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La La Land 3

LA LA LAND – SE ELA DANÇA EU CANTO

03.02.2017
Por Ricardo Soneto
Expert em Jazz, Ricardo Soneto propõe um diálogo entre os que veem LA LA LAND de modo descompromissado ou com antipatia.

LA LA LAND, o musical escrito e dirigido por Damien Chazelle, apresenta uma situação curiosa. Você pode gostar (logo é alguém que abraça a diversão, sem compromissos) ou se decepcionar (ou detestar; logo é um chato, um esnobe ou alguém sem coração. Um antipático). Alguém pode argumentar que isso é uma condição normal em qualquer apreciação da arte. Qual a diferença aqui?

Tempo.

Mais.

A passagem do tempo.

Está sendo um exercício de cinéfilos reconhecer a abertura do filme como uma referência ao “Arrivée Des Camionners”, que abre o encantador DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS (“Les Demoiselles De Rochefort”), de 1967. Uma homenagem ao colorido musical de Jacques Demy. Mais de cem figurantes, presos num típico engarrafamento de Los Angeles, explodem num número de dança na Rampa E-Z que leva à freeway 110. Alguns espectadores tem comparado o momento a um “flashmob”, o que dá, portanto, o direito da invenção da brincadeira grupal ao revolucionário Busby Berkeley, que ensinou como se filma um musical. A cena é composta de um virtuoso plano sequência com três imperceptíveis cortes. Um tour-de-force cinematográfico. O filme quer mostrar que pode (também no caso, literalmente) flexionar os músculos.

Eis que surge o antipático para lembrar alguns pontos. O filme de Demy também se propunha ser uma homenagem aos clássicos musicais americanos das décadas de trinta, quarenta e cinquenta. Período, não só do seu apogeu estético como das suas bilheterias fartas de sucesso. O musical no passado fornecia arte de primeira ao espectador e lucros formidáveis aos estúdios. Todos satisfeitos.

O gênero já estava decadente quando Demy decidiu prestar seu tributo. Para isso o diretor se cercou do melhor possível. Juntou sua musa de musicais, Catherine Deneuve, com a igualmente bela (e, pelo triste destino, trágica) irmã, Françoise Dorléac. Chamou o “oscarizado” George Chakiris, o explosivo Bernardo de AMOR, SUBLIME AMOR (“West Side Story”), de 1961. Cabe comentar, aqui, que a obra-prima filmada por Robert Wise representou o momento culminante de toda a evolução dos musicais. Um divisor de águas. Todos os excelentes filmes cantados (e não foram tantos) que se seguiram, CABARET, A NOVIÇA REBELDE (sintomaticamente, ganhadores do Oscar de melhor filme) e HAIR estavam livres para explorar seus formatos cinematográficos. Libertos dos palcos da Broadway, de onde alguns vieram.

Como os musicais de outrora contavam, também, com os melhores compositores da primeira metade do século XX (Gershwin, Irving Berlin, Cole Porter etc), era necessário que o diretor francês encontrasse um equivalente qualitativo. Tarefa difícil. Eis que surge o parceiro Michel Legrand. Resultado: não existia uma única música medíocre na trilha. Todas eram plenas do talento de “Le grand Legrand”. Num contraponto, as coreografias eram embaraçosas na simplicidade. Nenhum Michael Kidd ou Roland Petit seria emulado. Mas, como uma afirmação final de carinho, a presença de Gene Kelly. Uma bela fita decorando a cesta do tributo.

Voltando para 2017, o antipático olha para a tela e começa a entristecer. Comparada à do filme francês, a música de abertura (“Another Day of Sun”) é de uma mediocridade atroz. Toda uma esfuziante e trabalhosa sequência é acompanhada... por uma uma música insignificante...

E eis um ponto crucial, em que o antipático acerta: não se pode aplicar indulgência à LA LA LAND. A promessa do filme é “prestar tributo” ao mesmo tempo que “atualizar a visão” do gênero. Estamos falando de um filme aplaudido em festivais pelo mundo. Que faturou sete Globos de Ouro (um recorde). Possui um enorme número de indicações ao Oscar e, certamente, vai levar o principal da noite. Não adianta. É preciso comparar.

Encantado pelo lindo cartaz do filme (espalhado pela cidade), o antipático talvez não devesse ter esperado tanto. As expectativas eram altas.

Justin Hurwitz, Benj Pasek e Justin Paul fazem um score apenas… convencional. Nosso descompromissado surge em defesa do filme e aponta que nenhuma música é essencialmente ruim. O que é verdade. Mas o antipático está falando de um filme “musical”. As canções são o eixo central do gênero. Tudo gira em torno disso. Não se pode ser condescendente com um musical com músicas “razoáveis” ou “agradáveis”. O descompromissado defende “City of Stars”. O antipático cede. É realmente bonita. Só não salva o conjunto da obra. Pena.

Mas se tudo é apenas razoável (o antipático é implacável), qual a razão de todo esse afeto do mundo pelo filme? Boa pergunta. A resposta pode vir em partes. A primeira seria que Hollywood se adora (e seus satélites pelo planeta sentem o tremor desse amor egocêntrico). Quando O ARTISTA surgiu, em 2011, seu efeito foi semelhante. “Eis um formato (esse, o original) clássico do cinema”, apontaram. Um belo filme, sem dúvida. Levou um Oscar de presente. Algumas pessoas até se recordam dele hoje em dia. Outras não. Hollywood aprecia obras que lembrem para ela (e para o mundo) que já foi relevante, “artística” etc. Que ainda pode servir de púlpito, referência, digna de reverências etc.

Que a indústria cinematográfica de hoje seja sustentada por super-heróis, espaçonaves e filmes barulhentos (ou, insulto máximo, pela migração para a TV)... Infâmia... Difícil de aturar...

Num determinado momento, Sebastian, o pianista interpretado por Ryan Gosling toca uma sequência no piano. Repete o que teima em escutar na vitrola. Tem que soar igual. Sebastian é músico de “lounges”. Mas quer ser mais. Escuta-se Monk. Fotos de Bill Evans e John Coltrane percorrem o imaginário. Sebastian quer ser algo que se foi. O mundo não aceita seu passadismo. O jazz que ele busca virou uma paródia. Seu erro é achar que o jazz está morrendo, quando o que ele chama de “jazz” é apenas uma das suas escolas: o “Hard Bop”. Estilo que, graças ao academicismo dos “Young Lions” liderados por Wynton Marsalis, se tornou o que o ouvinte normal convencionou, hoje em dia, chamar de jazz. Sebastian explica que tudo é uma linguagem desenvolvida por quem não podia se comunicar em guetos. Que Sidney Bechet ameaçava matar por uma nota tocada (o que certamente foi o motivo dele ter se tornado o maior sax soprano da história. Fica implícito? Tomara que não!).

Mia, a jovem atriz dotada da beleza de Emma Stone, interrompe a aula e pergunta: “E Kenny G?”. Sebastian desconversa. Mas Kenny G, ame ou não, É jazz. “Quem diz que detesta o jazz, não conhece o jazz!” Não necessariamente, Sebastian. É possível se conhecer jazz e não se gostar. O jazz é uma nascente que alimenta diversos estilos. Não é obrigação se gostar de todos. Mas Sebastian busca um “jazz de raiz”. O fato de, contra a sua vontade, ele servir de músico para o amigo cantor bem sucedido, fere seu orgulho e sua certeza absoluta de uma qualidade que precisa ser salva e preservada. O amigo declara que “é preciso levar o jazz para os jovens!”; ou “Os músicos que você ama eram revolucionários!” (leia-se: você não é!). “Você não pode viver no passado!” Tantas certezas para, mais adiante, ele mostrar que é mesmo um farsante. Um malandro que se “auto sofistica” chamando de jazz o que está cantando. E o que canta pode ser chamado de qualquer coisa. Menos jazz. Mas ainda assim o cínico explica: “Jazz é o sobre o futuro.” Tem absoluta razão. Mas enquanto esse bandido já o assassinou, Sebastian tenta mantê-lo vivo com massagens cardíacas. E ninguém pergunta ao jazz o que ele quer.

Nesse ponto, é necessário comparar Chazelle com Chazelle. Seu brilhante WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO, aprofunda essa discussão. O jovem baterista escorre sangue para se tornar tão magnífico quanto Buddy Rich. Para isso se submete a opressão do seu professor de música (que por sua vez deve ter tido aulas com o sargento de A FORÇA DO DESTINO) (An Officer and a Gentleman, 1982). O filme não trata de perfeição. Trata de bullying. De uma mentira transformada em transcendência. De uma paródia de esforço travestida de violência. O passado surge como feitor. Não inspira. Destrói fingindo construir. WHIPLASH é um filme formidável. O descompromissado concorda dessa vez.

“O jazz só existe ao vivo”, Sebastian explica para Mia. Pode ser. Mas porque ele soa mais vibrante e verdadeiro em discos gravados há sessenta anos ? Talvez porque um dos aspectos fundamentais do jazz é a busca da revolução. Do futuro. O jazz de Sebastian é agradável. Mas... convencional... Sebastian quer apenas um “lounge” mais sofisticado para recriar e recrear.

O antipático afirma: Esse é o mesmo problema do musical de Chazelle. Não acrescenta ao gênero. Apenas se diverte com ele.

O descompromissado pergunta qual o problema disso. Usar o jazz como pedra de toque para desancar o filme é necessário? Infelizmente sim. O jazz não está sendo preservado em LA LA LAND. Está sendo exumado.

Chazelle se aproxima do musical como um resgate para recriar e recrear. Um filme precisa tatuar por inteiro sua heroína. Ninguém reclama quando, numa sala de projeção, Mia fica na frente da tela procurando Sebastian inundada pela luz do projetor. É ali que ela deve estar. A expressão máxima do 3-D. O momento é bonito. Vão existir outros. Danças oníricas entre as estrelas. Desengonçados e sublimes balés. Solilóquios musicados. O descompromissado tem razão em apreciar todos. Ele talvez se irrite com a falta de músicas no terceiro ato. Tudo fica “sério”. O antipático aproveita a deixa para dizer que será o ato semelhante a um seriado dramático do Netflix. Excesso desnecessário de maldade.

Mas o descompromissado contra-ataca. E sua carta é forte: Mia. A melhor coisa de LA LA LAND. Mia traz algo insuspeitado para um musical. Realidade. Seu objetivo é se libertar, não da mediocridade, mas dos sonhos que não se realizam. Sua direção parece a mesma de Sebastian, mas seu veículo é outro. Não existem vacas sagradas. Existem memórias afetivas. Existem incansáveis tentativas. Um campo de batalha em si mesma. Perseverar. Um passo para a frente. Dois para trás.

Mia quer atuar. Escrever peças. Seus sonhos se projetam na direção do futuro. Ela não olha pelo retrovisor.

Um paradoxo proposto por Chazelle. O pianista, que está preso ao passado de um gênero que se projetava no futuro, ama a atriz que quer se lançar ao futuro. O amor é correspondido. Vetores opostos. Yin e Yang. Dia e noite. Luz e sombra. Ela se fascina com a paixão dele pela música que ama. Ele a estimula a sonhar. O descompromissado sorri.

Temos estabelecida uma tensão (não apenas sexual). O final faz todo o sentido e a sequência musical de encerramento poderia ser encarada como um ato de desespero. (Sim. O antipático retornou.) Uma nova exumação fantasiada de homenagem. Sonhar não basta. É preciso descer das estrelas e tocar o chão.

O descompromissado espera que o antipático admita que o final é bom. A contragosto, o antipático concorda.

Talvez o erro seja encarar LA LA LAND como um musical no sentido clássico. É provável que Godard se sentisse mais à vontade com ele e fornecesse mais consistência. Mas isso está no reino das suposições. O fato é que temos um filme que vem arrebatando plateias. A explicação final do motivo pode ser porque um mundo sufocante precisa de um filme que sugira aos espectadores que saiam cantando e dançando pelas ruas. Alguma alegria desesperada é necessária. Ratos presos no meio do engarrafamento esperando o gato do tempo. O agridoce vai ter que bastar. Afinal estamos encurralados num terceiro ato sem canções.

LA LA LAND é como o carnaval. É brincar enquanto dura. Depois, é deixar cair o pesado martelo da realidade.

Ainda existiriam outras considerações. Mas o antipático vê o descompromissado sair cantando e dançando extasiado. Suspira. É deixar para lá. Estragar a alegria dos outros? Qual o sentido? No fim, talvez o descompromisso seja a atitude correta. Melhor então é se refastelar numa poltrona aconchegante e deixar a mente singrar na beleza de Emma Stone projetada na tela. Afinal de contas, até os antipáticos são capazes de sonhar. Them there eyes...

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