Críticas


MOCHILA DO MASCATE, A

De: GABRIELA GREEB
04.06.2006
Por Daniel Schenker
OPORTUNOS DIÁLOGOS TEMPORAIS

Dizer que o tempo é o tema principal de uma determinada obra talvez já tenha virado lugar comum, mas, ainda assim, não há como fugir do clichê no caso de A Mochila do Mascate , documentário de Gabriela Greeb que reconstitui a trajetória do diretor e cenógrafo Gianni Ratto, falecido no final do ano passado.



A operação mais perceptível foi fazer com que Ratto presentificasse seu próprio passado ao revisitar os teatros na Itália onde trabalhou e reencontrar amigos com quem conviveu. “Acho que ele é a única pessoa que ainda pertence a meu mundo”, diz Nina Vinchi Grassi.



Ao longo da projeção, a diretora investe em justaposições temporais, ao sobrepor sonoridades de infância à imagens de Gianni Ratto e gravações e fotos de época aos rostos de artistas bastante ativos hoje em dia. Artistas que participaram de capítulos decisivos da vida do diretor, como os integrantes do Teatro dos Sete – em especial, Fernanda Montenegro, que assume o papel central de Ratto no seu processo de crescimento como atriz. Numa seqüência adiante, a voz de Bibi Ferreira ecoa com impressionante força na interpretação da Joana, de Gota D’água .



Onipresente em A Mochila do Mascate , o mar parece simbolizar a origem do mundo, a perda da mãe, a descoberta de um país, fracassos e sucessos e uma paixão, tardia e definitiva. Representa também a libertação de Gianni Ratto. “Minha alma ficou fechada dentro de uma redoma”, afirma. A libertação está ligada à vinda ao Brasil, onde, sem renegar a experiência acumulada como cenógrafo em muitos espetáculos de Giorgio Strehler no Piccolo Teatro de Milão, assume a função de diretor, inicialmente na companhia de Maria Della Costa.



Em parceria com Antônia Ratto e escorada no livro homônimo do próprio retratado, Gabriela Greeb presta um serviço de inegável importância. Afinal, Gianni Ratto teve grande influência na formação de uma consistente geração de atores brasileiros, mérito compartilhado com outros diretores estrangeiros particularmente presentes no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), empreendimento capitaneado pelo industrial Franco Zampari e liderado por Cacilda Becker.



Várias observações de Gianni Ratto permanecem atuais, como as relativas à necessidade de uma concepção cenográfica orgânica no espetáculo – ao invés de esteticamente exibicionista –, ao palco vazio – próprio a uma manifestação como o teatro que aposta na imaginação do espectador – e à “definição” da obra dramatúrgica eterna como aquela que proporciona inesgotáveis descobertas a cada releitura.



Entretanto, os esforços da cineasta em voar acima do valor de registro são, em parte, questionáveis, a julgar pela tentativa, nem sempre bem-sucedida, de perseguir imagens poéticas. Através delas e dos já citados e oportunos diálogos temporais, a diretora procura disfarçar uma estrutura cronológica algo convencional, apesar de manter-se fiel à preocupação de priorizar o relato de Gianni Ratto acerca de sua própria história.



# A MOCHILA DO MASCATE

Brasil, 2005

Direção: GABRIELA GREEB

Roteiro: GABRIELA GREEB & ANTÔNIA RATTO

Produção: ANTÔNIA RATTO

Música: NICOLAS BECKER

Fotografia: GEORGES DE GENEVRAYE

Duração: 73 minutos

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