Críticas


DIVINAS DIVAS

De: LEANDRA LEAL
20.07.2017
Por Marcia Vitari
Leandra Leal filmou com delicadeza pouco vista desde os filmes de Eduardo Coutinho.

Quando o Teatro de Revista e suas vedetes entram em decadência, os shows de travestis no Teatro Rival - que é pioneiro no teatro de variedades no Brasil da década de 60 - ganham fôlego. E para comemorar os 70 anos do espaço, é montado o espetáculo “Divinas Divas”, que celebra 50 anos de carreira das atrizes Rogéria, Valéria, Jane Di Castro, Camille K, Fujika de Holliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios. E é nos ensaios para o espetáculo que começa o trabalho de registro da atriz agora diretora Leandra Leal, que faz um tributo ao avô Leandro Leal, que criou esta efervescente casa noturna. A nossa CBGB local, tendo a mesma atmosfera underground que havia na época da casa novaiorquina. Quando pela Cinelândia pululavam pessoas entre seus cinemas, bares e clubes.

Assim, Leandra, sem gritos mas no diapasão sussurros, vai desfiando sua urdidura de memórias e afetos. Desde o início das filmagens ela já havia decidido como seria o primeiro e o último take, mas não predeterminou o caminho que deixou ser afetado pelas contingências ao longo do percurso. Filmava quando dava, quando tinha um intervalo entre uma gravação e outra de novela ou filme. Tudo num ritmo decantado, já que ali estava diante do que considera sua família estendida. Leal aos instintos dos afetos sensíveis, apresenta o amor como algo revolucionário. Através do olhar de divas que nunca lhe foram estranhas por terem suas vidas interligadas desde a infância. Onde viveu as passagens mais fortes na tenra idade: nos bastidores, à beira do palco.

Diferente do universo competitivo que vislumbramos com frequência nas relações artísticas, o que vemos ali são oito artistas que se ajudam e se protegem. Tanto que uma foi levando a outra para se apresentar em Paris. Jane levou Eloína, que levou Rogéria, que chamou Valéria. Camille por muito tempo cuidou de pessoas com Aids. Marquesa tinha um conjugado na Glória que chegou a abrigar 20 pessoas. Solidárias, sabem a força e necessidade de manter alianças. Jane esperou a nova legislação para casar no civil com Otávio, um homem sensível que chora durante as gravações e não tem vergonha de camuflar seu afeto pela companheira de quatro décadas. Fabrício tem um olhar deslumbrado por Camille. Todas parecem conciliadas com a própria natureza e não mediram esforços pela arte e dor na transformação física. Tanto que se submetem como cobaias injetando hormônios, vendo algumas de suas amigas morrerem por um risco que, então, ainda não imaginado.

A diretora tem como ponto de partida uma observação wisemaniana. Mas, diferente do trabalho que encontramos no filme Crazy Horse, de Frederick Wiseman, no qual ele transita por um dos cabarés mais famosos do mundo com distância e desencanto. A atriz Leandra Leal - que sempre quis fazer coisas em que esteja comprometida até o fim e com a sensação de que saiu com a potência máxima do momento -, filmou por dez anos. Depois de levar seis meses decupando 400 horas de material e a um mês do lançamento, quando já estava com corte fechado, mixagem, corrigido, cor certa, decidiu inserir seu depoimento em off. Percebeu que também deveria se expor como os personagens contando sua história pessoal e envolvimento naquele projeto que, mais do que ficção – sua ideia original -, deveria ser um documentário sobre o que é ser atriz, ser dona de teatro. Pois, como dizia sua mãe, a também atriz Ângela Leal: “é mais que herança, é uma missão”.

Assuntos delicados e pouco comuns são abordados. Tanto que teve dificuldade para conseguir financiamento. Questões de gênero e velhice não são vendáveis numa sociedade que enaltece a juventude. Mas, mesmo sendo o primeiro trabalho em direção da atriz, ela soube montar uma equipe competente, tanto que já angariou diversos prêmios em festivais e mostras. Vale ressaltar o desenho sonoro feito por Vinícius Leal e Jesse Marmo, a trilha pertinente do Plínio Profeta e a captação direta do Felippe Schultz Mussel que garantiu o registro de conversas trocadas ao léu e que permitiram enfocar o aspecto intimista da obra.

É um filme de fã. A câmera está na coxia como um voyeur que se faz invisível. A intimidade diante de um universo que circulou desde criança - onde ficava no camarim enquanto a mãe atuava no palco -, lhe permite captar de forma natural falas e sentimentos com delicadeza pouco vista desde os filmes do Eduardo Coutinho. São reflexões sobre o envelhecer com dignidade, um mosaico geracional que dá conta de um discurso político de um Brasil que na época atravessava uma ditadura. Com sua costumeira abordagem direta, Rogéria fala que seus shows representavam uma espécie de respiro num momento tão combalido. A mesma função que o filme pode exercer no momento atual. Com romantismo, para elas o palco e a arte valem qualquer sacrifício. Elas se colocam num lugar que é inabalável: o de Diva como possibilidade de sobrevivência. São Divinas.

Marcia Vitari é jornalista, mestre em comunicação e cultura e tem contos incluídos nas antologias do Clube da Leitura, volumes I e II



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Outros comentários
    4587
  • Leonardo Tepedino
    21.07.2017 às 06:54

    Belo texto sobre uma linda e singular história, em vários momentos fiquei extremamente emocionado, imaginando. Quero ver o filme! Parabéns!
  • 4588
  • Guilherme Pereira
    21.07.2017 às 07:21

    Uau, não sabia que ela tinha filmado por dez anos. Verei neste fim de semana!
  • 4591
  • Rose Esquenazi
    26.07.2017 às 10:28

    Ótima e sensível crítica de Marcia Vitari. Deu mais vontade de assistir ao filme de Leandra Leal.
  • 4593
  • Marta
    01.08.2017 às 16:00

    Ótima crítica, Márcia. Quero muito ver o filme. Pena que filme brasileiro fique tão pouco tempo em cartaz!
  • 4595
  • Manoela
    02.08.2017 às 06:03

    Marcia, eu ontem li seu texto e quando saí do trabalho fui direto ao cinema. Obrigada por me apresentar, de modo encantador, um filme tão sensível e emocionante!
  • 4597
  • Allard Amaral
    02.08.2017 às 11:59

    "Divinas Divas" Tudo é um grande espetáculo de homens travestidos de mulheres, fazendo o que elas mais gostam: arte. A história dos mais famosos travestis do país, em todas as suas nuances. Os depoimentos são sinceros e emotivos, os números musicais são irreverentes e glamorosos. A direção de Leandra Leal nos leva a compactuar com as trajetórias dessas mulheres, ou seja, feito mulheres. Homossexuais sim, mas gente de carne e osso, com dilemas e desejos, problemas e sucessos !
  • 4599
  • Regina Miranda
    02.08.2017 às 13:07

    Que texto agudo e sensivel de Marcia! Você apresenta, critica, compactua e desperta o desejo de se ver o filme da Leandra Leal. Bela função da crítica, ainda mais nesse nosso momento de resistência artística. Parabéns às duas
  • 4602
  • Rachel Aisengart Menezes
    03.08.2017 às 12:27

    Concordo plenamente com os comentários de Marcia Vitari: Divinas divas é um filme esplêndido, realização de grande sensibilidade, emocionante, obra com humor, mobilizante. Para além dos talentos, é filme que informa dados históricos pouco conhecidos, como a saída das divas para o exterior no período da ditadura. Leandra Leal: parabéns!
  • 4603
  • Leila Ripoll
    04.08.2017 às 05:15

    Lindo texto, Márcia! Uma crítica sensível e acurada que faz jus ao filme e nos convoca a assisti-lo. Nesses tempos tão difíceis precisamos nos alimentar do pensamento livre, que não se intimida e anda a contrapelo. Parabéns!!!
  • 4604
  • kariane Pontes
    04.08.2017 às 07:24

    Nossa dez anos de gravações!! Maravilhoso quando a arte tem papel social. Tenho um respeito imenso por travestis, pessoas super corajosas que enfrentam tudo/todos para serem livres!! Longa vida Divinas Divas!! Parabéns Leandra Leal!! Crítica completíssima Marcia Vitari!! Verei o filme em breve! Sucesso!
  • 4606
  • Vivian Cerqueira
    07.08.2017 às 13:01

    Adoro o seu jeito de escrever, descrever os fatos, viagens e principalmente suas críticas. Com seus textos e conversas que temos, dá sempre vontade de ler o livro indicado, as obras, os lugares, as peças, os filmes, as musicas... Assistirei o filme !
  • 4608
  • Sandra Felzen
    09.08.2017 às 19:29

    Crítica sensível e tocante sobre um filme igualmente sensível, delicado, intenso e extremamente humano. Parabéns Leandra Leal e obrigada Marcia, pela belo texto.
  • 4610
  • Aurora
    19.08.2017 às 17:45

    Linda crítica, Marcia! Teu olhar sensível sobre o filme me emocionou e aumentou ainda mais o desejo de assistir a essa maravilha...
  • 4614
  • Isabel
    11.09.2017 às 09:46

    Qué bueno conocer más sobre ella! Qué enriquecedor artículo!
  • 4616
  • herculano
    15.09.2017 às 12:47

    Bacana, Marcia! Sensibilidades à flor da pele!
  • 4619
  • Eduardo Macedo
    21.09.2017 às 20:22

    Ainda não vi o filme e agora, depois desse texto, estou mais curioso do que já estava! ótima crítica sobre um trabalho importante na arte do documentário brasileiro.
  • 4622
  • Ricardo Latorre
    05.10.2017 às 20:50

    Excelente crítica, Márcia! Captou com exatidão a intenção da diretora de homenagear essas atrizes tão fantásticas e ao mesmo tempo tão pouco reconhecidas. É o tipo de crítica que só aguça à vontade de ver o filme!
  • 4636
  • Cleo Vaz
    15.11.2017 às 10:02

    O texto de Marcia Vitari sobre Divinas Divas é delicado e fatal. Nos faz encarar do início a suavidade de Eduardo Coutinho, contraposta à brutalidade de sua morte, sendo igualmente peculiares essas Divas que, de certa forma, se jogaram na vida, desafiando os podres poderes. " Meu Deus, serão elas as Três Marias?" As Divinas não morreram ou morrerão sem maldade. Márcia ressalta o amor que essas vedetes construíram, e também a compaixão pelo próximo, agigantada, por uma natureza revolucionária inerente à sua condição transsexual. Vitari ressalta não só a missão da atriz Leandra Leal, mas também a das Divas, confrontadas a tal arte não vendável. Ao final, venceram todas, Leandra, Rogéria, Valéria, Jane Di Castro, Camille K., Fujica de Holliday , Eloína dos Leopardos, Marquesa, Brigitte de Búzios e Márcia Vitari, todas igualmente competentes e Musas.