. O passado e o presente daquele enclave improvável de Rio antigo em pleno centro da cidade moderna nos chegam na palavra de seus moradores mais antigos. Estamos em pleno reinado do passado. Uns recordam-se dos bons tempos calmos de outrora, quando o bairro era dominado por famílias portuguesas e todo o Centro se espichava em sobrados, padarias e bares da malandragem. Outros exibem fotos familiares, cantam velhas canções, recitam rezas curativas. A morte é o futuro mais à mão, e em muita coisa esse filme se assemelha a O Fim e o Princípio, de Eduardo Coutinho.



Cristiana foi assistente de direção e pesquisadora de toda a fase recente da obra de Coutinho, que vai de Santo Forte a O Fim e o Princípio. Mais que uma influência, portanto, o que se nota em seu primeiro longa-metragem é um método de trabalho compartilhado. Filmes como Santo Forte e Edifício Master foram precedidos de pesquisa prévia em que Cristiana, entre outros, conversava com as pessoas que Coutinho depois iria abordar na filmagem decisiva. Havia, portanto, na origem de cada um desses trabalhos, um esboço de Morro da Conceição...: a conversa delicada e livre com pessoas comuns, em torno de assuntos do seu dia-a-dia e de sua memória de vida.



O bate-papo despretensioso com esses velhinhos volta e meia toca em filetes emocionais, deixando por um momento entrever laivos de solidão e tristeza dissimulados sob a aparência compenetrada dos que falam para a câmera. Um longo silêncio de Dona Maria Amélia, por exemplo, nos faz presenciar um mergulho profundo no poço da alma, regalo pouco comum mesmo em documentários desse tipo. Aqui e ali, o aparato de filmagem consegue ficar transparente, como quando Dona Iria cochicha sobre a família do marido ou Dona Duda confidencia sobre os bailes “da pesada” de sua juventude. Em meio à suposta trivialidade, ocorre até mesmo a confissão de um quase-crime.



Filhos adotivos, solteirões empedernidos, vaidosos pretéritos – um pequeno cortejo de vidas de outro tempo continua a pulsar a poucas dezenas de metros do burburinho do centro financeiro. Os logradouros têm nomes sonoros como Rua do Escorrega, Ladeira João Homem ou Rua do Jogo da Bola. Ali a Ave-Maria ainda escorre dos alto-falantes pelos paralelepípedos às seis da tarde. Morro da Conceição... é um singelo canto de despedida de um Rio de Janeiro que subsiste somente como memória.



# MORRO DA CONCEIÇÃO...

Brasil, 2005

Direção e roteiro: CRISTIANA GRUMBACH

Fotografia e câmera: JACQUES CHEUICHE

Pesquisa e assistência de direção: GERALDO PEREIRA

Produção: CRISTIANA GRUMBACH, RICARDO MEHEDFF

Produção executiva: LUIZ ALBERTO GENTILE

Som: IVANILDO JORGE DA SILVA, VALÉRIA FERRO

Montagem: RENATA BALDI

Duração: 85 minutos

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