Críticas


DOIS CARAS LEGAIS

De: SHANE BLACK
Com: RUSSELL CROWE, RYAN GOSLING, KIM BASINGER
22.07.2016
Por Hamilton Rosa Jr.
Russell Crowe e Ryan Gosling criam cumplicidade contagiante na efervescência dos anos setenta.

Shane Black tinha 24 anos quando brindou a audiência ávida por ação nos anos '80 com uma química literalmente explosiva entre Mel Gibson e Danny Glover no primeiro Máquina Mortífera. O filme era dirigido por Richard Donner, mas o roteiro era de Black. A combinação de diálogos ácidos e a irreverência foi reelaborada 17 anos depois na estreia do roteirista como diretor com outra dupla, Robert Downey Jr. e Val Kilmer em Beijos e Tiros. Dois Caras Legais (The Nice Guys, 2016) surge agora quase como uma extensão da proposta. Verdade que a insistência no tema da dupla desajustada pode ser surrada, mas Black é realmente tanto roteirista como diretor de tarimba. Não se repete. Usa a vivência para aprimorar o riscado de tal modo, que torna Dois Caras Legais num dos policiais mais simpáticos dos últimos tempos.

Antes de tudo vem o prazer. Tudo no filme parece colocado em quadro pelo imenso prazer do encontro de um bom texto, com diálogos irreverentes, elenco afiado, e evocação muito inspirada de uma época passada: o final dos anos '70. Há empolgação em cada nota, em cada cena.

Depois, esqueça a diversão confortável protagonizada por semideuses de história em quadrinhos. Ryan Gosling e Russell Crowe fogem do arquétipo, o primeiro ostentando um bigode escovinha, cabelos lambidos e ternos azul-bebê; o segundo desfilando em cena sempre desleixado, trajando jeans e um casaco de couro gasto e exibindo a barriga protuberante. Os tais “caras legais” aqui pretendiam ser detetives, mas a falta de vocação, levou a dupla para outros caminhos. O personagem de Gosling, 'Holland March', investiga casos para velhinhas e pede pagamento adiantado - porque nunca sabe se a cliente estará viva no próximo encontro. Crowe ganha dinheiro batendo nos outros. Quando um milionário precisa dar um corretivo em algum desafeto chama o truculento.

Holland acha-se um espertalhão, mas é um pateta do tipo que se embanana com uma arma num tiroteio. E Crowe é o animal de cem quilos que abre caminho com músculos - e nem sempre com inteligência.

Quando se esbarram por conta do envolvimento da filha de uma promotora pública (Kim Bassinger) com a indústria pornô, se estranham. No mal entendido, o brucutu quebra o braço do futuro parceiro. É da fratura que se formará a aliança dos sujeitos. Uma relação, aliás, que será sempre marcada pela desconfiança.

Em busca do paradeiro da filha da promotora, os dois passeiam pelos bastidores da indústria do cinema marginal, deleitam-se numa efervescente festa disco, arrumam confusão numa manifestação anticorporativa de bichos-grilos e, por fim, enroscam-se numa intriga maior envolvendo corrupção política que ameaça engolir os dois.

O diretor e roteirista Shane Black margeia o catálogo das convenções dando uma banana para os clichês, explorando o nervosismo sísmico de uma Los Angeles que nunca tem um cotidiano igual e se debruçando sem ilusões na maldade da natureza humana. É sempre engraçado, mas não há um personagem santo em cena. Os mal-entendidos começam pequenos e aos poucos tornam-se imensos - e os heróis riem do caos, fazendo troça do senso de proporção. Em entrevista no Festival de Cannes, Black reafirmou a saudades de um tipo de cinema de aventura que não se faz mais, um cinema sem os planejamentos excessivos que os storyboards trouxeram. Em Dois Caras Legais, ele aboliu a pré-visualização de cena em troca de composições livres, buscando o improviso e a aflição do desequilíbrio. Eis a diferença.

O desempenho carismático da dupla complementa o pacote. Os dois criam uma cumplicidade contagiante com a plateia.

Seria bom se ficasse nisso: um filme policial clássico isolado em meio a uma indústria prisioneira das continuações, remakes e afins. Podia, mas, do jeito que vem fazendo sucesso, tem tudo para virar franquia.



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