Críticas


FLEE: NENHUM LUGAR PARA CHAMAR DE LAR

De: JONAS POHER RASMUSSEN
19.04.2022
Por Luiz Baez
A animação, que poderia constituir mero subterfúgio, transforma-se em linguagem

A decisão de lançar, nos cinemas brasileiros, a obra com um título anglófono talvez prive alguns espectadores de Flee: Nenhum lugar para chamar de lar (Flugt, 2021) de uma importante chave de leitura. Tanto o dinamarquês flugt quanto o inglês flee se traduzem como “fugir” ou “escapar”, significado que diz respeito a – no mínimo – quatro momentos da narrativa. O primeiro, e mais direto, trata da guerra: em um contexto de conflito civil no Afeganistão, o protagonista e sua família têm de fugir não só da iminência de bombardeios, como também do alistamento obrigatório – praticamente uma sentença de morte para os jovens em idade militar. A evasão culmina na Rússia, um ano após a queda da União Soviética, refúgio onde, em vez de esvaziar-se de sentido, o verbo “fugir” ganha uma nova acepção: em situação ilegal, os Nawabi precisam escapar da violenta e corrupta polícia. Se os eventos históricos, resgatados em imagens de arquivo, ditam a migração perene das personagens, a mutabilidade identitária aflige em especial o jovem Amin. Como estabelecer pontos fixos sem recorrer à linguagem? E como afirmar sua sexualidade em um lugar onde sequer existe uma correspondência idiomática? Dois caminhos parecem igualmente cruéis: recalcar o desejo e fugir de si ou escapar do passado à procura de novas referências. Esta última “fuga” leva, em última instância, a um esquecimento traumático. Nesse processo, as lembranças dolorosas desvanecem junto com as agradáveis, sejam elas o real paradeiro da família, o rosto da mãe sem os cabelos brancos ou mesmo o domínio do dialeto dari.

Enquanto as memórias lhe fogem, Amin se vê obrigado a recorrer à imaginação, isto é, à faculdade responsável por recriar a sua origem, mas também – literalmente – à produção de imagens. Do ponto de vista psicanalítico, embora o enquadramento principal de sua entrevista nada mostre além de um
close do rosto e um fundo neutro (uma espécie de tecido persa), um plano mais aberto apresenta o personagem deitado, tal qual um paciente em um divã, cujo olhar penetra a câmera como um espelho refletido para seu interior. Todas essas imagens, contudo, não são registradas em película ou armazenadas em algoritmos, mas desenhadas em traços. Por um lado, é verdade, o recurso à animação visa preservar anônimas identidades cuja revelação poderia ser problemática. Nesse caso, subentende-se uma operação de continuidade, evidenciada em algumas montagens de filmagens e desenhos contíguos, como um pronunciamento do ex-presidente afegão Mohammad Najibullah e uma visita a um jardim. Por outro, aquilo que poderia constituir mero subterfúgio transforma-se em linguagem quando marca não uma reconstituição, mas antes um real rompido e inacessível. Nesse cenário, está em jogo uma ruptura com a representação clássica. Para sobreviver, conta Amin, ele precisou mentir a vida inteira; chegou até a se emocionar com essas histórias, mesmo conhecendo seu caráter de fabricação. Ora, não é justamente esse o poder da ficção, em geral, e do cinema, em particular? Uma vez percebidas as escolhas estéticas como convenções, jamais neutras, pode-se perguntar, por fim, se a animação faz jus à experiência narrada. Como exemplo de uma resposta positiva, há um momento em que um sentimento pessoal de humilhação se traduz por meio de uma desproporção geométrica: do alto de um cruzeiro infinitamente grande, os refugiados aparentam minúsculos; ao contrário, do pequeno barco de migrantes, os europeus são inacessíveis. Seja desrespeitando escalas, seja borrando os traços de lembranças confusas, seja retirando as cores de memórias traumáticas, em Flee a imaginação (ou a produção de imagens) vem a socorro do real.

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