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AMOR SEM ESCALAS? ERRÂNCIA SEM EIXO
Por JANSY BERNDT DE SOUZA MELLO
6/2/2010
Jansy Mello é psicanalista em Brasília e editora do site www.aetern.us
Deixemos de lado o título brasileiro Amor sem Escalas: Up in the Air (título original) oferece uma crônica interessante sobre o temor ao desemprego e, principalmente, sobre o modo de ser sozinho, up in the air, ou seja, “nas nuvens”, “lá em cima”, voando sempre como o personagem central, Ryan Bingham.
O modo de "ser sozinho" e o temor ao desemprego que o filme retrata são mais tipicamente norteamericanos. Todos temos solidões, mas alguns as tem diferente dos outros. A gente vive a vida a partir de um sonho, individual ou consensual. Os americanos sonham o que a propaganda industrial vende pra eles. Mas é um “sonho de superego”, daquele tipo que ordena o gozar - e com isto o projeto, pueril, de cada um, fica enquistado.
Agora tudo é fuga em vez de sonho. Até a realidade é fuga, e no final, o sonho também resvala para este nível. Até a dor é fuga de outras dores. A arte em geral está incluída nisso porque a arte é uma fuga para "outra realidade." As vezes até mais real do que a nossa realidade naquele momento da vida; mas é uma dimensão que outros viram, criaram, experimentaram - e não a gente. O filme apresenta mais outra vertente para avaliarmos a "fuga": quando a própria palavra perde o sentido porque não há direção nem referencial para o personagem. Mudou o Natal ou mudei eu? Mudou a família ou mudei eu? Mudaram os padrões de socialização e de inclusão no mundo ou mudei eu? O filme das nuvens sem escalas é um conto de terror que vem se transformando em realidade. Nada ancora ninguém em lugar algum, nem internamente.
O roteiro é elegante ao abordar situações contrastantes: por exemplo, o personagem vivido por George Clooney viaja pelo emprego sem nunca gastar do próprio bolso (e quando o faz, escolhe produtos que lhe rendam milhagem para voar de graça). E pretende conquistar a oportunidade de dar a volta ao mundo (que na verdade continuaria desconhecendo - como a si mesmo).
Ele tem uma irmã que não pode se afastar da cidadezinha em que mora por falta de dinheiro: inicialmente ela aparece como quem, se pudesse, viajaria de maneira mais "normal" do que ele. Contudo, ela se aproveita das viagens do irmão para que ele a leve...mas apenas in effigie, não mais do que uma foto dela encarapitada sobre isopor, para que seja novamente fotografada all over the world, como se houvesse visitado todos aqueles lugares (uma citação do filme Amelie Poulain).
Mas, ao mesmo tempo, tais fotos que teriam sido “especiais” ficam dissolvidas em um mural preenchido por milhares de outras fotos semelhantes reunidas por outros amigos - o equivalente da milhagem conquistada por Bingham - e ela mal olha para aquilo: o "ter sem ter", a importância da imagem e do estereótipo sobre a vida.
E há o próprio viajante sem fundos, sem frente e sem jardim, e que, por isso mesmo, sente-se livre e despojado, pois não nota que vive deslizando sobre um tapete imaginário que lhe é estendido pelo mundo por seus cartões mágicos, portas abertas para todo tipo de homenagem eletrônica.
Mas a verdade é que sua vida nada tem de livre ou despojada porque está completamente controlada pelo sistema: uma mínima mudança no equilíbrio das forças... e ele será tragado pelo mesmo programa que aplica aos outros. O estranho é que, em contraste, os que parecem ter um endereço geográfico vivem, igualmente, numa realidade virtual.
Já foi dito que depois da diáspora, os judeus só eram aparentemente errantes porque todos se encontravam no território bíblico da "palavra." O filme Up In the Air descreve o oposto: uma errância sem eixo.
Poderíamos aludir a histórias como as de "Perdidos no Espaço," ou de "Robinson Crusoé"? Não: quem está perdido é porque deseja voltar a um endereço seguro, tal como Ulisses. Este é o sentido de "perdido", ao passo que Crusoé carregou toda civilização consigo para a ilha. Bingham, não: ele não é mais do que um isqueiro Bic descartável... mas todo cheio de si (seja o que for que sustenta o "cheio" e o que representa o "si").
Será que é isso o que nos aguarda no futuro? Sermos apenas imagem, sem centro, sem origem, sem história?
O enredo do filme faz pensar insistentemente nos Estados Unidos de hoje: o domínio amorfo das grandes empresas e da economia capitalista engolindo o indivíduo, agora simples peça de sua engrenagem. Se a civilização é algo que sempre se dá lado a lado com a selvageria/barbárie, como entender o que cada homem significa neste cosmos material se não houver uma marca de nascença, um ponto de origem? Creio que estamos esquecendo que, além das leis econômicas, das leis físicas e da biologia, temos algo único no universo: a linguagem, com suas leis próprias.
Não é porque existem diálogos em um filme que o que se assiste representa a linguagem no que esta traz de especificamente humano. Podemos falar como quem faz sinais ou movimenta semáforos, e nada além disso. Então estamos usando as palavras para que estas nos distraiam com a força das imagens que em nós suscitam. Entretanto, a linguagem humana promete algo que fica além da falação e do comércio banal. Ela é um antídoto contra os vampiros da moda ou os rinocerontes de Ionesco, como sutilmente o filme Up in the Air mostra.
A afirmação da voz individual não impede a participação de cada um no corpo social. E a constatação das diferenças não gera necessariamente discórdias ou promove egoísmos. Certos cânones do pós-moderno contêm uma mensagem inquietante, quase reproduzida de modo paródico no filme, quando se desfaz a bagagem da memória e da história para obter maior leveza e um suposto "despojamento" que não tem nenhuma relação com uma disciplina como a do Zen.
Os filósofos nos incitam à errância, à deriva, ao prazer do texto (Barthes) quando o registro do passado dá lugar a um presente atemporal, sem contornos ou limites. É neste espaço que agora o discurso se fragmenta e predominam ícones e imagens de intenso brilho, como a estrela sem calor da asa do avião de Bingham.
Mesmo os nômades tem um destino porque tem uma origem. Exceto Bingham e a profecia que ele encarna. O poeta Omar Khayyám nos apresentava como "peças de um jogo de xadrez, manipuladas por Deus que nos desloca para frente ou nos movimenta para o lado até, enfim, nos recolher à caixa do nada". Mas Khayyán manipulava suas tendas de nômade verbal estabelecido em um centro, há uma rede, ele pertence a um esquema mais concreto que um jogo do acaso.
Paradoxalmente, o filme pode nos deixar renovados, purgados até, com sua visão de aparente comédia para a tragédia capitalista, a respeito da grande massa e da "intelligentzia." O mundo vai mal ou sempre foi mal? Ainda há um espaço alternativo de fuga? (Como para a personagem ‘Alex’, vivida por Vera Farmiga, que revela coisas sobre o mundo feminino e o pós-feminismo, com uma torção muito interessante).
Recorrendo a uma imagem típica dos anos 1950: os homens categorizando dois tipos de mulheres: em casa, as santas - e, na rua, as prostitutas. As santas preservavam a família, tradição e propriedade (mesmo sem aderirem a qualquer movimento ou religião) e liam Madame Delly e se inquietavam com Madame Bovary (na França e no Brasil porque é preciso que lembrem como foi a censura na Inglaterra contra a publicação deste livro de Flaubert). As prostitutas eram tudo mais: dançarinas, artistas, mulheres independentes, as “desquitadas”...
Hoje isto acabou. Não há mais a diferenciação puta-santa e nem os homens podem mais ser infiéis impunemente (cf. leis sobre adultério no Brasil e no mundo). A velha ideologia monogâmica ainda aparece, com insistência, nos filmes americanos e ninguém nem nota como ficou datada.
ATENÇÃO: O PARÁGRAFO QUE SE SEGUE PODE CONTER INFORMAÇÕES SOBRE O ENREDO DO FILME QUE PODEM NÃO INTERESSAR A QUEM AINDA NÃO O ASSISITIU (SPOILER)
‘Alex’ tem duas vidas: a tradicional caseira, despenteada e com filhos – e com marido chamando-a de "honey"... E mais aquela outra, profissional, elegante e livre das incumbências familiares. O segundo mundo, diz ela, é a fuga. O outro, é o real. Não parece que o personagem de George Clooney é que se transformou numa espécie de "putinha" que ela usava a vontade, desde que não confundisse os endereços?
# AMOR SEM ESCALAS (UP IN THE AIR) EUA, 2009 Direção: JASON REITMAN Roteiro: JASON REITMAN e SHELDON TURNER, baseado em livro de Walter Kim Fotografia: DANNY GLICKER Edição: DANA E. GLAUBERMAN Direção de Arte: ANDREW MAS CAHN Música: ROLFE KENT Elenco: GEORGE CLOONEY, VERA FARMIGA, ANNA KENDRICK, JASON BATEMAN, AMY MORTON Duração: 109 minutos Site oficial: http://www.theupintheairmovie.com/
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