Críticas


EU NÃO SOU SEU NEGRO

De: RAOUL PECK
16.02.2017
Por Marcelo Janot
É a visão de mundo de Baldwin, a construção de sua própria identidade, que domina a narrativa de maneira envolvente e fascinante

Se a Academia de Hollywood precisava reagir às críticas sofridas pela ausência de negritude no Oscar do ano passado, a melhor resposta foi a lista dos indicados a melhor documentário esse ano. Juntos, “O.J.: Made in America”, “A 13a Emenda” e “Eu não sou seu negro” compõem um extraordinário painel de uma sociedade cheia de contradições, em que o racismo ainda é uma ferida aberta e purulenta. Os três são excelentes, e o mais original, seja como cinema ou na sua abordagem do tema, é “Eu não sou seu negro”, de Raoul Peck.

O documentário tem como principal fio condutor os manuscritos de um livro inacabado que o escritor James Baldwin (1924-1987) concebeu em 1979 sobre seus amigos Malcolm X, Martin Luther King e Medgar Evers, líderes da luta pelos direitos civis dos negros e que morreram assassinados antes dos 40 anos. É a voz contida e irreconhecível da narração de Samuel L. Jackson que assume a fala de Baldwin em tom quase poético, intercalada com imagens de entrevistas e depoimentos do escritor e dos outros ativistas.

A atuação dos três líderes era o pretexto do livro e aparece no filme, com direito a um debate televisivo em que X e King trocam farpas e deixam claras as diferenças entre eles. Mas é a visão de mundo de Baldwin, a construção de sua própria identidade, que domina a narrativa de maneira envolvente e fascinante. O escritor desmonta, uma a uma, as teses que tentam minimizar o preconceito racial. O cinema, que foi tema de um de seus livros, está presente o tempo todo, como no inconformismo demonstrado por Baldwin ao perceber, ainda criança, que o papel reservado aos negros na sociedade americana era equivalente ao dos índios nos faroestes estrelados por John Wayne.

O que mais assusta em “Eu não sou seu negro” é constatar como o que Baldwin disse há 40, 50 anos reflete o que são os Estados Unidos de hoje. Nisso a edição do filme tem papel fundamental, ilustrando ou intercalando o discurso com imagens atuais que mostram que quase nada mudou – e só tende a piorar.



Publicado originalmente em O Globo de 16.02.2017

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