Críticas


TRANSTORNO EXPLOSIVO

De: NORA FINGSCHEIDT
Com: HELENA ZENGEL, ALBRECHT SCHUCH, LISA HEIGMEISTER
06.11.2020
Por Luiz Fernando Gallego
Filme imperdível pela narrativa e edição extremamente hábeis na condução do impactante roteiro .

Incrível estreia desta diretora e roteirista em ficção de longa-metragem que arrebatou prêmios em festivais: por exemplo, em Berlim levou o Urso de Prata, e em São Paulo 2019 foi Melhor Filme de cineasta estreante. Mas o filme pode exigir do espectador muita empatia para com a personagem central, uma menina de nove anos com fortes traços de um distúrbio de personalidade explosiva: quando se irrita (e ela se irrita por bem pouco), ‘Benni’ (na verdade, seu apelido masculino é escolha dela mesma, por não gostar de seu nome 'Bernadete'), interpretada de modo avassalador pela jovem atriz Helena Zengel, é capaz de morder, chutar, agredir violentamente quem estiver por perto, seja uma criança (ou várias), seja um adulto. Ela também pode xingar, cuspir na cara dos professores, quebrar janelas para fugir de onde estiver e bater com a cabeça em superfícies duras. Não admite que toquem em sua face, o que, por si só, já a leva a total descontrole.

No entanto, ela não deixa de ser uma menina de nove anos extremamente carente, ainda que só saiba revelar sua carência pelo pior dos modos: agredindo – e com isto, afastando as pessoas interessadas em cuidar dela.

A acreditar no que o filme mostra, o sistema alemão de cuidados com crianças afastadas de lares parentais é composto de pessoas experientes e profissionais dedicadíssimos. Volta e meia vemos a equipe composta de psiquiatra, psicólogo, assistente social e vários educadores discutindo o difícil caso de ‘Benny’. A questão é que ela já foi rejeitada por mais de trinta casas de acolhimento para menores.

O enredo do filme se desenvolve especialmente pelo conflito que se estabelece entre ela e um novo membro da equipe, um adulto de aspecto jovial, amante de Heavy Metal, de apelido ‘Micha’ (Michael) - também em ótimo desempenho de Albrecht Schuch, desconhecido por aqui, mas já colecionador de prêmios na Alemanha.

O filme não se detém muito em certos aspectos sobre possíveis origens do comportamento da menina, embora haja uma breve alusão a algum “trauma” bem precoce quando bebê. Funciona melhor quando se detém na questão da mãe (a atriz Lisa Heigmeister, também excelente). francamente incompetente para lidar com uma filha ‘especial’. Uma “mãe” temporária de ‘Benny’ (que a adora) comenta que “sempre é melhor que a criança fique com os pais verdadeiros”, o que o filme, entretanto, desmente. Como a vida de certas conjunções-desconjunções entre mães limitadas e/ou comprometidas emocionalmente com seus filhos nos mostra na realidade.

Há um momento em que ‘Micha’ chega a pedir para sair da equipe porque está “com fantasias de salvação” em relação a ‘Benny’ – o que mostra uma consciência de que tais atendimentos precisam de limites - ao mesmo tempo em que é preciso oferecer carinho e respeito às crianças problemáticas. Por outro lado, ele não percebe que muitas das fases “dóceis” de ‘Benny’ correspondem a uma tentativa de sedução por parte da esperta menina que quer ser “adotada” pelos seus cuidadores. Inteligente, ela percebe como esperam que ela se comporte, mas de fato ela não está tão autocontrolada: trata-se de uma atitude "para uso externo", muito mais do que uma real mudança advinda dos tantos cuidados terapêuticos, sempre frustrados.

Um filme “duro”, mas imperdível pela narrativa e edição extremamente hábeis na condução do complexo e impactante roteiro .

No Rio de Janeiro esteve em cartaz em cinemas do Grupo Estação. Estava previsto seu lançamento em streaming na now

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