Críticas


BOLEIROS 2 – VENCEDORES E VENCIDOS

De: UGO GIORGETTI
Com: LIMA DUARTE, OTÁVIO AUGUSTO, FLÁVIO MIGLIACCIO, DENISE FRAGA, CÁSSIO GABUS MENDES
10.04.2006
Por Daniel Schenker
SÍNTESE DE UM MUNDO ARTIFICIAL

Em Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos , Ugo Giorgetti toca na delicada tecla da memória. O bar do Aurélio passou por uma reforma infeliz, resultado da habitual pressão “modernizadora” que aniquila a preservação do antigo. Naldinho (interpretado por Flávio Migliaccio), um dos frequentadores assíduos do estabelecimento, ficou inconformado com a transformação do ambiente, mas, ao lado dos velhos amigos, continua batendo ponto com disciplina na mesma mesa para jogar conversa fora e relembrar histórias do passado, que, por sua vez, estão sendo reunidas pelo aspirante a escritor Zé Américo (Cássio Gabus Mendes). É do laptop dele que saem os casos pitorescos envolvendo pessoas ligadas ao mundo do futebol. Pessoas que aguardam a chance de dizerem a que vieram e/ou que externam uma desesperada necessidade de serem reconhecidas e lembradas.



Não é só o bar que ganhou uma decoração artificial; o mundo também, parece dizer Ugo Giorgetti, que expressa um desencanto pelos novos tempos – tomados por jogadores incensados pela mídia, tietes histéricas e acordos clandestinos – em contraposição a décadas anteriores que deixaram saudades em muitos. Mas o cineasta não se esquece de ser crítico em relação a visões arraigadas, simbolizadas pela personagem do técnico Edil (Lima Duarte), inconformado ao se deparar com uma mulher (Denise Fraga) trabalhando como juíza de partida de futebol. Seja como for, o cineasta continua exercendo seu poder de síntese ao reunir diversas “facções” representativas de passado e presente numa única locação – que pode ser um bar ou um edifício, como em Sábado . Mas não radicaliza a opção de filmar tudo no mesmo espaço, a exemplo do criativo Festa . Giorgetti aproveita os casos reunidos em Boleiros 2 para passear um pouco por São Paulo (na verdade, poderia ter explorado ainda mais a geografia da cidade), contrastando áreas decadentes com a luxuosa Alphaville e trazendo referências a bairros da periferia.



Ugo Giorgetti não resolve de forma completamente satisfatória a estrutura de Boleiros 2 : o recurso utilizado para evocar as histórias soa repetitivo e pouco orgânico e o desprezo dos jornalistas pelos boleiros das antigas é sublinhado de maneira óbvia. Ainda assim, o diretor sustenta bem este seu novo e enxuto filme de episódios, uns melhores do que outros (destaque para o que envolve o já citado técnico Edil e o azarado Barbosa, feito por Duda Mamberti) mas sem criar grandes desníveis. E há escalações interessantes no time de atores, não só no que diz respeito aos principais como também aos coadjuvantes, como Fernanda D’Umbra – interpretando uma repórter que, logo numa de suas primeiras falas, faz referência ao marido, o dramaturgo Mario Bortolotto – e o diretor José Renato. Dando continuidade ao gancho de Boleiros – Era uma vez o Futebol... , Ugo Giorgetti escapa do risco de fazer um trabalho requentado.





# BOLEIROS 2 – VENCEDORES E VENCIDOS

Brasil, 2006

Direção e roteiro:
UGO GIORGETTI

Fotografia: PEDRO PABLO LAZZARINI, A.B.C e RODOLFO SANCHEZ, ABC

Montagem: MARC DE ROSSI

Música: MAURO GIORGETTI

Elenco: FLAVIO MIGLIACCIO, DENISE FRAGA, CÁSSIO GABUS MENDES, OTÁVIO AUGUSTO, ADRIANO STUART, LIMA DUARTE, SILVIO LUIZ, PAULO MIKLOS

Duração: 86 minutos

Site oficial: clique aqui



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