Críticas

Fragmentado

FRAGMENTADO

De: M. NIGHT SHYAMALAN
Com: JAMES McAVOY, BETTY BUCKLEY, ANYA TAYLOR-JOY.
24.03.2017
Por Luiz Fernando Gallego
Enredos de suspense/terror baseados em personalidades múltiplas são recurso fácil em bons, mas principalmente, em maus filmes.

Escrever um enredo de suspense/terror baseado em personalidades múltiplas é um recurso fácil e banalizado pelo cinema em bons, mas principalmente em maus filmes. Quando as coisas eram mais modestas, para um Hitchccock bastavam as duas personalidades de Norman Bates. E se a “explicação” final de um psiquiatra não era (e não é) a melhor coisa do filme, não prejudica a aula de cinema que é Psicose, podendo ser visto e revisto mesmo que se saiba tudo o que vai acontecer: sempre podemos usufruir dessa obra-mestra. Pena é quando se detecta suas influências ou referências em filmes incomparavelmente menores... Como é o caso deste Fragmentado : a lembrança do grande filme acaba depondo contra o resultado do filme menor...

Hoje rebatizado como “Transtorno Dissociativo de Identidade”, o fenômeno das "personalidades múltiplas" serve mais a filmes americanos do que a qualquer realidade psiquiátrica. Posso estar enganado, mas acho que esse transtorno não faz parte da casuística brasileira ou de qualquer outro país que não seja o americano do norte. Passou a ganhar força no cinema a partir de As Três faces de Eva (1957) que deu um Oscar a Joanne Woodward e que teria sido baseado num caso médico real. Depois de algum tempo a real “Eva” disse que não tinha apenas três, mas 26 personalidades alternativas, o que pode talvez ter inspirado este filme onde James McAvoy apresenta 23 personalidades, com uma vigésima-quarta podendo emergir a qualquer momento. Um veículo para o ator? Talvez, mas certamente um veículo para o diretor cheio de truques Night Shyamalan voltar a cortejar os fãs com sua competência artesanal ao narrar historietas bizarras que seduzem uma boa parte do público e da crítica, talvez pelo insólito procurado que acaba sendo a própria bizarrice. Mesmo em seus momentos menos defensáveis e até mesmo ridículos (A Vila, A Dama da água, Fim dos Tempos) o diretor teve quem o defendesse com super-interpretações para tais incursões pseudo-espertinhas.

Com um bom elenco, certa habilidade formal, sustos programados e alguma dose de sadismo no enredo e sofrimento de parte dos personagens, ele voltou a ganhar espaço em seus dois últimos filmes, vendo realimentada sua pretensão de grande cineasta. Chegou a dizer que este filme seria o segundo de uma trilogia começada há 17 anos atrás com Corpo Fechado, mencionando a “Trilogias da Cores” de Kieslovski como referência. Deve ter bebido todas.

Quanto a McAvoy que vem sendo bastante louvado por sua(s) interpretação(ões) em algumas das vinte-e-tantas personalidades de seu(s) personagem(ns), cabe assinalar que seu desempenho não deixa de lado um bom grau de histrionismo e até mesmo um tanto de cabotinismo (deve ter sido contagiado pelo Shyamalan), ainda que em outros momentos tenha conseguido o tour-de-force de mudar de uma personalidade para outra ao longo da mesma tomada. O ator vem procurando mesmo papéis esdrúxulos como em Filth (2013) que nem foi lançado no Brasil. A participação da veterana Betty Buckley no ingrato papel da psiquiatra merece ser mencionada: ela funciona bem como “escada” para McAvoy, assim como faz a jovem e expressiva Anya Taylor-Joy.

Abusos traumáticos na infância acabam sendo usados (e abusados) como "explicação" para qualquer perturbação na vida adulta, seja qual perturbação for. Um tema da maior gravidade usado como "justificativa" para mais um roteiro terrorífico requentado.

O pior é que o desfecho ficou com toda a cara de que pode haver uma continuação...

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Outros comentários
    4542
  • Allard Amaral
    25.04.2017 às 17:30

    "Fragmentado" é um filme de suspense, com doses de pavor e medo. Após o rapto de três adolescentes a história se desenvolve com o personagem Dennis atacando de 24 personalidades, 3 predominantes. Aguça o interesse, mas não ganha totalmente o espectador. Vale como curiosidade ! Saudades de "O Sexto Sentido" de Shyamalan !