Críticas


DOSSIÊ TARANTINO: JACKIE BROWN (1997)

15.08.2019
Por Luiz Baez
A fictícia Jackie resgata a carreira da verdadeira Pam

Frente a frente encontram-se dois grandes nomes do cinema estadunidense: ela, um ícone do blaxploitation; ele, uma estrela da Nova Hollywood. Nascidos na mesma década, Pam Grier e Robert Forster gozavam de certo prestígio por ocasião da produção de Jackie Brown. Em comum, enfrentavam também relativo esquecimento e, por que não, crises de meia-idade. Grier transitava entre produções menores e papéis televisivos, ao passo que Forster, desvinculado de qualquer empresário ou agente, refugiava-se nos filmes B. Longe de qualquer pretensão biográfica, o resgate dessa história comum vivifica as personagens Jackie e Max, derivadas de Rum Punch, romance escrito cinco anos antes por Elmore Leonard.

“Que tal uma música?”, sugere Jackie, em diálogo ausente no livro. Envolta por um roupão, a aeromoça abaixa-se em plano aberto e vasculha sua coleção de discos. “Não entrou na revolução dos CDs?”, brinca Max. “Eu comprei alguns, mas não posso começar tudo de novo”, ela retruca. “Você não pode comprar os lançamentos em vinil”, pondera o amigo. Corte para a agulha sobre o disco, enquanto se ouve a resposta: “Eu nunca compro lançamentos”. Então se iniciam os primeiros acordes de “Didn’t I”, do trio The Delfonics.

Antecipados por essa sequência, os temas do envelhecimento e do recomeço guiam as falas seguintes, deveras semelhantes às escritas por Leonard. Jackie teme o passar dos anos. Não porque sua bunda esteja maior – como zomba no filme –, mas porque não mais pode “começar tudo de novo”. A migração do vinil para o CD serve, portanto, como anáfora de uma mudança maior: a passagem de um constante, ainda que escasso, salário da companhia aérea para a possível necessidade de reinserir-se no mercado de trabalho – possibilidade, por sinal, que a assusta mais que Ordell, o impiedoso traficante eternizado por Samuel L. Jackson.

Ora, não seria esse mesmo conflito – qual seja, a busca pela estabilidade profissional – experimentado por sua intérprete? Até a escolha musical parece corroborar essa hipótese. “Eu dei meu coração / E minha alma para você” (“I gave my heart / And soul to you”): os Delfonics referiam-se, é verdade, a uma garota; no caso de Pam Grier, poderia ser esse interlocutor feminino a indústria cinematográfica. “Eu te dei um amor / Que você nunca conheceu” (“Gave you a love / You never knew”): toda a dedicação devotada pela atriz às suas performances esvaiu-se tão logo ela deixou de ser o sex symbol de outrora. Diferente canção, no entanto, marca tanto a abertura quanto o encerramento do longa-metragem.

Na última cena de Jackie Brown, a protagonista, capturada em close, canta “Across 110th Street”, tema do filme homônimo (A máfia nunca perdoa, na tradução brasileira). Os versos falam sobre as dificuldades impostas a um jovem negro estadunidense. Também negra – outra mudança em relação à obra de Leonard –, a aeromoça Jackie é uma mulher de meia-idade para quem as oportunidades se fecham. Fazendo qualquer coisa para sobreviver (“Doing whatever I had to do to survive”), sua personagem lidera uma trama de suspenses e traições. E, nesse processo, a fictícia Jackie resgata a carreira da verdadeira Pam. É o gesto tarantinesco por excelência, marca de um diretor que devolveu aos holofotes nomes como John Travolta (Pulp Fiction) e David Carradine (Kill Bill).

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