Críticas


CORINGA: Resisto ergo sum ou o retorno do cinema político

16.11.2019
Por João de Oliveira
Não há como não se regozijar desse retorno do cinema militante.

Em consequência da onda ultraconservadora que submergiu politicamente uma parte do mundo nos últimos anos, alguns filmes lançados recentemente fazem claramente um apelo à resistência. Dois deles, Bacurau e Papicha, situaram suas narrativas fora do tempo presente. Se o primeiro escolheu o futuro, o segundo, por ser inspirado em história real, se passa no passado. Ambos poderiam se passar no presente, pois falam de coisas atuais. Esse recurso foi muito utilizado por nossos cinemanovistas. Deus e o Diabo, Vidas Secas, Os Inconfidentes e até mesmo Garrincha, Alegria do Povo, tal como os dois filmes supracitados, utilizaram o passado para melhor atualizar a crítica do presente, apontando e denunciando a sua atemporalidade.

Nesse artigo analisaremos um outro filme, que apela igualmente à resistência e valoriza a capacidade reativa de seres constantemente ultrajados, violentados em seus mínimos direitos e tratados como párias sociais pela sociedade e o Estado. Desde que Donald Trump assumiu o governo dos Estados Unidos, Hollywood vem produzindo uma série de filmes que apresentam narrativas que se opõem, direta ou indiretamente, aos ideais que ele defende e representa. De todos, talvez o mais declaradamente antiTrump seja Joker, de Todd Philips.

Arthur Fleck, um homem pobre que sofre de problemas mentais, é o emblema de uma América que virou às costas para seus cidadãos menos favorecidos. O filme pode ser dividido em duas partes. Na primeira, antes de suas primeiras reações, ele parece não ter a menor vontade própria. Taciturno, vítima das vicissitudes e das violências quotidianas, vive cabisbaixo, dedicado aos cuidados da mãe e ao emprego precário. Traído, abandonado e humilhado por quase todos que o cercam, ele sofre estoicamente.

Tudo o que deseja, como mostra o seu onirismo, é um pouco de ternura, é ser escutado, apreciado, respeitado e amado pelo que ele é e não pelo que pensam que ele é. Seus devaneios procuram corrigir uma realidade insatisfeita assegurando um existir e uma existência diferente daquela que ele realmente tem. Como muito bem observou Freud, “a pessoa feliz não fantasia, somente a insatisfeita. As forças motivadoras das fantasias são os desejos insatisfeitos, e toda fantasia é a realização de um desejo, uma correção de uma realidade insatisfatória”. É apenas nesses sonhos acordados que ele parece estar vivo, que sua vida parece ter sentido.

Essa vida fantasmática é endossada pela direção de Todd Philips. A fotografia no início é fria e fosca, tendendo para um tom ligeiramente esverdeado que evidencia um aspecto bolorento de decadência. As ruas são sujas e os prédios e os transportes públicos são envelhecidos. Uma das grandes invenções do roteiro é a greve dos lixeiros que enche a cidade de lixos orgânicos, inorgânicos e, metaforicamente, humanos. Isso explica porque o único personagem menos negativo do filme seja um anão. Se partirmos do exemplo de que os anões são quase sempre associados à monstruosidade no cinema, a humanidade teria abandonado os humanos.

Nessa primeira metade do filme, Arthur Fleck lembra o Gwynplane do livro O Homem que Ri, de Victor Hugo, adaptado algumas vezes para o cinema. Ambos são palhaços e possuem um riso triste, incontrolável, alheio à vontade própria e que é resultado de violência sofrida. Ambos são portadores de deformidades que provocam humilhações e agressões constantes dos outros. Uma deformidade que, nas duas obras, emblematiza a posição social dos desfavorecidos, embora o personagem do romance tenha uma origem aristocrática que Arthur Fleck poderia ter tido. Se o personagem de Victor Hugo, fonte de inspiração estética para o personagem do Joker, tenta em vão tornar-se um representante politico das massas, o de Todd Philips torna-se, involuntariamente, líder de uma revolta dos desfavorecidos.

Todavia, contrariamente à ação do povo no livro e àquela de uma parte da população americana e mundial que aceita passivamente a destruição de seus direitos e o desprezo do Estado, em Joker os desprezados pelo sistema decidem reagir. Espancado por estranhos nas ruas, abandonado pelo patrão e traído por seus familiares e colegas, Arthur Fleck reage a uma agressão de três burgueses brancos e acaba se transformando num herói fortuito.

Os personagens agredidos não poderiam ser mais emblemáticos, verdadeiras caricaturas, da América de Trump. Bem sucedidos profissionalmente, eles são o antônimo social perfeito do loser, do desclassificado social que Fleck simboliza. Verdadeiros WASPs, eles parecem vestir pijamas no mundo dos desfavorecidos. Cidadãos acima de qualquer suspeita, eles se consideram acima de todos e tudo, fora de qualquer imperativo categórico, lhes deve ser franqueado. Qualquer obstáculo interposto entre seus desejos e vontades deve ser imediatamente removido ou demovido, ainda que seja pela violência. Trata-se de violência típica e naturalizada do mais forte sobre o mais fraco, do superior sobre o inferior.

Longe do que poderíamos e gostaríamos de pensar, a reação de Arthur Fleck não é premeditada, consequência direta de uma súbita tomada de consciência ou de uma rejeição natural da violência. Ainda mais interessante, para o ponto de vista que a narrativa defende, ela é quase instintiva, autodefensiva. Os seus atos somente se tornam uma reação ao sistema a partir de sua repercussão positiva sobre a massa.

A partir desse momento, tudo muda. Esse comportamento da massa incute-lhe um sentimento de pertencimento, de existir que ele desconhecia até então e o transforma. As fantasias desaparecem e ele toma consciência da irrealidade do mundo no qual vivia, saindo da letargia. Ele assume finalmente a direção de sua própria vida e toma posse de um personagem que parecia alienado aos outros. Seu comportamento muda e a direção o acompanha mais uma vez. Ele se torna mais leve, mais etéreo, mais vivo. A fotografia do filme torna-se menos embaciada, adquirindo uma tonalidade mais amarelada, mais quente, tal qual a sua nova roupa.

Nesse momento a narrativa busca se solidarizar com ele. Nesse caso, poderíamos dizer que ela faz apologia de uma violência reativa, subversiva e transformadora, no melhor estilo de Georges Sorel, que avaliza, em caso de sociedades desiguais, a violência da classe proletária contra os poderosos. Aliás, a questão da luta de classes também aparece no filme. As classes não se misturam e não se cruzam. Os poucos encontros entre Fleck e os representantes das classes mais favorecidas terminam em conflito. No primeiro, ele é agredido pelos três brancos. No segundo, ele tenta falar com a família Wayne, mas é barrado. No terceiro ele precisa travestir-se de lanterninha para entrar num cinema no qual os ricos riem zombeteiramente das aventuras de operários destruídos e engolidos pelas engrenagens industriais e capitalistas em Tempos Modernos, de Charles Chaplin. Ele somente consegue encontrar Thomas Wayne no banheiro e ainda é agredido. No quarto encontro, ele é humilhado pelo apresentador de televisão.

Para Sorel, não deveríamos analisar a violência a partir de seus resultados imediatos, mas de suas consequências mais duradouras, pois uma revolução permanente somente pode advir da revolta violenta dos operários contra a burguesia e da destruição de uma ordem social mantida por e para os mais privilegiados. Tal revolução seria feita em favor “dos interesses primordiais da civilização” e seria a única solução para salvar o mundo da barbárie do capitalismo. E o primeiro passo para essa revolução deve ser dado pela organização de greves gerais a partir da constituição de um sindicalismo revolucionário. Tudo isso está presente, de uma certa forma, no filme.

Nessa segunda parte do filme, é possível do mesmo modo, do ponto de vista dos personagens, fazer uma aproximação com o excelente conto O Cobrador, de Ruben Fonseca. Se a atitude do personagem do conto, que decide cobrar da sociedade tudo o que ela lhe deve e começa a matar todo mundo que encontra pela frente, é consciente e refletida, a conscientização de Fleck, como já vimos, é progressiva e se dá a partir do reconhecimento público de seu ato. Mas ambos encontram satisfação no espírito de vingança e revolta.

Três passagens do conto de Fonseca lembram muito o filme. Na primeira, o personagem do conto, narrado na primeira pessoa, afirma que quando satisfaz seu ódio, ele é “possuído por uma sensação de vitória, de euforia” que lhe dá vontade de dançar, de emitir ”pequenos uivos, grunhidos, sons inarticulados, mais próximos da música do que da poesia”, que seus pés “deslizam pelo chão”, enquanto o “corpo se move num ritmo feito de gingas e saltos, como um selvagem”. Não há como não pensar na cena da dança na escada, no metrô e no meio da multidão.

Na segunda, ele afirma estar “querendo muito matar um figurão desses que mostram na televisão a sua cara paternal de velhaco bem-sucedido, uma pessoa de sangue engrossado por caviares e champãs”.

No final do excelente conto, ele muda de postura e afirma o seguinte : “nada de sair matando a esmo, sem objetivo definido. Eu não sabia o que queria, não buscava um resultado prático, meu ódio estava sendo desperdiçado. Eu estava certo nos meus impulsos, meu erro era não saber quem era o inimigo e por que era inimigo. Agora eu sei, Ana me ensinou. E o meu exemplo deve ser seguido por outros, muitos outros, só assim mudaremos o mundo”. Talvez esses não sejam exatamente os propósitos de Arthur Fleck, mas é seguramente o da instância narrativa do filme.

Apesar de conto e filme fazerem um apelo à reação, incitarem a sair da inação, o filme é mais ambivalente. Ao mesmo tempo em que parece fazer apologia da violência reativa, ele condena o fato de que, na carência de líderes, as populações exploradas elejam como seus heróis e possíveis salvadores personagens perturbados e desqualificados.

O desejo de vingança, a revolta e a motivação aproximam Arthur Fleck de Travis, o chofer interpretado por Robert de Niro em Taxi Driver. Além deste último, Joker cita e também homenageia O Rei da Comédia, ambos de Martin Scorsese e interpretados por de Niro.

Num momento em que o mundo sofre a ameaça do conservadorismo mais fossilizado e em plena era dos filmes de ação e super-heróis quase sempre desconectados da realidade, não há como não se regozijar desse retorno do cinema militante. Esperemos que tenha vindo para ficar. Como já observara o filósofo marxista e militante anticolonialista Georges Labica, “A sonolência, as resignações e as submissões terão apenas um tempo. Já existem condições para desencadear, nos lugares mais inesperados, revoltas em massa, insurreições e revoltas violentas”. Estejamos, então, preparados.

Gosto muito da atuação de Joaquin Phoenix, embora a ache exagerada em alguns momentos. Ainda assim, torcerei para que ele seja lembrado pela Academia e ganhe, finalmente, a sua primeira estatueta.

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