Críticas


ANTOLOGIA DA CIDADE FANTASMA

De: DENIS CÔTÉ
Com: ROBERT NAYLOR, DIANE LAVALLÉE, RÉMI GOULET
13.02.2020
Por Luiz Baez
Como n’A vila de M. Night Shyamalan, a coesão social prevalece sobre as individualidades

As gélidas paisagens crescem em gelidez. O negativo dezesseis milímetros denuncia sua textura, e soprantes correntes invadem a trilha sonora. Diante de um elemento urbano, contudo, cessa o horizonte de pura branquidão. Cada qual em seu extremo, um homem e uma mulher fitam-se mutuamente. Atrás deles, gigantescas retroescavadeiras entrecortam Irénée-les-Neiges, vilarejo cujo próprio nome espelha total alvura. “Isso é impressionante”: uma única linha de diálogo sobrepõe-se à ambiência ventosa. No momento seguinte, a dupla senta-se dentro da escavadora, em sentido contrário ao do plano médio. Gisèle, mãe do recém-falecido Simon, anuncia-se como tal. James, responsável pela obra, sinaliza desconhecê-lo. “Simon Dubé”, enfatiza ela, em desesperada busca por reconhecimento. A ignorância persiste. “Você acredita em algo maior que nós, James?”, desvia o assunto. “Não tenho muito tempo para pensar nisso”, e a discussão se encerra.

A descrita sequência distingue posturas opostas. De um lado, James, provavelmente residente em uma grande cidade, organiza tempo e vida em torno do trabalho. Do outro, porém, Gisèle incorpora metonimicamente uma vila tão minúscula quanto coesa. Ao todo, 215 pessoas habitam Irénée-les-Neiges, divididas em 186 casas. Ou melhor, 185, já que uma misteriosa ocorrência implicou o abandono do imóvel limítrofe. Quinze quilômetros separam a região do hotel mais próximo, e há muito não se experienciava a morte. Por isso Gisèle se surpreende. Se James não ouviu falar de Simon, certamente se trata de um forasteiro. Em uma comunidade tão pequena, afinal, nenhum rosto causa estranheza. Especialmente para Simone Smallwood, a beberrona prefeita que faz as vezes de psicóloga e líder espiritual. “Para um castelo de cartas cair, você só precisa retirar uma”: assim é o seu discurso no velório.

“Simon era uma dessas cartas”, completa a Madame Smallwood. E estava certa. A vontade de Simon fugir materializa-se já nos primeiros planos, quando uma inesperada e brusca curva desvia seu carro em direção ao concreto. A carta tomba e consigo derruba o castelo. O desconhecido abole o reino do familiar, e crianças mascaradas aproximam-se do acidente - um leitmotiv visual de Denis Côté. Refletidas na traseira de um carro, atiçadas como fogos de artifício ou simplesmente sentadas na neve, tais figuras assustam justamente pois carecem de expressão. Porque infantis, poderiam crescer e produzir diferença - ou moldar um rosto. Irénée-les-Neiges, no entanto, não parece muito aberta à alteridade.

Forte indício encontra-se na chegada da psicóloga Yasmina Bouzidi. Aos desconfiados olhos dos habitantes, um turbante muçulmano já significa um não pertencimento. O infundado preconceito, ou medo do outro, converte-se esteticamente em verdadeiro horror. Espectros fantasmagóricos adentram o quadro, e passos constantes e crescentes alastram-se pela trilha sonora. Em aterrador cenário, talvez escapar apresente-se como a melhor - ou a única - alternativa. Ou, quem sabe, nem haja essa possibilidade - vide a morte de Simon e o desaparecimento do pai, Romuald. Como n’A vila de M. Night Shyamalan, a coesão social prevalece sobre as individualidades e, sob a falsa opção da fuga, esconde-se singular sina: converter-se em parte do repertório de uma vila em desaparição, em capítulo de uma antologia da cidade fantasma.



 

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