Críticas


FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS 2019

06.06.2019
Por Críticos.com.br
Novas resenhas de outros filmes do Festival Francês de 2019

O MISTÉRIO DE HENRI PICK, de Rémi Bezançon

por Maria Caú

Se há um tema que parece profundamente francês é o papel da literatura – mais precisamente, a magia em torno do romance e do objeto que lhe dá corpo, o livro – na cultura. Não à toa, diversos filmes contemporâneos trabalham essa questão face às novas tecnologias e às transformações experimentadas pelo mercado livreiro numa cultura de leitores, em especial O que está por vir, de Mia Hansen-Løve, e Vidas duplas, de Olivier Assayas. Esse último estreou há apenas algumas semanas, com uma minúscula repercussão que revela muito da disparidade entre os países, característica que dificulta enormemente a “leitura” desses filmes por aqui. Pois O mistério de Henri Pick aposta justamente nessa seara temática pouco afeita à nossa realidade.

Baseada no romance homônimo de David Foenkinos, a trama gira em torno de um manuscrito encontrado por uma jovem editora, relegado a uma obscura biblioteca da Bretanha que guarda apenas originais rejeitados. A obra-prima, assinada por um certo Henri Pick, dono de uma pizzaria da região e falecido dois anos antes sem ter demonstrado qualquer pendor literário frente àqueles que o conheciam, chama a atenção de Jean-Michel Rouche, crítico literário famoso por um programa de televisão (mais uma referência bastante francesa), que questiona publicamente a autoria e acaba demitido. Rouche então começa uma cruzada para descobrir a verdade, o que o leva a investigar a família do suposto autor, suas relações com a cultura russa (visto que o romance em questão faz extensas alusões à obra de Pushkin) e as intenções da editora. Em meio a essa rede intrincada de relações, Rouche, belamente interpretado pelo excelente Fabrice Luchini, se envolve com a filha de Pick, Joséphine (Camille Cottin), ela mesma insegura com relação ao passado do pai.

A partir dessa instigante premissa - que agradará talvez apenas aos aficionados por literatura - o filme lança mão de diversos elementos do imaginário francês (podemos pensar no Salon des Refusés, ou no processo enfrentado por Flaubert quando da publicação de "Madame Bovary") para traçar um grande debate sobre autoria e mercado editorial na contemporaneidade, sempre colorido de um tom cômico mais afeito ao riso cúmplice que à gargalhada.

O diretor Rémi Bezançon já havia realizado outra excelente adaptação literária, Um evento feliz, um dos filmes mais honestos sobre a conflituosa pluralidade de sentimentos da gravidez. Aqui, ele remete indiretamente a figuras como a da fotógrafa Vivian Maier para delinear esse jogo de ocultar/revelar que é o fascínio próprio da autoria nas artes individuais, principalmente no âmbito da literatura, e que jamais terá igual lugar no cinema.

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O PROFESSOR SUBSTITUTO, de Sébastien Marnier

por Luiz Fernando Gallego

Outro caso em que o título brasileiro de um filme desvia a atenção do espectador para um aspecto que acaba nem sendo aquele que o enredo termina por destacar.

Mas mesmo que fosse mantida a ideia do título original, “L’heure de la sortie”, o roteiro assinado pelo próprio diretor (em colaboração, e adaptado de um romance lançado em 2002) enfoca na maior parte do tempo a difícil relação de um professor, de fato, substituto (de outro que se matou na frente da turma) e seus estranhos alunos considerados muito acima da média pela direção do colégio em que a história se passa.

Desde “A Outra volta do parafuso”, de Henry James (Os Inocentes na versão cinematográfica de Jack Clayton em 1961) espraiou-se na ficção de terror o tema de crianças ou adolescentes que despertam, nos adultos que deles cuidam, suspeitas sinistras de que os menores podem estar escondendo algo bem maléfico. Na maior parte do tempo deste filme, os alunos têm comportamento esquivo, fazem o gênero passivo-agressivo para com o novo mestre, mas também verbalizam sua arrogância e desagrado com ele explicitamente.

Por seu lado, o professor não encontra eco para suas preocupações nos demais colegas - e muito menos na direção que se orgulha dos resultados excepcionais destes alunos nos testes. A intenção de criar um clima insólito dentro da banalidade cotidiana, entretanto, deixa pontas soltas nas atitudes dos personagens. Logo no início, os próprios alunos mencionam que recebem acompanhamento psicológico desde o suicídio do professor anterior, mas em nenhum momento o novo responsável pela turma leva a este psicólogo (que nunca aparece) seus temores. E até mesmo constatações de comportamento bizarro e agressivo dos jovens.

Em algum momento, alguém da direção diz ao professor que o que os alunos fazem fora dos limites do colégio não lhes diz respeito. Mas o professor testemunha várias atitudes de alto risco por parte destes alunos. Inicialmente, por mero acaso, mas depois ele passa a espionar o grupo - e até chega a interferir em algo que eles estão fazendo. Mas jamais se dirige aos pais ou mesmo às autoridades legais. Para o lado “realista” do filme, suas opções soam nem insatisfatórias. Mas ao mesmo tempo, telefonemas anônimos, luzes que se apagam, pesadelos do professor e outras coisas bem estranhas que acontecem parecem tentar aprofundar o clima de absurdo com certas alusões que podem ter tido intenções “kafkianas” (já que o professor tenta escrever uma tese sobre Kafka) ou acentuar uma paranoia do professor...

Mais não questionaremos sob o risco de spoiler do desfecho imposto pelo roteiro, muito pouco claro se em relação aos alunos ou se se trata de algo acidental que aquele grupo temia.

Não conhecemos o romance original, mas pelo que se tem acesso na internet sobre o livro, o roteiro do filme teria modificado bastante aspectos da obra literária, premiada como “primeiro romance”, mas que também recebeu críticas menos favoráveis.

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A REVOLUÇÃO EM PARIS, de Pierre Schoeller

por Luiz Fernando Gallego

O título original não mente. Significa “um povo e seu rei”. O recorte do roteiro (de autoria do diretor) é exatamente o que o título original promete: num breve prólogo, Luís XVI encena o ritual de lava-pés da Quinta-feira Santa com meninos pobres de Paris quando uma das crianças manifesta (fantasia?) que em breve terá tamancos. Ter tamancos para calçar, ter pão para comer, necessidades elementares não satisfeitas para o povo enquanto em Versalhes o fausto e desperdício dominam.

Não há dados político-históricos do que levou à queda da Bastilha no famoso “14 de julho” além da desigualdade abissal entre a nobreza e a população. Assim como não há menção ao que se seguiu à condenação do Rei, “o terror”. O foco é o período entre 1789 e 1793 - quando o Rei foi guilhotinado.

As tomadas com a aristocracia ou na Assembleia Nacional com seus representantes (Marat, Robespieerre, Danton, Saint Juste etc) são sempre alternadas com as de um grupo de populares (um artesão que constrói vidros, chamado apenas de “o tio”, uma jovem de nome Françoise e um rapaz de nome Basile, entre outros). Há mesmo uma montagem paralela entre cenas da Assembleia e o aprendizado de Basile com o “tio” para que se adestre em soprar o vidro em alta temperatura. Surpreende um pouco a platitude das frases que o “tio” usa para explicar como o jovem deve fazer, repetindo termos como “paciência”, “lentamente” – em contraste com o que (talvez) seja um retrato da precipitação de membros da Assembleia em condenar o rei à morte.

Surpreende por ser do mesmo diretor de “O Exercício do Poder” (2011), uma ambiciosa realização de forte conteúdo político. Pois “A Revolução em Paris” (título nacional) deixa a política muito restrita, por exemplo, à reprodução dos discursos dos deputados a favor e contra a morte do Rei, numa espécie de recriação de episódios históricos, sem que fique clara uma posição pessoal do cineasta e roteirista sobre o significado dos fatos ou o pano de fundo por trás desses mesmos fatos.

A recriação de ambição documental pode ser apreciada, assim como o talento já conhecido de vários atores, mas no momento atual em que minisséries são apreciadas pelo público e crítica, não seria o caso de uma realização mais ampla em capítulos em vez de um filme de 130 minutos que não parece ir além da reconstituição cenográfica e pictórica?

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OS DOIS FILHOS DE JOSEPH, de Féliz Moati

por Luiz Fernando Gallego

A única possibilidade que nos ocorre sobre a estreia do ator Féliz Moati em longa metragem é que seu roteiro tenha alguma origem em situações autobiográficas: afinal, ele já realizou um curta chamado Après Suzanne em 2016 e neste longa o personagem Joachim (interpretado por Vincent Lacoste ainda em cartaz no Rio no sensível “Amanda”) está em crise pelo término de namoro com uma tal Suzanne. E foi o mesmo Lacoste que trabalhou no curta do diretor fazendo um tipo também chamado Joachim...

Porque o que incomoda no enredo são as atitudes um tanto esquisitas do trio formado por um pai (Benoît Poelvoorde) e dois filhos, um já estudante de Medicina (Lacoste) e outro, Ivan, com apenas 13 anos (Mathieu Capella). Só no terço final há menção ao abandono da mulher de Joseph após o nascimento do caçula. Os três vivem juntos em movimentos de afeto e críticas recíprocas, aproximações esquivas e discussões frequentes, cuidados mútuos e descuidos nem sempre apenas pontuais.

A (pouca) ação é quase sempre disparada pelo menor, preocupado com o pai depressivo desde a doença de um tio. Quando o filme começa, o doente já morreu e Joseph está mais deprimido ainda. Ficamos sabendo que ele é médico, mas que desde o diagnóstico de câncer em seu irmão, largou o consultório (e vive de que? – não saberemos) para fazer cursos de escrita, pretendendo ser romancista. O talento nesta área parece ser nulo, escreve clichês como se fossem frases de grande profundidade e não tem nenhuma autocrítica. No curso, uma colega o teria comparado a Tolstói (!) e também dorme com ele...

Joachim paquera até a prima cujo pai acabou de morrer e investe na professora particular de latim de Ivan que estuda latim de acordo com seus arroubos religiosos ao mesmo tempo em que escreve versos eróticos para as colegas de classe, mais especialmente fixado em uma delas que não quer nada com ele. Apesar do perosnagem ter 13 anos, o ator parece bem menos; e a atriz por quem seu personagem está vidrado, bem mais.

O clichê de “família disfuncional” não chega a ser exato, mas alguma coisa se aproxima disso, perdendo-se a oportunidade de abordar o tema de um universo masculino em crise em todas as três faixas etárias enfocadas. A direção é pesada e pouco criativa, os personagens não conquistam a plateia e algumas bizarrices - que poderiam ser mais palatáveis numa chave mais cômica ou ligeira, com um grão de nonsense – soam como se os personagens fossem construídos sem muito cuidado. Poelvoorde consegue dar um pouco mais de corpo ao pai, o pequeno Capella não parece especialmente talentoso (mas o personagem é mesmo pouco convincente, mesmo levando-se em conta as esquisitices que adolescentes podem apresentar) e Lacoste não repete o pathos que encarnou em “Amanda”, mais parecendo um eterno mal-humorado - com um esboço de desfecho “redentor” que soa péssimo.

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QUEM VOCÊ PENSA QUE EU SOU, de Safy Nebbou

por Luiz Fernando Gallego

O título nacional não deve ser entendido como uma pergunta e nem muito menos uma “carteirada”: trata-se de um perfil falso no facebook. Se o tema não é exatamente novo, o recurso, utilizado por uma mulher de 50 anos, acrescenta a abordagem da dificuldade enfrentada por muitas com o passar do tempo: homens mais velhos com mulheres bem mais novas são mais bem assimilados, mas o inverso não o é tão frequentemente. E há outras situações que vão interessar mais ao enredo, baseado num romance de 2016 escrito por Camille Laurens, pouco conhecida no Brasil.

Ter mais de um desenvolvimento, diverso do anterior, a partir de uma mesma situação de base, também não é nenhuma novidade, sendo impossível não lembrar outros filmes (ou os romances que lhes deram origem). Não citaremos quais nos ocorreram para não incorrer em spoiler. Basta dizer que a autora estreou com uma ficção que se desenvolvia no formato de uma “narrativa em abismo” (mise em abyme) e que este filme também ilude intencionalmente o espectador, surpreendendo com novas informações que irão surgindo gradativamente, quase que o tempo todo. Não deixa de haver um certo clima de suspense que também pode reforçar a atenção da plateia ao longo do filme.

De qualquer modo, se alguns truques da narrativa funcionam bem, algumas outras situações podem soar menos verossímeis, como no caso de uma certa ingenuidade do jovem adulto que não desconfia que a mulher que se mantém inacessível para um encontro real - ao vivo e a cores - possa ser uma construção virtual fake. Mesmo assim, o que interessa é a necessidade desta mulher de viver para si própria a fascinação com a imagem idealizada e mais jovem que ela construiu. Neste sentido é que o filme se sustenta principalmente no desempenho maravilhoso de Juliette Binoche. A já famosa capacidade da atriz transmitir tantas emoções através de sua privilegiada mímica facial encontra uma oportunidade e tanto na ambivalência da personagem. Seus diálogos telefônicos com o homem jovem que ela (ou seu avatar) seduz(em) pela internet são muitas vezes mais expressivos pelo que o rosto de Juliette transmite do que pelas próprias linhas do roteiro. Ela encontra um bom parceiro no ator François Civil que também encarna de modo verossímil a tal ingenuidade necessária para o que a história quer contar, ainda que na vida, em geral, adultos mais jovens possam ser mais espertos para as trapaças virtuais do que usuários mais velhos - como seria o caso da personagem cinquentona de J. Binoche.

O diretor Safy Nebbou, inédito comercialmente no Brasil, apesar de já ter cinco longas anteriores no currículo, não escapa de muito uso do campo-e-contracampo nas sessões de terapia entre Claire (Juliette) e a médica vivida por Nicole Garcia, conseguindo algumas bonitas e significativas imagens eventualmente quando mostra Claire, sozinha ou não, espelhada em múltiplas superfícies, como que “duplicada” ou mesmo “multiplicada”.

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BOAS INTENÇÕES, de Gilles Legrand

por Luiz Fernando Gallego

A intenção deste filme é a de provocar o riso fácil - e isso o filme consegue inicialmente. Entretanto, a caricatura de uma mulher muito engajada em causas sociais (e interpretada de modo um tanto ridículo por Agnès Jaoui) que, por outro lado, vai se revelando pouco atenta a seus próprios filhos e marido, acaba por soar como um deboche pouco feliz. Assim como os imigrantes aos quais ela se dedica tanto surgem como estereótipos grosseiros; estereótipos que, de passagem, o filme parece querer criticar. O clichê pode ofender espectadores mais sensíveis no caso de um jovem brasileiro (embora o ator seja português) muito limitado intelectualmente com sua camisa amarela da seleção. Mas é mais grave ainda no caso da búlgara com jeito de piranha ou do cigano ladrão, para ficar em dois exemplos desagradáveis. Poucos momentos respeitosos surgem quando um homem mais idoso e negro africano compreende de modo sensível a situação do clássico do teatro francês “Cyrano de Bergerac” (tema que aparece em mais dois filmes do Festival).

As relações familiares da personagem central também usam de um carto clima melodramático com “explicações” de uma psicologia rasa ao mostrar sua mãe como distante e fria, para não falar no marido, um ex-imigrante que ela teria cuidado no passado e, por fim, se apaixonado.

Não se trata de questionar o “politicamente incorreto” do roteiro: não seria tão incômodo se o filme funcionasse bem e o humor fosse mais inteligente. Lamentavelmente, não é o caso.

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