Críticas


AFTERIMAGE

De: ANDRZEJ WAJDA
Com: BOGUSLAV LINDA, ALEKSANDRA JUSTA, BRONISLAWA ZAMACHOWSKA.
16.08.2017
Por Leonardo Luiz Ferreira
Wajda mantém a verve crítica ao regime comunista e reflete sobre princípios dogmáticos que regem qualquer via de poder.

O apreço do cineasta polonês Wajda pela História só não é maior do que pelo cinema. Com uma carreira que remonta ao início dos anos 50, ele é o cronista da Polônia e de suas transformações com o passar do tempo - algo que Jia Zhang-ke constrói agora com relação à China. Portanto, Wajda é o mais representativo diretor do país, fomentou a cultura cinematográfica e lançou gerações de cineastas, como Roman Polanski. Apesar de uma diminuição de interesse em seus trabalhos mais recentes, é notório observar como ele se manteve fiel aos princípios que o regiam desde o começo: traçar um panorama pessoal, sobretudo polonês, a partir de fatos reais, contar a sua própria versão entre a utopia política e a decadência do mundo contemporâneo. Ou seja, manter-se autoral, quer se concorde ou não.

Afterimage narra a história do pintor e professor Wladyslaw Strzeminski, um dos mais importantes artistas poloneses do século XX. Ele fundou a Escola de Artes em Lodz, abriu uma Associação de Artistas e trabalhou na construção de um museu. Dotado de uma personalidade complexa e posições políticas fortes, o artista passa a influenciar diversos jovens alunos. Com isso, é perseguido pelas autoridades, que buscam a retirada de seu nome da história.

A apresentação de Wajda busca inicialmente a desconstrução: em um gramado, alunos têm contato com a paisagem e pintura. Para chegar até eles, o professor rola morro abaixo, visto que perdeu uma perna e um braço durante a 1ª Guerra Mundial. É através desse entrecho cômico, o único de toda narrativa, que o artista é apresentado. Logo em seguida, Wajda faz questão de ressaltar em planos-detalhe o interesse dos alunos por Strzeminski iniciando um caráter mítico para o personagem, que é exatamente onde, aqui e ali, encontram-se ruídos narrativos. Há um desequilíbrio claro entre esse “pai” artista, seus “filhos” e o lado do mal, que são os comunistas que buscam apenas a ideologia nas obras de arte.

Por mais que o cineasta se esforce, há um notório desleixo de mise en scène, em especial na direção de atores coadjuvantes, quando o mundo do pintor se choca com a realidade: os políticos são caricaturas simplórias, bem como os agentes que coíbem o pensamento distinto. Há um paralelo inevitável da atualidade entre o Estado Islâmico e uma sequência de destruição de obras de arte.

Através de Afterimage, Wajda mantém sua verve crítica ao regime comunista e reflete sobre os princípios dogmáticos que regem qualquer via de poder, mas ao mesmo tempo mostra um retrato unilateral de foco apenas no personagem principal e de sua verdade. Não há embate significativo para além de duas cenas expositivas. Ao menos o espectador forma a certeza de que qualquer regime, seja o capitalismo ou comunismo, traz pontos positivos e negativos para a sociedade.

A biografia de Strzeminski, que merecia chegar às telas, acaba por se alinhar ao subgênero biopic em termos de progressão narrativa. A diferença é que Wajda não usa letreiros explicativos nem necessita contar a história do pintor com recursos de inúmeros flashbacks. Ele parte de um recorte específico do fim de sua vida para dar conta do todo. E nisso ele é bem-sucedido, ainda que descreva alguns sentimentos e situações; e verbalize o que está implícito no quadro, como no caso da retirada de suas obras do museu.

O trabalho de vanguarda de Wladyslaw permanece para novas gerações, mas é por intermédio da teoria da visão que ele se perpetuou: “você precisa criar uma consciência visual anterior para conseguir processar uma imagem e retê-la além da visão. As pessoas só compreendem e enxergam aquilo que veem.”

ATENÇÃO: SPOILER

E o cineasta Wajda surge ali nos planos finais desconcertantes que justificam personagem e narrativa: Strzeminski morre em uma vitrine, por entre manequins, completamente invisível aos pedestres. É nesse instante que a tese se transforma em realidade: a morte de um artista é o ocaso de sua obra.

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário



Outros comentários
    4609
  • ivan
    18.08.2017 às 06:27

    NÃO É O REGIME COMUNISTA, É DITADURA COMUNISTA! ESTE CINEASTA POLONÊS, ESTÁ DANDO UMA AULA AOS CINEASTAS BRASILEIROS E DA AMÉRICA LATINA, DE COMO QUESTIONAR ESTÁ IDEOLOGIA QUE É PREJUDICIAL A VIDA HUMANA!