Críticas


A CRIADA

De: PARK CHAN-WOOK
Com: KIM TAE-RI, MIN-HEE KIM, JUMG-WOO HA, JIN-WOOG JO.
11.01.2017
Por Hamilton Rosa Jr.
Park Chan-Wook extrapola os cacoetes numa intriga que dura absurdas duas horas e meia.

Park Chan-Wook é o mais barroco dos cineastas coreanos. A obsessão por criar um plano mais bonito do que outro artificializa os resultados. Quando tem um grande ator em cena, como em Old Boy, que traz Min-sik Choi (Eu vi o Diabo), há o contrabalanço. Mas nesse A Criada (Handmaiden, 2016) o esteta engole tudo, inclusive os atores. São todos lindos, sensuais e frios, até mesmo quando expõem suas taras.

Gostaríamos que, além do aparente brilho de uma encenação intoxicada pelo seu próprio virtuosismo, Park Chan-Wook surpreendesse com algo realmente inesperado. Mas não há nada de diferente que já não tenhamos visto em seus filmes anteriores. A forma como ele confina a ação, como ritualiza o cotidiano (ok, podemos pensar que isso faz parte do costume oriental, mas Chan-Wook se apoia no cerimonial como se fosse uma muleta). E tem mais, ele se acha "o" narrador. Suas tramas são repletas de idas e vindas, ênfases num simbolismo manjado, e, é claro, ele também se acha o mestre das reviravoltas. Torce e retorce uma história para esfregar na nossa cara como está tratando de um tema importante e complexo, quando, na verdade, o enredo é simples e cristalino. Isso agravou-se em sua filmografia a partir de Lady Vingança (2005). Park Chan-Wook quer nos convencer que a sua obra é difícil e "artística", quando na verdade os problemas são: 1) falta de contenção em seu exibicionismo estético, 2) dificuldade de síntese.

A Criada extrapola os cacoetes numa intriga que dura absurdas duas horas e meia. É um filme repetitivo e cansativo.

São dois universos confrontados aqui, um envolvendo uma camponesa chinesa (Kim Tae-ri) às voltas com um trapaceiro (Jung-woo Ha), e outra envolvendo uma jovem herdeira japonesa (Min-hee Kim) dominada pelo jogo de perversão de seu tutor (Jin-woong Jo). Esses dois mundos se entrelaçam quando a chinesa é contratada para trabalhar como criada na casa da milionária. Não demora para ambas perceberem que têm algo em comum. As duas são vítimas dos mandos e desmandos de seus opressores. A primeira, do trapaceiro, a segunda, do tutor. E é claro, no meio dessas descobertas aflora algo que, em princípio, elas não conseguem lidar, mas que gradativamente arde e pega fogo. As cenas de sexo entre as duas têm uma atmosfera sensorial que, felizmente, quebra o clima cerimonial.

Park Chan-Wook coloca os peões no jogo e embaralha as relações de confiança. Afinal, nenhum dos quatro são poços de virtude. O filme ganharia muito se a trama fosse menos calculada, se explorasse o humor e quebrasse as simetrias. Mas Chan-Wook, definitivamente, não vê graça num objeto quebrando a harmonia da cena. Tudo tem que ser minimamente certinho e bonito.

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Outros comentários
    4517
  • Dani
    27.02.2017 às 12:41

    Discordo completamente da crítica. Pra mim, esse é o melhor de Park desde Oldboy e o tempo durante a minha sessão passou voando; nem senti as quase duas horas e meia. Tudo no filme é brilhante, principalmente o roteiro pouco convencional e a direção. Além disso, o capricho do diretor ao criar os planos é uma coisa que só intensifica a qualidade das cenas, e, mesmo quando elas ficam "artificiais", é em favor da narrativa e de elementos próprios do estilo do cineasta que funcionam muito bem dentro de sua proposta. E dizer que os atores são todos "lindos, sensuais e frios" é um GRANDE exagero - pra não dizer bizarro. E sobre o humor, acho que o filme o explora de forma MUITO satisfatória, do início ao fim, deixando o filme mais leve e divertido em meio ao clima de tensão e suspense. Aliás, Tamako é coreana, não chinesa, como colocado acima em um dos parágrafos.
  • 4522
  • Hamilton Rosa Jr.
    09.03.2017 às 12:03

    Paixão é paixão, Danielle. E vejo que você gosta de grafar a sua com letras maiúsculas. Respeito seu embasamento, mas, desculpe, se penso de outra forma. Desde o primeiro filme da Trilogia da Vingança, dos quais se alinham Mr. Vingança, Old Boy e Lady Vingança, Park Chan-wook entrou numa de provar que é um mestre das intrigas mirabolantes e cheias de reviravoltas. Ele também nutre um gosto por vender um certo "exotismo" do cinema coreano, visto com bons olhos por uma parcela dos cinéfilos ocidentais. Na minha visão, Chan-Wook aprisionou seu cinema a essa fórmula, ao contrário de outros diretores coreanos que vêem mostrando uma obra mais representativa do que a dele. Falo de Bong Joon-Ho (de Mother, Memórias do Assassino e O Hospedeiro) e Hong-Jin Na (de O Caçador e O Lamento), dois diretores que me forçam sempre a rever meus próprios critérios. Veja bem, com isso não quero diminuir o valor do trabalho de Chan-Wook, um diretor tecnicamente habilidoso e que no passado mostrou fôlego para muito mais. Você, inclusive, pode não acreditar, mas torço para que ele saia desse círculo vicioso e faça algo do porte de "Zona de Risco", um de seus primeiros e mais provocantes trabalhos. Você também chama atenção para a personagem Tamako. Quem é Tamako? Você se refere a atriz coreana Min-hee Kim que faz uma personagem japonesa, Lady Hideko? Ou a coreana Tae-ri Kim, que vive a camponesa Sook-Hee que, se bem me lembro, é egressa de uma pequena vila chinesa? Como disse anteriormente, respeito seu ponto de vista e se quiser podemos continuar o debate. Conversar sobre cinema é sempre estimulante, rico e salutar.