Eu me Lembro se apropria não apenas do título, mas de uma grande parte da filmografia felliniana. Ali estão seqüências inteiras do próprio Amarcord, suas referências essenciais – a utopia do transatlântico, o tio louco, o clamor por estricnina para acabar com a vida. Ali estão também personagens e momentos de muitos outros filmes do mestre italiano: a Saraghina, a roda final de 8 ½. Não me espantaria se Guiga, o personagem biografado aqui, fosse uma contrafação de Guido, o alter-ego de Fellini em 8 ½ - para não falar das citações permanentes à música de Nino Rota.
Pode soar estranho tanto Fellini explícito num filme de memórias de um baiano cuja moldura da infância não tem qualquer afinidade com Rimini. E no entanto, Edgar Navarro faz povoar seu filme pelos próprios fantasmas, pelos lugares por onde andou, pelo aprendizado que fez da vida. Uma vida, bem mostra o filme, não muito diferente da experimentada por qualquer outro intelectual brasileiro de sua geração. Na paisagem, talvez. Não nas incertezas, nas comunidades, nas drogas mais ou menos leves, nos amores divididos.
São reminiscências da juventude que avançam para a construção de um painel sobre o país que gira em torno dessas lembranças. “Quando criança eu achava que o mundo existia pra mim”, seu personagem diz logo no início. É precisamente o exercício inverso a que Navarro se lança. O mundo existe para fixar a sua marca sobre cada etapa do próprio crescimento.
Navarro sobrepõe sua experiência à experiência felliniana (na estética, na difícil relação com uma educação cristã arraigada, no olhar sobre a família e em muitos outros sentidos) e extrai daí uma resultante surpreendentemente feliz. Há originalidade e emoção no que produz. Mas há também algo bem maior: a maneira de filmar desvinculada das atrozes formulações inventadas por burocratas medíocres, que engessam o cinema brasileiro. Formas estúpidas que o despersonalizam, que o remetem a uma estética monolítica, frequentemente inspirada no que há de pior em televisão, em nome da conquista de um público, que nas raras vezes em que é alcançado o é muito mais pela massificação da mídia que pelos méritos intrínsecos da obra. Em Eu me Lembro há um autor que conta sua história à sua maneira, que tem a coragem de citar filmes alheios na íntegra, mas que tira tudo isso da própria cabeça. Não há atores conhecidos e muito menos a reprodução de clichês de novelas. É isso, e não o preenchimento de fórmulas áridas, o que se espera de um cineasta . É isso o que a arte e a indústria reconhecem num realizador.
Perto dos 60 anos, Navarro tem no currículo alguns vídeos conhecidos apenas pelos freqüentadores de festivais baianos – Alice no País das Mil Novilhas, O Rei do Cagaço – e um média-metragem – O Super Outro, de 1989 – que ganhou notoriedade por uma célebre seqüência escatológica e que possivelmente permanece inédito em salas comerciais. Iconoclasta por convicção, chegou a anunciar a realização de alguns filmes que acabou não fazendo, como O Homem que Nunca Dormia e Eu Pecador, “um filme tão fudido que dá até medo de botar na tela”.
Eu me Lembro é uma virada bastante surpreendente nessa trajetória – ainda que o filme tenha começado a ser feito em 2001 e completado em 2005. Revela um Navarro mais comportado, atento a uma construção bem mais elaborada, capaz de tirar proveito da disciplina que rejeitava antes e do orçamento que nunca teve (méritos devem ser creditados aos produtores Moisés Augusto e Sylvia Abreu). Promove uma belíssima pesquisa musical e traz de quebra trechos inteiros do “Edifício Balança Mas Não Cai”, entre outras jóias do rádio dos anos 50. Compõe muitas seqüências com maestria e estimula um trabalho fotográfico muito bom de Hamilton Oliveira.
Não se deve supervalorizá-lo, porém, até porque a supervalorização de O Super Outro não foi nem um pouco benéfica para o filme. Eu me Lembro não muda nada, não reinventa o Brasil, não o mostra sequer de uma forma que ainda não tinha sido mostrado. É desigual e tem graves falhas de interpretação. E no entanto constitui um momento de brilho autoral que de maneira alguma passará em branco no cinema brasileiro.
# EU ME LEMBRO
Brasil, 2005
Direção: EDGAR NAVARRO
Elenco: LUCAS VALADARES, ARLY ARNAUD, FERNANDO NEVES, VALDEREZ FREITAS, DANTIEN MELO.
Duração: 108 minutos