Críticas


MUNDO DE JACK E ROSE, O

De: REBECCA MILLER
Com: DANIEL DAY-LEWIS, CAMILLA BELLE, CATHERINE KEENER
07.04.2006
Por Carlos Alberto Mattos
O RÉQUIEM DE UM UTOPIA

A princípio, o espectador de O Mundo de Jack e Rose não tem do que reclamar. Diversos plots e subplots disputam sua atenção, como candidatas a modelo num desfile de subúrbio. Temos a paixão recíproca entre um pai e uma filha, reprimida apenas pelo interdito do incesto. Paralelamente, testemunhamos o despertar sexual da mocinha, em contexto semelhante ao de A Ostra e o Vento, de Walter Lima Jr. Temos também a defesa veemente de uma utopia à Thoreau contra a especulação imobiliária numa ilha de terreno pantanoso, na costa leste americana. E ainda uma visão amarga de novas configurações familiares, um adeus à contracultura em meados da década de 1980, uma cobra perigosíssima, baladas de Bob Dylan...



O novo ensaio comportamental de Rebecca Miller (O Tempo de Cada Um) faz o que pode para conciliar essas tramas no retrato de uma cultura em transformação. Jack (Daniel Day-Lewis) é uma relíquia do sonho das comunidades alternativas pós-hippies. Rose (Camilla Belle) é o produto vivo daquela experiência – moça cuja admiração pelo pai reflete uma adesão irrefletida a utopias passadas. Na casa deles, não há lugar para confortos burgueses como televisão e empregada. Por sua vez, Kathleen (Catherine Keener), a namorada que se muda com os dois filhos para a casa de Jack, leva consigo o modelo disfuncional que coloca as afetividades em segundo plano, em nome de uma mítica liberdade individual. Para complicar um pouco essas representações um tanto monolíticas, há o fator dinheiro. Jack tem saldo gordo no banco e, apesar de suas convicções idealistas, acha que pode comprar emoções e destinos alheios.



Filha do dramaturgo Arthur Miller, a diretora e roteirista reafirma o talento para criar personagens sugestivos, recheados de ambigüidades, mas fica devendo na hora de desenvolvê-los. Em O Mundo de Jack e Rose há atitudes ameaçadoras e até um estupro que praticamente não repercutem na trama. Muitas falas soam inadequadas ao perfil de quem as diz, como é o caso da preleção de Rose antes da projeção dos filmes familiares. Até que o último ato recupere as linhas dramáticas principais, um emaranhado de episódios secundários já roubou um bocado de densidade ao filme. Por momentos, ficamos diante de mais uma coleção de clichês do “independente”, redimida em parte pela qualidade do elenco.



Camilla Belle, filha de mãe brasileira e pai americano, tem um rosto que faz jus ao nome e emana um misto de inocência ansiosa e sensualidade expectante. Catherine Keener, musa máxima do indie, redesenha seus traços “comuns” em calorosa banalidade interiorana. Mas quem magnetiza mesmo o público é o incomparável Daniel Day-Lewis. Seu processo de fragilização física ao longo do filme é impressionante – e nos faz perceber melhor a dolorosa tomada de consciência de Jack em relação a sua própria defasagem. Este é apenas o segundo trabalho de Day-Lewis desde 1997 (o outro foi Gangues de Nova York), marca de um ator que prefere manter-se à distância do sistema hollywoodiano. Em sua casa nas montanhas irlandesas, Rebecca Miller deve ter pensado nisso ao escrever o papel para o marido: Jack e Daniel têm mais em comum do que o amor pela vida no campo.





# O MUNDO DE JACK E ROSE (THE BALLAD OF JACK AND ROSE)

EUA, 2005

Direção e roteiro: REBECCA MILLER

Fotografia: ELLEN KURAS

Montagem: SABINE HOFFMANN

Música original: MICHAEL ROHATYN

Elenco: DANIEL DAY-LEWIS, CAMILLA BELLE, CATHERINE KEENER, RYAN MCDONALD, PAUL DANO, BEAU BRIDGES

Duração: 112 minutos

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