Críticas


O MISTÉRIO DE HENRI PICK

De: RÉMI BEZANÇON
Com: FABRICE LUCHINI, CAMILLE COTTIN, ALICE ISAAZ
25.07.2019
Por Maria Caú
Apaixonados por literatura e por livros poderão curtir mais esta ótima adaptação de um romance

Se há um tema que parece profundamente francês é o papel da literatura – mais precisamente, a magia em torno do romance e do objeto que lhe dá corpo, o livro – na cultura. Não à toa, diversos filmes contemporâneos trabalham essa questão face às novas tecnologias e às transformações experimentadas pelo mercado livreiro numa cultura de leitores, em especial O que está por vir, de Mia Hansen-Løve, e Vidas duplas, de Olivier Assayas. Esse último estreou há apenas algumas semanas, com uma minúscula repercussão que revela muito da disparidade entre os países, característica que dificulta enormemente a “leitura” desses filmes por aqui. Pois O mistério de Henri Pick aposta justamente nessa seara temática pouco afeita à nossa realidade.

Baseada no romance homônimo de David Foenkinos, a trama gira em torno de um manuscrito encontrado por uma jovem editora, relegado a uma obscura biblioteca da Bretanha que guarda apenas originais rejeitados. A obra-prima, assinada por um certo Henri Pick, dono de uma pizzaria da região e falecido dois anos antes sem ter demonstrado qualquer pendor literário frente àqueles que o conheciam, chama a atenção de Jean-Michel Rouche, crítico literário famoso por um programa de televisão (mais uma referência bastante francesa), que questiona publicamente a autoria e acaba demitido. Rouche então começa uma cruzada para descobrir a verdade, o que o leva a investigar a família do suposto autor, suas relações com a cultura russa (visto que o romance em questão faz extensas alusões à obra de Pushkin) e as intenções da editora. Em meio a essa rede intrincada de relações, Rouche, belamente interpretado pelo excelente Fabrice Luchini, se envolve com a filha de Pick, Joséphine (Camille Cottin), ela mesma insegura com relação ao passado do pai.

A partir dessa instigante premissa - que agradará talvez apenas aos aficionados por literatura - o filme lança mão de diversos elementos do imaginário francês (podemos pensar no Salon des Refusés, ou no processo enfrentado por Flaubert quando da publicação de "Madame Bovary") para traçar um grande debate sobre autoria e mercado editorial na contemporaneidade, sempre colorido de um tom cômico mais afeito ao riso cúmplice que à gargalhada.

O diretor Rémi Bezançon já havia realizado outra excelente adaptação literária, Um evento feliz, um dos filmes mais honestos sobre a conflituosa pluralidade de sentimentos da gravidez. Aqui, ele remete indiretamente a figuras como a da fotógrafa Vivian Maier para delinear esse jogo de ocultar/revelar que é o fascínio próprio da autoria nas artes individuais, principalmente no âmbito da literatura, e que jamais terá igual lugar no cinema.

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