Críticas


I CALLED HIM MORGAN

De: KASPER COLLIN
27.07.2017
Por Marcelo Janot
Um tributo a um músico excepcional e a uma mulher que não merecia ficar registrada para sempre na história como mera assassina.

Pouca gente conhece a história do jazzista americano Lee Morgan, um fenômeno precoce do trompete que gravou mais de 30 discos até morrer assassinado em pleno palco pela própria mulher, em 1972, quando tinha 33 anos. O documentário I CALL HIM MORGAN, dirigido pelo sueco Kasper Collin, é mais uma preciosidade que chega à grade do Netflix sem ter passado pelos cinemas brasileiros. Conhecemos a vida e a obra de Morgan através de depoimentos de lendas do jazz que tocavam com ele, como Wayne Shorter, Jymmie Merritt e Albert Tootie Heath, que servem de contraponto ao principal testemunho do filme: uma longa entrevista dada pela viúva (e assassina, por assim dizer) Helen a um radialista e seu ex-professor um mês antes de morrer, em 1996.

A trajetória de Morgan é recontada cronologicamente, desde a época em que ele surgiu, ainda adolescente, encantando músicos como John Coltrane, Dizzy Gillespie e sobretudo Art Blakey, cujo grupo integrou durante algum tempo. A efervescente cena jazzística de Nova York dos anos 50 e 60 é relembrada através de números musicais e sobretudo das magníficas fotos em preto e branco de Francis Wolff, que documentou aquele momento mágico da Blue Note.

Mas o que torna o filme acima da média e mais do que uma simples biografia é o raro depoimento de Helen. O filme é sobre ela também, a jovem que fugiu da vida dura na Carolina do Norte para se tornar uma figura querida e carismática que circulava entre os nightclubs e círculos de jazz nova-iorquinos. Quando conheceu Morgan, 12 anos mais novo que ela, ele havia abandonado a carreira e gastado todas as suas economias para sustentar o vício em heroína. Foi Helen quem o “adotou”, salvou sua vida e resgatou sua carreira, funcionando como esposa e empresária. Os depoimentos dos músicos que conviveram com o casal também enfatizam a importância dela para que Lee Morgan renascesse para o jazz.

Ou seja, a narrativa cria uma espécie de suspense em relação à motivação para o crime até o dia fatídico, em que uma nevasca cobria Nova York, impedindo que a ambulância chegasse a tempo de salvar Morgan do tiro fatal. Helen, afinal, foi uma heroína ou vilã? I CALL HIM MORGAN é um tributo a ambos, a um músico excepcional e a uma mulher que não merecia ficar registrada para sempre na história como mera assassina.

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