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A FISIOLOGIA DO GOSTO DA CEREJA
Por RONI FILGUEIRAS
1/12/2009
O antropólogo Claude Lévi-Strauss, morto recentemente, associou alimentos a um sistema gramatical, uma vez que a “complexidade de pensamentos e emoções que suscitam, constituem uma sintaxe”. Prova disso são os heróis e as heroínas de Como Água para Chocolate, A Festa de Babette e Estômago, para apenas citar românticos, icônicos e cômicos longas em que o ato de comer e beber beira a arte. E sobretudo, o prazer em dar prazer.
Julie & Julia, de Nora Ephron, desperdiçou a chance de se perfilar entre esses representantes do “existencialismo dietético”, mesmo com um ingrediente saborosíssimo: Meryl Streep. Ephron faz da comida mero veículo para uma comédia romântica. E se inspirou na história real de Julia Child, chef e apresentadora de TV; e da escritora Julie Powell, autora de um blog no qual reproduziu em um ano as receitas do mastodôntico livro de Child Mastering the Art of French Cooking.
Com longa ficha corrida como escritora, roteirista e diretora de filmes centrados nas relações amorosas (Harry e Sally – Feitos um para o outro e Sintonia de Amor), Ephron obtém um resultado que não poderia ser mais desigual. A começar pela escalação de elenco: Meryl Streep e Stanley Tucci (a mesma ótima dupla de O Diabo Veste Prada) vivem Julia e Paul Child. Ela, uma mulher de diplomata que encontra seu lugar no mundo pela gastronomia. Amy Adams (Encantada) e Chris Messina (Vicky Cristina Barcelona) são Julie e Eric Powell. Casada com um editor de revista, a jovem escritora ganha fama na internet.
Enquanto a apaixonada Julia ganha contornos de quase heroína feminista avant la lettre na performance de Meryl Streep, Julie não escapa do perfil de uma neurótica infantilizada em busca de um modelo para a autoafirmação com Amy Adams.
O filme cresce como fermento na água quando delineia em longos 123 minutos a ascensão da mulher de voz esganiçada que se tornou a primeira chef americana "Cordon Bleu" em um círculo majoritariamente masculino, escritora e apresentadora de TV, entre uma Paris do pós-guerra e uma América da Guerra Fria. Na curva descendente da performance dramática está a jovem novaiorquina, mais preocupada em cumprir sua maratona culinária do que com o arrebatamento da superação.
A novaiorquina marombeira do fouet não expõe as entranhas, ainda que desosse e retalhe lagostas e patos. A madura Julia Child faz da comida ferramenta de autodescoberta, emancipação e desconstrução de paradigmas. Entre cascas de legumes, lágrimas de cebola e o sucesso, sobrou a verdade cortante compartilhada por ambas: a manteiga dá e realça o sabor dos pratos. “Butter is never enough", dizem.
Mesmo com um personagem monumental em mãos, Ephron opta por não perturbar o espectador, servindo angústias e inquietações em colherzinhas de chá (Julia se frustra com a impossibilidade de engravidar, a perseguição ao marido pelo Macartismo e a longa luta para publicar seu livro). Como competente entertainer, a diretora suaviza a dimensão humana da mulher que virou fenômeno da cultura pop americana apaziguando sobressaltos na narrativa com receitas de torta de chocolate e boeuf bourguignon. O bolo de Nora Ephron rende risos, poucas lágrimas e por pouco não sola na forma. Mas quem se importa com isso quando a cereja do bolo é Meryl Streep?
EUA, 2009 Direção: Nora Ephron Elenco: Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci e Chris Messina
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