Críticas


ELVIS

De: Baz Luhrmann
Com: Tom Hanks, Austin Butler, Olivia DeJonge
14.07.2022
Por Amanda Luvizotto
Direção de arte e figurino são elementos tão marcantes em cena quanto os próprios atores, algo habitual nos filmes de Baz Luhrmann

No dia 13 de julho, foi comemorado o dia internacional do Rock, e não haveria melhor data de estreia para Elvis. Obra dirigida pelo australiano Baz Luhrmann e protagonizada por Austin Butler, trata-se de uma “cinebiografia” da icônica estrela do rock, ressaltando sua complexa e conhecida relação com seu empresário, Coronel Tom Parker, interpretado por Tom Hanks.

Antes de abordar especificamente o filme, é preciso falar – ainda que brevemente – do cinema de Baz Luhrmann. Apesar de o diretor não ter assinado um extenso número de longas-metragens (são seis ao todo), a capacidade de entregar obras grandiosas, esteticamente exuberantes e ritmadas por trilhas sonoras marcantes é algo notável em seu trabalho. Estreou com Vem dançar comigo (1992), mas foi a ousada adaptação da peça de William Shakespeare Romeu e Julieta (1996) que levou seu nome e também o dos protagonistas, Leonardo DiCaprio e Claire Danes, ao conhecimento do grande público. No ano de 2001, o lançamento do sucesso Moulin Rouge, reconhecido por  diversos prêmios – incluindo dois Oscars –, consolidou o espaço do diretor no cenário cinematográfico internacional.

Baz Luhrmann seguiu adaptando e dirigindo histórias “grandiosas”, como
Austrália (2008), cujo roteiro ele também assina, e o famoso romance de F. Scott Fitzgerald O grande Gatsby (2013), filme que adicionou dois Oscars ao seu currículo. Entretanto, em Elvis, o diretor trabalha pela primeira vez com a representação e adaptação de algo real: no caso, a vida de uma figura tão iconográfica como o astro. Tal fato interferiu, ainda que sutilmente, no resultado final e na percepção do espectador.

Utilizando uma estrutura narrativa similar à de
O grande Gatsby, cuja trama é contada por um observador em contato direto com o protagonista que dá nome à obra, e não pelo personagem principal em si, Elvis é narrado pelo controverso Coronel Tom Parker, considerado por muitos responsável pelo sucesso do cantor, e também pelo declínio que resultou na sua morte em 1977, aos 42 anos. A trama é concentrada justamente no período em que ambos trabalharam juntos e na sua problemática e abusiva relação, ainda que haja uma pequena introdução, em que ambos são apresentados, e alguns flashbacks, que mostram acontecimentos da infância e da adolescência que influenciaram musicalmente o astro.

A interpretação de Austin Butler é impossível de não ser citada em qualquer texto sobre a obra. Anteriormente, o ator de 30 anos era conhecido por pequenas aparições em filmes como
Era uma vez em Hollywood (2019) e séries de TV juvenis. Não obstante, após o trabalho que potencialmente pode lhe render uma indicação ao Oscar, será difícil desassociá-lo do personagem. Após algum tempo de exibição, a audiência é capaz de esquecer que há um profissional em tela, e não o próprio Elvis Presley em pessoa. Algo similar aconteceu em 2007, por exemplo, com a interpretação da cantora francesa Édith Piaf executada por Marion Cotillard no premiado Piaf - Um hino ao amor, dirigido por Olivier Dahan.

Tom Hanks assume o papel do debochado, misterioso e ambicioso Coronel Parker, em mais um ótimo trabalho do ator. O elo “fraco” do elenco principal, infelizmente, é a jovem atriz Olivia DeJonge, que, apesar do esforço, não consegue transmitir o carisma de Priscilla Presley. Destaca-se positivamente Richard Roxburgh como Vernon, o pai passivo, incompetente e também ambicioso de Elvis.

No que diz respeito aos aspectos técnicos, direção de arte e figurino são elementos tão marcantes em cena quanto os próprios atores, algo habitual nos filmes de Baz Luhrmann. A trilha musical, em vez de limitar-se apenas às canções do Rei do Rock (o que já seria excelente), introduz canções da atualidade, em um inteligente artifício, criando indiretamente uma conexão com o público mais jovem e não tão familiarizado com o trabalho de Elvis. A montagem segue o padrão dos demais trabalhos do diretor: acelerada e, por vezes, repleta de informações simultâneas, o que pode ser incômodo. Ainda assim, tal técnica contribui para que um bom ritmo seja mantido ao longo das extensas duas horas e 39 minutos.

O aspecto mais fraco de Elvis talvez tenha sido o maior desafio assumido pelo diretor nesse trabalho: retratar alguém real e também suas idiossincrasias. Na metade do segundo ato, o declínio da carreira e da saúde psicológica do cantor fica evidente, com as intenções e interferências de Parker facilmente compreensíveis pelo o espectador. Já as motivações, frustrações, vícios e dramas de Presley são abordados de forma bastante superficial, o que incita, mas não alimenta, a curiosidade do público, chegando perto de objetificar o personagem Elvis e ignorar o ser humano por baixo do figurino. Desta forma, o conhecido e fatídico “desfecho” perde muito da catarse e complexidade que poderia alcançar, ainda que tal aspecto não afete de forma significativa o produto final entregue por Baz Luhrmann: um excelente trabalho, embora não seja o melhor da carreira do diretor.

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Outros comentários
    5290
  • Maria Inês Neuenschwander Escosteguy Carneiro
    17.07.2022 às 18:48

    Excelente crítica. Achei o filme muito bom. O que aqui é considerado o ponto fraco, para nim foi um dos fortes. Os dramas emocionais de Elvis foram profundos e dolorosos. Talvez o filme perdesse o ritmo ao aprofundá-los. Para mim o timing foi mto oportuno. É um bom filme.