Críticas

la vinganca

LA VINGANÇA

De: FERNANDO FRAIHA
Com: FELIPE ROCHA, DANIEL FURLAN, LEANDRA LEAL
17.03.2017
Por Marcelo Janot
Oferece frescor dentro do atual panorama de comédias nacionais, sem menosprezar a inteligência do espectador.

No momento em que cria coragem para pedir sua namorada em casamento, o dublê de cinema fracassado Caco (Felipe Rocha) flagra a moça traindo-o com o patrão, um renomado chef de cozinha argentino. No intuito de ajudá-lo a superar a tristeza, seu colega Vadão (Daniel Furlan) o leva até a Argentina a bordo de um velho Opala amarelo para se vingarem dessa humilhação suprema que é ver um brasileiro sendo corneado por um argentino (e que ainda por cima usa mullets!).

“La vingança”, coprodução Brasil/Argentina dirigida pelo estreante Fernando Fraiha a partir de uma ideia do codiretor Jiddu Pinheiro, concentra seu humor, portanto, na eterna e folclórica rivalidade com o país hermano. Ao longo do filme, são muitas as piadas falando de Maradona X Pelé e debochando das diferenças linguísticas e culturais. Um tema não muito original, que tinha tudo pra dar errado, mas dá certo por vários motivos.

Ele oferece frescor dentro do atual panorama de comédias nacionais. “La Vingança” não é repetição, na tela grande, de programas humorísticos de sucesso na TV ou na internet. Tampouco é veículo pensado unicamente para a explorar a popularidade de algum astro da comédia. E, por mais que tenha os indefectíveis clichês românticos que parecem imposição do mercado para filmes que almejam sucesso, eles são poucos e não chegam a atrapalhar o bom ritmo da narrativa.

Não há muita originalidade no estereótipo da dupla de amigos formada por um “loser” sensível e seu amigo amalucado, que se comporta como um eterno adolescente machista. Mas Felipe Rocha e Daniel Furlan se complementam à perfeição. A melancolia do primeiro, que usa muito bem os olhares e silêncios, contrasta com a metralhadora giratória verbal do segundo. “La Vingança” consegue arrancar gargalhadas com piadas de corno e Viagra sobretudo porque, ao contrário de muitas comédias escrachadas que seguem uma fórmula de sucesso, não menospreza a inteligência e o bom gosto do espectador tratando-o como idiota.

Tecnicamente, o filme também faz bom uso da linguagem cinematográfica. A excelente trilha sonora original de Plinio Profeta se vale do tema da vingança para fazer referencia às trilhas de faroeste de Ennio Morricone. A edição de Danilo Lemos não fica refém de cacoetes moderninhos, e a fotografia de Gustavo Habda e Felipe Reinheimer explora bem as paisagens argentinas.



(publicado originalmente em O Globo de 16.03.2017)

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