Críticas

crisis in six scenes

CRISIS IN SIX SCENES

De: WOODY ALLEN
Com: WOODY ALLEN, ELAINE MAY, MILEY CIRUS
17.04.2017
Por Marcelo Janot
É irresistível ver Woody Allen em cena com os seus característicos trejeitos, suas neuroses, suas tiradas ácidas

Woody Allen diz não ter gostado muito da experiência de dirigir uma série pra TV, mas CRISIS IN SIX SCENES (disponível na Amazon Prime) não é exatamente uma série. Na verdade, trata-se de um longa metragem de 2 horas que é interrompido a cada 20 minutos. Não se pode nem dizer que sejam seis “episódios”, pois a história apenas é retomada no capítulo seguinte, sem nenhum tipo de distinção temática entre eles.

Não há problema algum nisso, especialmente para os fãs de Woody Allen ávidos por vê-lo atuando em uma produção escrita e dirigida por ele, algo que não acontecia desde o papel pequeno que interpretou no decepcionante “Para Roma Com Amor” (2012). Se formos pensar em termos de protagonismo, adicione mais uma década até “Dirigindo no Escuro” (2002).

Portanto, independentemente das ressalvas que se possa fazer a “Crisis in Six Scenes”, é irresistível ver Woody Allen em cena com os seus característicos trejeitos, suas neuroses, suas tiradas ácidas – com direito até a uma divertida cena de perseguição em que o octogenário Allen pula do alto de um prédio a outro.

Talvez o mais difícil para Allen nesse formato de série seja sustentar a história por duas horas. Fica nítido que, caso se tratasse de um longa-metragem mais curto, como os que costuma fazer, o resultado seria bem melhor. Isto se nota especialmente quando ele não está em cena. A popstar Miley Cirus é uma caricatura de ativista política do fim dos anos 60, uma patricinha fantasiada de Joan Baez que discursa por intermináveis minutos sobre a luta armada, o capitalismo opressor e o sonho de viver em Cuba. Era pra ser engraçado, mas ela não demonstra vocação para a comédia. Nem um grande diretor de atrizes como Woody Allen, cujos filmes já levaram seis Oscar por interpretações femininas, dá jeito nesse caso.

Há diversos momentos de longos diálogos pouco inspirados, que só se sustentam quando Allen está em cena, muito em função de sua persona cômica. Ele alcança uma boa química com a veterana Elaine May, sua mulher no filme, que interpreta uma terapeuta de casais e ainda coordena um grupo de leitura de doces velhinhas que passam a se interessar pela obra de Karl Marx e Mao Tsé-Tung.

No fim das contas, “Crisis in Six Scenes” serve para mostrar que, aos 81 anos, ainda em boa forma, Woody Allen poderia protagonizar os filmes escritos e dirigidos por ele, trazendo de volta o judeu nova-iorquino, neurótico, hipocondríaco, o intelectual em crise criativa que há cinco décadas não cansamos de ver em cena.

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